Imagem ilustrativa de uma reportagem sobre xenofobia, que mostra pessoas festejando.
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Xenofobia: os preconceitos que o brasileiro sofre lá fora

Até hoje os estrangeiros vêem os brasileiros como vindos do País do futebol, do carnaval, da Amazônia, das mulheres sensuais de biquíni e do crime, e o resultado é que os casos de xenofobia se tornam rotina na vida de muitos que  moram em outros países do mundo

Por Gabriela Guedes, Larissa Buzon Cardoso, Maria Luiza de Alcântara Rodrigues, Matheus Roviezzo e Rhuan Teixeira

Xenofobia é a junção de xeno (que, em grego, significa “estrangeiro” ou “estranho”) com fobia (“medo”). Medo do que é estranho, do estrangeiro. Na prática, é o que a brasileira Gabriela Daher, que mora em Barcelona, já sentiu na pele. “Trabalhei em 2019 na Espanha, no suporte da empresa Airbnb, e já atendi portugueses dizendo que não queriam ser atendidos por brasileiros e pediram para transferir a chamada.” 

Relatos como esses fazem parte da vida de brasileiros que moram fora do Brasil. Gabriela afirma que passou pela mesma situação vivida com os portugueses inúmeras vezes. Europeus preferem ser atendidos por europeus, e não fazem a menor questão de esconder isso. O preconceito também é um obstáculo na hora que eles precisam procurar um trabalho. “Em uma entrevista de emprego subestimaram meu nível de inglês por ser brasileira. Na hora de contratar, alugar um apartamento, fazer um financiamento, são mais xenofóbicos com brasileiros”, desabafa Gabriela. 

Victoria Brigatto lembra de um episódio ocorrido com ela em 2020, na Austrália. Por ser branca, eles duvidavam que Victoria fosse brasileira, mas não duvidavam quando o seu ex-companheiro se aproximava. “Eles olhavam pro meu ex-namorado que é negro e acreditavam que ele era brasileiro, mas eu não.”

Essa objetificação da mulher no Brasil também é comum em outros países: “Em relação à mulher, ela é vista muito por causa da ‘fama’ da sensualidade e sexualidade”, opinou Bruno  Brigatto, que morou na Austrália em 2017, e é irmão de Victoria. A idealização das brasileiras também pode gerar empecilhos em relacionamentos amorosos com estrangeiros, é o que opina Victoria. “Também têm um estereótipo ruim de que mulheres brasileiras são fáceis e isso gera desconforto quando você está em aplicativos de relacionamento.

Políticas de imigração são bastante discutidas em governos da Europa. Segundo Jamile Valente, brasileira que morou na Suécia em 2020, a maneira como os políticos tratam esse assunto também impacta na recepção de outros povos nos países da região: “Tenho percebido que eles (políticos) estão ficando mais xenofóbicos. Partindo do princípio que o próprio governo sueco está dificultando extensões de vistos e autorização de moradias para imigrantes”.

A visão estrangeira

De acordo com o Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), a xenofobia é baseada em “atitudes, preconceitos e comportamentos que rejeitam, excluem e difamam as pessoas com base na percepção de que são estrangeiros à comunidade ou sociedade nacional”. Pode acontecer de brasileiros serem xenófobos, como ocorre contra os refugiados, ou então de os brasileiros serem vítimas da xenofobia.

A visão estereotipada de uma nacionalidade prejudica a credibilidade e a valorização do país no cenário mundial, e isso também acontece com o Brasil. “Alguns são muito liberais, mas não são todos. Muito perigoso lá, tem roubos e assaltos”, relatou Lina Ortega, moradora do Peru que possui ascendência chinesa, quando perguntada sobre a visão dela em relação ao Brasil. Esse imaginário dos estrangeiros intensifica alguns aspectos da nossa realidade, transmitindo a ideia de que o Brasil não é um país sério. 

“Em áreas mais remotas do País existem opiniões xenófobas contra outras nacionalidades, inclusive brasileiras. Muitas vezes, está mais ligado a gatilhos visíveis, como tom de pele ou características faciais e, ocasionalmente, sotaque “, disse Sylvan Thompson, morador do Canadá.

