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“Visão muito americanizada”: a romantização nas séries adolescentes

Sob diferentes perspectivas, profissionais analisam séries adolescentes que romantizam temas como sexo e uso de drogas.

Por Arthur Pereira, Bruno Yahn, Davi Alves, Enzo Impalá, Rafaela Franco e Sofia Guimarães.

Sexo, drogas e… Sim, tem rock’n’roll e também uma hipervalorização e distorção desses temas quando se fala sobre jovens. Ao mesmo tempo, a juventude passou a ganhar destaque em filmes e séries. Euphoria, Heartstopper, Sex Education, Elite e Wandinha são só algumas produções recentes e populares nas plataformas de streaming. 

“Sabemos que houve um aumento na quantidade de programas que incentivam as crianças a não serem mais crianças, a se tornarem mini-adultos”, afirma a pedagoga Fernanda Tellian. O criador de conteúdo para o TikTok, Tiago Pechini, de 18 anos, acrescenta: “Em meados de 2005, temas mais relacionados a crimes, sexualidade, drogas e tudo mais começaram a surgir nas séries para gerar um interesse na época – e acabou influenciando uma geração inteira”. Já Caio Coletti, de 29 anos, repórter da Omelete, afirmou: “Antes, a ideia era usar a linguagem acessível ‘para todas as idades’ para abordar temas espinhosos de forma educativa. Agora isso mudou, a linguagem usada também é adulta.”

Fernanda, Tiago e Caio foram entrevistados pela FACTUAL900 para tratar do tema do jovem na indústria cultural. No Brasil, que é o segundo país com mais assinantes, esse assunto ganha grande relevância, já que são os jovens os maiores consumidores desses conteúdos. E é durante essa fase que há uma grande sensibilidade emocional, quando os jovens estão amadurecendo e se preparando para entrar na vida adulta. As grandes produtoras se aproveitam dessa “vulnerabilidade” para produzirem conteúdos fantasiosos – mais atrativos por se afastarem da realidade. Assim, conseguem um maior alcance e engajamento.

“Minha experiência de adolescência certamente não foi como a das séries que eu vejo hoje. Foi uma confusão, angústia por não saber quem sou e onde me encaixo. Sinto falta disso, da autenticidade desses sentimentos”, afirma o jornalista do Omelete. Entretanto, ele reconhece que há uma necessidade de dramatização para o meio narrativo como cinema ou TV. Produções voltadas para esse público têm ido muito bem em termos de audiência. A série Euphoria, da HBO Max, é um exemplo.  

Apesar do sucesso dessas séries, Tiago Pechini revela preocupação com esse tipo de abordagem: “Euphoria e Sex Education falam muito abertamente sobre sexo e o uso de drogas. A gente sabe que isso ocorre entre adolescentes, mas eu receio que aqueles que não vivem essa realidade, comecem a se sentir pressionados a viver ela por conta dessas séries”.

Identidade distorcida

Outra controvérsia dessas séries é a escalação de atores adultos para representar adolescentes. Sobre esse assunto, o psicólogo Gabriel Guimarães, outro entrevistado da FACTUAL900, afirma: “A mídia, desde o desenvolvimento do capitalismo, apostou bastante nesses corpos que não correspondem aos da maior parte da população, o que é problemático. De uns cinco anos para cá, essa discussão [de contratar pessoas com corpos mais reais e idade correspondente aos personagens] tem sido mais levantada”.

O criador de conteúdo Tiago adiciona: “O problema não é a idade, pois é complicado contratar adolescentes para esses papéis”. Essa fala se baseia no fato dessas obras terem cenas mais explícitas – que não seriam possíveis com atores mirins. O repórter Caio compartilha de opinião parecida: “O que incomoda mais do que essa questão da idade é que parece que todos os adolescentes dessas séries são escritos como senhores e senhoras de meia idade amargos, desiludidos com o mundo, muito certos de que sabem como ele é”.

