Capa do livro "Ricardo e Vania", de Chico Felitti - Foto: Divulgação
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“Ricardo e Vânia” e o poder de uma escrita sensível

Em 192 páginas, Chico Felitti amplia a narrativa do “Fofão da Augusta”, mas com uma fonte que traz um novo desfecho para a história viral de 2017

Por Gustavo Ávila, Isadora Quaglia, Larissa Prado, Letícia Malatesta e Ludmila Borba

Em outubro de 2017, o jornalista Chico Felitti acordou com centenas de e-mails em sua caixa de entrada. O motivo era a publicação do texto “Fofão da Augusta? Quem me chama assim não me conhece” no site do Buzzfeed. A reportagem que desvenda a história da mítica, mas anônima, figura do centro de São Paulo conquistou um milhão de leitores em menos de 24 horas. Pela escrita de Felitti, milhões tiveram a oportunidade de conhecer não o personagem, mas Ricardo Correa da Silva, maquiador e cabeleireiro de prestígio que fugido de Araraquara acabou nas ruas da metrópole.

“Fofão” viveu décadas distribuindo panfletos pelas esquinas de vias públicas, como a rua Augusta. Vagava sem identidade, mas muitos já haviam notado a presença dele. O homem misterioso era conhecido pelo apelido infame por causa de sua aparência similar ao personagem de TV dos anos 1980, consequência da aplicação de mais de um litro e meio de silicone no rosto.

A reportagem viral foi um convite para a estreia de Felitti no mundo literário. Em 2019, Ricardo e Vânia foi publicado pela editora Todavia. Em 192 páginas, mais detalhes da vida de Ricardo Correa foram apresentados, mas dessa vez dividindo o protagonismo com quem foi o grande amor do maquiador: Vânia.

Se o texto original já atuava como uma imersão no processo jornalístico – onde acompanhamos os passos do jornalista e toda a história é contada em primeira pessoa –, a sequência é uma personificação do que ocorre após uma narrativa ser publicada. Felitti faz questão de relatar o impacto de uma das reportagens de maior impacto da imprensa brasileira. E foi por causa do sucesso do texto que viralizou na internet que Felitti conseguiu localizar Vânia.

Primeiro Vagner, depois Babette, Vênus e Venúsia, Vânia mudou de nome algumas vezes. Essa história revela também mais uma face de Ricardo ao mostrar a vida privada que levou em quase uma década de relacionamento com Vagner. No livro, um novo cenário emerge entre as idas e vindas do jornalista para apurar essa história. Além de São Paulo e Araraquara, Felitti foi até Paris à procura da nova personagem. Com hábil escrita, ele apresenta as cidades quase como se fossem personagens, fruto de uma ambientação detalhada das localidades.

Por meio de sua escrita e investigação, Chico Felitti humaniza e faz uma das figuras mais marcantes de São Paulo reencontrar o próprio nome. Mas não é só Ricardo que tem sua história contada pelos olhos do jornalista. Cada fonte que surge na história representa uma vivência, a qual o autor faz questão de desenvolver, mesmo que em poucas linhas, com toda a sensibilidade possível.

Por meio de sua escrita e investigação, Chico Felitti humaniza e faz uma das figuras mais marcantes de São Paulo reencontrar o próprio nome. Mas não é só Ricardo que tem sua história contada pelos olhos do jornalista. Cada fonte que surge na história representa uma vivência, a qual o autor faz questão de desenvolver, mesmo que em poucas linhas, com toda a sensibilidade possível.

“Até eu o chamava de Fofão, só agora sei seu real nome: Ricardo”

– Trecho do relato de Carlos Tiburcio para o livro “Ricardo e Vânia”

Ricardo é, no livro de Felitti, o retrato de muitos. É um reflexo daqueles que foram sistematicamente invisibilizados e acabam vivendo nas ruas. Já Vânia se apresenta como o espelho de mulheres trans e travestis que, para serem quem são, atravessam oceanos e encaram o mundo da prostituição e dos bordéis para sobreviver.

Com sua linguagem fluida e de escrita leve, a história de Ricardo e Vânia angustia, emociona e perturba. Faz o leitor morrer de amores e torcer por figuras que passaram boa parte da vida sendo tratadas como “bizarras”, mas fizeram o que era preciso para sobreviver numa sociedade homofóbica e heteronormativa.

O livro é uma biografia de desconhecidos, que despertará no leitor a vontade de querer ter conhecido eles antes. Quem antes vagava como um estranho pelas ruas de São Paulo ganha um nome: Ricardo Correa da Silva. O amor dele também: Vânia Munhoz. A obra de Chico Felitti mostra a força de um jornalismo narrativo sobre a vida de pessoas que só precisam de uma chance para reclamarem suas próprias histórias.

[H6] 

Ricardo e Vânia. De Chico Felitti. Todavia, 192 págs., 53 reais.