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O livro sobre o coronel britânico que inspirou Indiana Jones

Por Isabela Nahas e Ana Marcele Dias

Em Esqueleto na Lagoa Verde, o jornalista Antonio Callado viajou até o Xingu para desvendar o sumiço do coronel britânico Fawcett e seus acompanhantes, mas o que encontrou foram narrativas indecifráveis.

Capa do livro Esqueleto na Lagoa Verde, de Antonio Callado. Edição de 2010. Imagem: Divulgação/Companhia das Letras

Coronel Fawcett foi um oficial britânico que fez uma expedição ao Xingu em 1925 e desapareceu misteriosamente. Virou uma fábula. As notícias da época diziam que indígenas haviam assassinado o militar. Em 1952, o jornalista Antonio Callado iniciou uma investigação para tentar elucidar o caso. No ano seguinte, publicou o livro Esqueleto na Lagoa Verde, no qual relata as versões do acontecimento que encontrou durante a investigação, quais as possíveis verdades sobre o sumiço do coronel e como fez a pesquisa e apuração jornalística. Mas a história segue como um mistério insolúvel. 

Callado deixa claro, já no início do livro, que não revelará porque, como e quem matou o coronel, pois a verdade é que ele não chegou a uma conclusão. Isso por conta da diversa percepção de tempo dos grupos indígenas e do caráter enigmático da expedição de Fawcett.  O jornalista percorreu o caminho que Fawcett havia feito, entrevistou indígenas, os irmãos Villas-Bôas e fez pesquisas aprofundadas em arquivos do passado.

A viagem, idealizada pelo empresário Assis Chateaubriand, dos Diários Associados, levou Antonio Callado ao Mato Grosso. Na época, o jornalista trabalhava como um veículo da concorrência, o Correio da Manhã. A expedição rendeu a Callado dois livros: Esqueleto na Lagoa Verde e Quarup, um romance de maior sucesso e que foi publicado mais tarde, em 1967. A jornada que, inicialmente, diria ao mundo de quem eram os restos mortais encontrados à beira de uma “lagoinha esverdiadinha” (daí o título do livro), transformou-se em uma narrativa sobre um personagem peculiar e curioso. Ou, nas palavras do autor, “A figura de um coronel Fawcett imperioso, extremamente confiante em si próprio e profundamente votado ao segredo, à mania de desfazer as próprias pegadas.” Anos depois, a figura do Coronel Fawcett inspirou a franquia Indiana Jones, um clássico do cinema mundial.

Esqueleto na Lagoa Verde é hoje um livro de referência do jornalismo literário. Com um relato detalhado de todo processo investigativo, Callado se aprofundou no assunto a ponto de mostrar que não havia como provar o que realmente acontecera com o Coronel Percy Harrison Fawcett. Em sua narrativa, ele prende o leitor para seu relato sem abusar do sensacionalismo. Chama a atenção a forma transparente com que revela até mesmo o método de pesquisa para apurar a história.

O relato jornalístico de Antonio Callado alterna entre dois momentos bem definidos: o da investigação e a descrição dos seus dias no Posto Culuene. No primeiro, identificado como “O vitoriano e o sonho do novo império”, há uma narrativa fragmentada e explicações da obsessão de Fawcett para com a Cidade Perdida. Também são destacadas teorias do que pode ter acontecido com a expedição de 1925. No segundo bloco, “O moderno bandeirante e o sonho da nação futura”, o autor conta como foram os seus dias no Xingu, convivendo com os indígenas Kalapalos, que chegaram a ser acusados de terem assassinado o coronel inglês.

Esqueleto na Lagoa Verde. De Antonio Callado. Companhia das Letras, 2010, 160 págs., 28 reais.