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Esportes

Por que os técnicos de futebol duram tão pouco no Brasil?

A situação é tão crítica que o comentarista Paulo Vinícius Coelho sentencia que no Brasil o que há é “falta de respeito” em relação ao trabalho de um treinador

Por Lucas Souza, Ricardo Villela, Luís Guilherme Martins, Giovanni Simões e Matheus Lorente

“Nós estamos fracassando como país do futebol”, resumiu à FACTUAL900 ninguém menos que Paulo Vinícius Coelho, mais conhecido como PVC. Quando perguntado sobre os motivos de tantas e sucessivas demissões precoces dos técnicos no Brasil, ele faz questão de enumerar: “Vítor Pereira, Paulo Sousa, Jorge Jesus (mas que fez sucesso), Ramón Díaz, Sá Pinto, Miguel Ángel Benítez, Alexander Medina, Gesualdo Pereira que é um professor em Portugal e não conseguiu ficar aqui mais do que 15 jogos. Você coleciona mais técnicos que vieram e fracassaram do que técnicos que vieram e fizeram sucesso, e não é porque sejam ruins ou sejam bons, é porque nós somos ruins”.

Foto: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Paulo_Vin%C3%ADcius_Coelho_%28cropped%29.jpg

A bronca de PVC é justificada. No Brasil, treinadores, portanto comandantes de equipes, são as peças mais frágeis. Em vez de liderar, muitas vezes são vítimas de ações internas e externas. No país do futebol, jogador demite técnico, torcida pede a cabeça dele ao primeiro mal resultado do time, patrocinadores metem o bedelho e a imprensa vive falando de “crises”.

O tempo para apresentar resultados não só é curto, para ontem, como tem de ser eterno enquanto durar. “Existe um déficit de conhecimento, mas existe um déficit de trabalho porque a cada três meses a gente discute quem vai ser o próximo mandado embora”, acrescenta o comentarista e analista esportivo PVC.

No fim do ano passado, o celebrado e polêmico técnico do Palmeiras, o português Abel Ferreira, mirou seu foco nos jornalistas: “Alguém perguntou ao Lázaro [Fernando, ex-técnico do Corinthians] se tinha tempo de treinar, recuperar jogadores? Vocês [imprensa] metem pressão na diretoria. Quem despede o treinador primeiro são vocês. Influenciam as diretorias”, disse à época, em registro feito pela UOL. Em abril deste ano, Fernando Lázaro foi demitido pela diretoria corintiana.

Base x profissionais

Ricardo Severo, técnico que já passou pelos times de aspirantes do Palmeiras, Corinthians e Sport,  diferenciou o acordo entre técnicos de base e profissionais. Severo explica que na base quem conduz as rédeas da contratação é o clube: “Você tem que trabalhar em uma linha de conduta. Você pode trabalhar do seu jeito, mas tem que ter a metodologia deles.”

Diferente dos profissionais: “Você já vem pré determinado, já vai estudando o que tem no seu grupo, o que precisa e o que falta. Basicamente o cara sabe o que ele tem, o que ele precisa e o que ele vai ter pra frente”. Ou seja, o treinador profissional tem até algum controle do plantel que comandará, mas precisa rapidamente apresentar resultados.

“Infelizmente no Brasil os diretores estatutários são torcedores”, alerta Ricardo Severo. Quem frequenta um clube esportivo, sabe que nas mesas de almoço não são servidas apenas comida, mas o futuro de muitos treinadores. Entre uma garfada e outra, os conselheiros vivem a tripudiar quando um técnico “vai mal”.

Severo afirma ser contra a SAF, a associação empresarial que transforma o clube em uma empresa,  mas vê seu lado bom: “Tem o cara que manda, que faz o trabalho e acabou”. Em outras palavras, há um pouco mais de “profissionalismo”, mas não significa moleza para os treinadores.

Créditos: site Sport Club Recife

A dança das cadeiras

Um dado estatístico produzido pelo GE ajuda a entender por que a pressão sobre os treinadores pode se voltar contra o próprio clube. De 2003 até os dias atuais, o Palmeiras, bicampeão da Libertadores, Recopa, tricampeão do Brasileirão e da Copa do Brasil, SuperCopa do Brasil e tetracampeão Paulista, trocou 25 vezes de treinador – mais de um por ano. No mesmo período, o Paraná, time que jogou a Série A em 2018 e com sucessivos rebaixamentos, hoje se encontra na Série D do Campeonato Brasileiro e na 2ª divisão do Campeonato Paranaense, acumulou 59 trocas.

Sérgio Alexsander de Freitas, mais conhecido como Lelé, técnico do Oeste Futebol Clube, associa o futebol no Brasil aos vencedores. “ O futebol vive de resultados. A gente, particularmente, trabalha todo dia em prol do resultado precisando vencer, precisando dos três pontos do fim de semana”, resume.

Lelé está no comando do time de Barueri a mais de 60 partidas e tem um aproveitamento de pouco mais de 50%. Por não ser um clube do topo da tabela, o técnico tem conseguido se manter por contar com o apoio da diretoria. “A gente não conseguiu as conquistas no campo (títulos), mas os resultados são bons para uma equipe do nosso porte. Como já tenho muito tempo na casa, talvez por isso tive um respaldo maior de ter uma sequência mesmo com as derrotas e não obtendo conquistas.”

O treinador do Barueri abre o jogo quando a sua explicação é atípica em relação aos demais colegas de profissão. “Se os resultados não são imediatos, acaba sempre precisando de uma troca e como não dá para trocar todos os atletas, se opta por uma comissão técnica”.

Em relação à nova safra de técnicos brasileiros e a dificuldade de encontrar grandes nomes, Lelé acredita que existem muitos jovens promissores. Mas, inevitavelmente, os olhos sempre vão para a Série A e B: “Temos cerca de 200 clubes no País e 20 na Série A. Ou seja, 10% onde todo mundo vai acompanhar. Série A e Série B são 40 que acabam rodando entre eles, vamos dizer uns 50 a 60 profissionais acabam rodando por aí”.

Colaboração de João Pedro Dantas e Pedro Nascimento.