Cultura Livros para jornalistas

“Uma história de Sarajevo”, o relato sobre os horrores da guerra

A comic novel escrita por Caco Barcellos oferece uma narrativa envolvente que explora as complexidades guerra da Bósnia e detalha a rotina jornalística do autor

Por: Lucas Cataldi, Rodrigo Paulino, Pedro Shiroma e Tiago Hugolini

Uma História de Sarajevo é um quadrinho-reportagem escrito por Joe Sacco, que retrata os eventos da Guerra da Bósnia, um conflito que deixou mais de 100.000 mortos entre 1992 e 1995. A guerra, que foi causada principalmente por fatores étnicos-religiosos, contou com a atuação de forças da Bósnia, Sérvia, Croácia, assim como milicias paramilitares de origem mulçumana. Foi um dos conflitos mais longos da Europa desde o final da Segunda Guerra e palco de extrema violência por conta dos crimes de guerra cometidos por ambos os lados.

Por sua vez, a trama começa nos dias finais da guerra, com Joe recém-chegado numa Sarajevo sob cerco das forças Sérvias. Para conseguir se localizar na cidade, ele contrata Neven como intérprete e “quebra-galho”, que por sua vez acaba se tornando o principal personagem da narrativa. É através de Neven que Joe acaba entendendo não só aspectos do que tinha sido o conflito, mas também de como é a vida de um “fixer” para correspondentes de guerra.

. O personagem de Neven é naturalmente interessante, ex-franco atirador, tornado criminoso internacional, tornado soldado paramilitar, tornado “quebra-galho” de jornalistas” … não é atoa que com um passado tão cheio de feitos sua credibilidade durante a trama é com frequência posta em cheque, ainda mais por sempre procurar tirar cada centavo do bolso de Joe. Todavia, Neven indiscutivelmente possui conhecimento sob a guerra, tendo de fato servido sob o comando de Celo e possuindo informações importantes sobre os outros 3 grandes líderes paramilitares: Juka, Caco e Delalic. Nos momentos em que a narrativa não foca na relação de Joe com Neven ou seu passado, ela busca contar a história de cada um desses senhores da guerra e como cada um deles veio a cair à medida que o exercito Bósnio tomava o protagonismo no fronte.

E o que torna o livro algo tão bem trabalhado é sua capacidade de contar todas essas histórias simultaneamente de maneira natural. A narrativa constantemente utiliza de flashbacks ou muda o ponto de vista para algum dos personagens, mas sempre sem deixar o fluxo da história confuso. E para cada um dos líderes paramilitares é desenvolvido pela trama uma transição de herói, a corrupto a traidor. Demonstrando a queda gradual de Sarajevo da civilidade a barbárie.

A arte de uma História de Sarajevo também carrega consigo um peso brutal que é característico do estilo de Joe Sacco, dando ênfase nos rostos e nas expressões, assim como a retratação detalhada de ambientes. É uma narrativa que não carregaria o mesmo peso sem a imagem visual, que demonstra melhor que palavras a magnitude do conflito e seu nível de carnificina.

E a forma com que Sacco aborda a guerra é tão bem trabalhada que permite ao leitor entender as nuances do conflito, ou seja, como tantos Croatas, Muçulmanos e Sérvios foram capazes de se radicalizar ao ponto de cometer atrocidades. Neven da base a trama justamente por ser a representação em forma humana da cidade de Sarajevo. Alguém que carrega consigo um passado tanto muçulmano quanto Sérvio, que foi radicalizado, ferido e levado a fazer o que fosse preciso para sobreviver e ter dinheiro.  

Uma História de Sarajevo é, portanto, um grande exemplo de uma boa narrativa de New Jornalism, e leitura obrigatória para jornalistas por sua capacidade de representar um conflito tão difícil de ser retardado numa mídia tão incomum no meio jornalístico.

Uma História de Sarajevo. Joe Sacco. Conrad, 2005, 142 págs., 49 reais