Hoje, 7 em 10 jovens buscam identificação com os personagens das séries que consomem, o que para Tiago é preocupante: “Parece que só existe um corpo certo.  Acredito que seria possível contratar pessoas – mesmo que adultas – que se aproximam mais de corpos de adolescentes reais, ao invés desses ‘atletas olímpicos mirins’. Isso gera uma ansiedade no maior público dessas séries – adolescentes e pré-adolescentes. Você sente que precisa ser o padrão protagonista:  branco, magro e, de preferência, musculoso.”  Ele afirma que há exceções, como Heartstopper – série na qual os atores têm a idade que representam. Ainda, ele alega que essa é uma visão muito americanizada, citando o cineasta belga Lukas Dhont, que faz filmes com atores que estão vivendo a fase que estão representando, como Close e Girl.  

Sexo, drogas e glorificação

É comum que na adolescência ocorram as primeiras experiências sexuais. Segundo o criador de conteúdo Tiago Pechini, o sexo se tornou menos tabu. “365 dias e 50 tons de cinza são filmes que a 20 anos atrás seriam considerados pornografia explicita. E as séries adolescentes seguiram o mesmo caminho. “O como o sexo está glamourizado e deixou de ser algo natural me preocupa” diz ele. A série Elite é um exemplo. Ela aborda personagens entre os 16 e 17 anos no cenário escolar tendo relações sexuais de forma intensa e excessiva, normalizando e fetichizando a experiência sexual.

Outra questão quando se fala sobre a representação idealizada da juventude nas produções audiovisuais é a abordagem que se faz de adolescentes usando drogas e entorpecentes. Tiago é categórico afirmando que esse “namoro” [entre adolescentes e uso de drogas] acontece “desde que o mundo é mundo” e que associar esses comportamentos a séries não faz sentido, que, pelo contrário, elas abordam sobre os malefícios de usar drogas. O dado de que 13% dos jovens de 13 a 17 anos já usaram algum tipo de substância psicoativa reforça a fala dele. 

Tomando como exemplo a série Euphoria, o psicólogo Gabriel explica a influência que séries exercem sobre os jovens. “Dependendo do modo, isso não acontece. Eu não sei se é unânime que você verá a Rue [personagem principal] usando substâncias e vai falar ‘Ah, eu vou fazer uso de substâncias’ porque, querendo ou não, tem toda uma complexidade ali apresentada.” Já o repórter Caio Coletti diz se incomodar mais com os recursos que os roteiristas (adultos, como ele faz questão de frisar) usam para mistificar a presença ostensiva de sexualidade ou drogas do que os momentos em que elas aparecem. 

Apesar da série ter classificação indicativa para maiores de 18 anos, é ilusório acreditar que o público se limita a maiores de idade, uma vez que o seriado representa alunos no contexto do ensino médio (jovens de 15 a 17 anos) e possui um visual bastante colorido – que atrai os jovens. A pedagoga Fernanda Tellian argumenta que a mensagem passada não é coerente para crianças e que nem deve ser, visto que não é feita para elas. Uma vez que eles não são o público-alvo da série, podem acabar romantizando essas temáticas mais adultas – fenômeno que ocorre demasiadamente nas redes sociais.

Impacto da mídia social

Não é incomum encontrar em plataformas como Tik Tok e Instagram montagens idealizando certos personagens e comportamentos. Um fenômeno recente foi Wandinha. Para o psicólogo Gabriel, não se pode negar que o que consumimos, em qualquer idade, influencia o nosso comportamento e a forma como reagimos. A pedagoga Fernanda acrescenta que as redes sociais modificaram muito a infância de uma criança. Ela exemplifica: “Antes elas brincavam de boneca, hoje elas dançam TikTok, e muitas vezes músicas que não são coerentes com a idade dela. É por isso que a classificação desse app é para pessoas acima de 13 anos.”