Sylvan admite já ter tido uma visão estereotipada dos brasileiros, mas que hoje em dia pensa diferente: “Minha visão definitivamente mudou com o tempo. Quando criança, minha imagem dos brasileiros era mais centrada nas fotos que víamos na América do Norte mostrando brasileiros nas praias e nas comemorações do Carnaval”, afirma. Ele lembra que a América do Norte tinha e ainda tem uma cultura conservadora, o que propicia uma visão dos brasileiros como “bastante liberais”. 

Para enfrentar a xenofobia, parta de onde ela vier, a informação e a educação acerca da cultura dos outros povos são elementos capazes de quebrar os estereótipos. “À medida que envelheci e comecei a ler mais publicações internacionais e acompanhar eventos internacionais, desenvolvi uma compreensão das divisões políticas, desafios sociais e valores religiosos entre os brasileiros, dando-me um senso mais forte da diversidade dentro da população”, diz Sylvan.

“A visão geral dos brasileiros vem do que as pessoas viram nos filmes de ficção e na televisão, e muito disso remonta à década de 1980. Esta é uma visão muito dramatizada e imprecisa, projetada para entretenimento em vez de precisão. Como a maioria das notícias assistidas no Canadá cobre principalmente o hemisfério norte (América do Norte, Europa e Ásia), há uma exposição limitada a quaisquer histórias verdadeiras da população brasileira”, completa Sylvan. 

Para saber de mais casos de xenofobia com brasileiros e escutar o que a socióloga Michele Correa tem para falar do assunto, escute o nosso podcast:

A responsabilidade midiática

A publicidade, mídia e governo sempre foram ferramentas fundamentais para a criação de uma identidade nacional. Mas durante muito tempo elas acabaram por firmar estereótipos da população. Entre os anos 1970 e 1980, a Embratur (Instituto Brasileiro do Turismo) usou diversas imagens de mulheres seminuas em folhetos oficiais de promoção do Brasil para estrangeiro, criando assim uma apologia ao turismo sexual.

Em 1983, o artista austro-hungaro, Arnold Schwarzenegger, veio para o Brasil e realizou um documentário intitulado Carnaval in Rio, onde passeava por pontos turísticos do Rio de Janeiro e admirava as belezas naturais da região. Porém, Arnold vai um pouco além nessa obra, chegando a apalpar dançarinas brasileiras e também incentivando uma mulher a passar os lábios em uma cenoura. A obra chegou a ser apontada como uma publicidade da prefeitura do Rio de Janeiro para trazer praticantes do turismo sexual, mas apesar das cenas impactantes, essa não é uma informação verdadeira.

Apesar dessas propagandas terem sido publicadas há mais de 4 décadas, suas consequências são sentidas até hoje na sociedade. No ano de 2019 o então presidente da República Jair Bolsonaro disse após ser perguntado sobre o turismo gay: “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”. Essa fala repercutiu pelo País inteiro, fazendo com que seis estados do Nordeste iniciassem campanhas de conscientização contra o turismo sexual.

A publicitária Márcia Guerreiro, profissional sênior de mídia com 28 anos de carreira, explica que as agências de publicidade melhoraram bastante. “Acredito que está dando passos para uma visão mais real. As grandes agências pertencem a grupos estrangeiros e por anos a criação das campanhas foram centralizadas num determinado país (Europa, EUA) que desdobravam para os países onde seriam veiculadas. Aos poucos o Brasil vem assumindo o papel de criar para as marcas para trazer maior identidade na comunicação.”

Mas para ela, a publicidade ainda não possui relevância o suficiente para formar opiniões diferentes. “A publicidade brasileira é extremamente conhecida e reverenciada no mercado internacional pelo talento e resultados, mas dentro do mercado publicitário mundial. Fora dele não acredito que seja relevante a ponto de ter alguma representatividade como formadora de opinião no âmbito geral”, conclui.