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“Vozes de Tchernóbil” mergulha no maior acidente nuclear da história

Livro de Svetlana Aleksiévitch dá voz às vítimas da explosão do reator radioativo, mostrando como a tragédia contribuiu para o fim da União Soviética

Por André Milhomem, Arthur Avelhanedo, Bruno Pantarotto, Bruno Yahn e Felipe Belli

Vozes de Tchernóbil é uma obra poderosa da escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch – vencedora do prêmio Nobel de literatura em 2015 – que recupera as memórias dos sobreviventes do acidente nuclear devastador da usina de Tchernóbil. Como em seu outro livro, “A guerra não tem rosto de mulher”, a autora faz um ótimo trabalho polifônico, construindo um ambiente capaz de transportar o leitor ao contexto agoniantedo maior desastre radioativo da história do planeta. E ela faz tudo isso por meio das vozes de dezenas de pessoas que vivenciaram de perto o que foi o desastre nuclear.

O livro, usado como base para a produção da série da HBO, Chernobyl, provoca uma grande reflexão sobre valores humanos e o da vida. Em uma obra histórica e multitemática, diferentes vozes relatam suas experiências pessoais com o momento da explosão, o pós-acidente e até mesmo os momentos que antecediam a construção de Tchernóbil. Como pano de fundo, a autora explora o contexto da Guerra Fria e do pós-Segunda Guerra. Os sentimentos se misturam com teorias da conspiração e temas políticos indissociáveis para a vida do cidadão (ex-) soviético.

Em sua grande maioria, cada nova fonte ouvida por Svetlana acrescenta uma nova maneira de olhar e analisar a explosão do reator nuclear. Alguns relatos são mais idealistas e reflexivos, outros mais descritivos e há aqueles mais impactantes e chocantes. Mas cada um com sua singular importância dentro da obra. Ressalva a falas específicas que acabam desviando o foco do tema original, como a do casal tadjique ou a da cantora Maria Fedótovna.

É um livro que fala, sobretudo, do ser humano. A falta de conhecimento em relação à radiação, à negligência e à hipocrisia do governo soviético, os brutais efeitos da exposição dos liquidadores e soldados que trabalharam na região, tudo isso é parte da integrante dos eventos relatados em Vozes de Tchernóbil e a maneira como cada indivíduo ouvido pela autora precisou lidar/ainda lida com tais acontecimentos.

A morte é um dos temas mais importantes da obra. A perda iminente e inevitável de vidas por conta da radiação rende comparações constantes do desastre de Tchernóbil com a “Guerra Patriótica” (nome pelo qual a Segunda Guerra era conhecida na União Soviética). As dificuldades da vida pós-desastre são marcantes, com diversas menções a filhos e filhas que nasceram com mutações ou que não chegaram a sair dos ventres maternos.

Não é uma obra fácil de se ler e certamente nada fácil de se esquecer. Vozes de Tchernóbil é uma leitura essencial para qualquer jornalista, historiador ou pesquisador sobre o assunto e para quem tenha vontade de entender mais a fundo o que foi esse evento tão desastroso. Tchernóbil é um divisor de águas na história humana. Com suas 383 páginas, o livro de Svetlana Aksiévitch faz o leitor refletir sobre confiança, patriotismo, vida humana e o inescapável avanço da tecnologia.

Vozes de Tchernóbil. De Svetlana Aleksiévitch. Companhia das Letras, 2016, 421 págs., 57,81 reais.