O repórter do Omelete afirma que adolescentes assistindo filmes e séries com classificação etária para maiores ocorre muito antes da internet – mas concorda que ela tenha intensificado isso. Com um raciocínio semelhante, o criador de conteúdo Tiago afirma: “O TikTok não cria tendências, ele se adapta às tendências. Existe uma influência, mas é muito mais a sociedade trazendo coisas para o TikTok do que o TikTok para a sociedade. A série da Wandinha é uma investigação ‘água com açúcar’, com um romance muito simpático, então é muito normal as crianças gostarem. Eu nunca as vi gostarem de Game of Thrones porque era a ‘série do momento’.”

A mente dentro e fora das séries 

Para Caio Coletti, a “identificação e conscientização são instrumentos potentes, que a ficção manipula brilhantemente quando quer”, enquanto Tiago reflete sobre a questão da saúde mental dos jovens ao assistirem essas séries que romantizam e glamourizam a adolescência. “Acho que isso gera uma ansiedade e uma pressão. A pessoa que não está vivendo isso, se sente deslocada e apressa um processo natural para se sentir dentro do universo”, diz.

O psicólogo Gabriel diz que a forma como a depressão, retratada em séries como Sex Education, vem sendo tratada e representada de forma mais aberta nas séries, é bom para que as pessoas discutam e conversem mais sobre isso. Entretanto, ele alega que ainda é um campo muito frágil: “Não é a depressão só pela depressão, mas o que que impõe essa depressão, o que se faz dela, outros pontos da vida social que às vezes não são retratados.” Já Caio argumentou que “abordar saúde mental na ficção é sempre uma coisa a se levar a sério, e eu lamento que muitos títulos deixem de se consultar com profissionais da psicologia antes de fechar seus roteiros ou suas filmagens. É urgente que isso seja falado de uma forma responsável.”

É unânime: abordar com responsabilidade 

Diante de todas as contrariedades citadas, ficou o questionamento se essas séries deveriam continuar mostrando esses temas. Caio expôs que: “Contar histórias é fundamental para a experiência humana, e eu acho que seria um erro terrível interditar toda uma fase da vida, e dizer: ‘Não podemos tocar nisso’. Explorar esse tipo de coisa é totalmente natural da adolescência – a diferença que uma série vai fazer é nos dar instrumentos para explorá-las melhor ou pior, um espelho na ficção, uma ideia do que existe para além de nós mesmos”.

A pedagoga Fernanda afirma que o assunto não deve virar tabu, que é importante ser trabalhado, mas pensando na abordagem correta. O psicólogo Gabriel ressalta que é necessário sempre prestar atenção na linguagem utilizada: “Tem coisas que estão nas séries que passam para a gente sem a gente perceber, porque não tá falado, mas a imagem tá lá. Discutir é passar isso para o campo da palavra. E de uma forma com que a criança compreenda sobre esse assunto dentro da linguagem dela.” Em outras palavras, como disse a pedagoga: “O adulto tem o discernimento para saber o que é legal, ou não, para si. Já a criança, não.” Para exemplificar o que seria uma representação não danosa, Tiago usou uma cena da série Normal People: “Eu sempre cito ela. Eles vão ter a primeira vez deles. E é uma cena muito seca, não quero dizer sem sal, mas você vê que aquilo ali é a realidade. É de um jeito muito natural, ele colocando a camisinha, tendo dificuldade.” 

Caio preocupa-se com o que ele chama de “grande problema de analfabetismo midiático e narrativo”, com as pessoas deixando de ou não querendo refletir sobre o que consomem diante de uma tela. “Não acho que assistir séries fará o adolescente se drogar ou transar mais cedo, mas acho que a mensagem das produções escapa a muita gente que vê só a superfície. No fim das contas, acho que só podemos torcer para que tudo dê certo na formação dessas pessoas, que a influência ruim que um título possa ter seja contrabalanceada pela influência boa de outra coisa na vida delas”, finaliza.

Ouça também o podcast que a FACTUAL900 preparou sobre o assunto.