Esportes

Como é para outros esportes estar no País do futebol?

A FACTUAL900 ouviu um atleta e jornalistas para comentar a situação de constante instabilidade para outras modalidades esportivas conquistarem um lugar ao Sol.

Por Giovanna Garcia, Giulia El Houssami, Livia Nomoto, Mariana Alves e Sofia Bianco. 

Quando se fala em Brasil, o futebol sempre vem à mente. O que torna dura a vida dos outros esportes. Imagine ser atleta de badminton, arco e flecha, hipismo, bocha ou marcha atlética? Com exceção da época das Olimpíadas, onde uma dezena de esportes acaba ganhando seus “15 minutos de fama”, modalidades têm de fazer um esforço redobrado para conquistar praticantes, mídia e até torcedores.

“Temos que oferecer para o leitor o que ele mais quer ver, isso é um ponto”, resume o editor de esportes do Estadão, Robson Moreli. Todos os dias, o noticiário esportivo gira em torno do futebol, ainda mais agora com um mundo que sua para conquistar audiência. Para Morelli, as pessoas querem acompanhar esportes nos quais se sentem representados pelos vencedores. “Os brasileiros acompanham brasileiros que brilham”, afirma, citando como exemplo a Fórmula 1 e o fenômeno Ayrton Senna.

Por conta de patrocínios irregulares, exposição na mídia momentânea e atletas fenômenos,  diversas modalidades que não o futebol entram na moda, mas logo perdem a atenção do público, sem consolidar um grupo constante de torcedores. Na comparação com outros esportes, eles estão em eterna desvantagem. “A gente vai muito com as outras modalidades no interesse que a gente agora consegue inferir, nas métricas, nas medições. O futebol não, o futebol navega sozinho, o futebol tem todos os dias, o futebol vai sempre ter alguém vendo”, explica o editor do Estadão.

Entram na moda, mas logo perdem a atenção

A falta de investimentos em outras modalidades implicam em sérios problemas para que estas possam crescer, como a falta de organização ou até mesmo a sua qualidade. Para Robson Moreli, a dificuldade de outros esportes crescerem se dá por diversos fatores e que existem “vários caminhos para tentar multiplicar o interesse por isso”.

Foto: Unsplash

Para Giuliano Nucci, atleta brasileiro de futebol americano que se mudou para jogar nos Estados Unidos, o nível dos praticantes brasileiros neste esporte é inferior ao dos estrangeiros, o que implica em um jogo menos dinâmico e interessante ao espectador. Segundo ele, essa diferença de habilidade se dá por conta de o esporte ainda ser iniciante no Brasil. “Os adultos responsáveis por ensinar não tem a técnica, a cultura que eles tem aqui [nos EUA]. Isso limita um pouco aprender a realmente jogar bem, porque na verdade estão todos aprendendo a jogar juntos.”

Nucci diz acreditar que conseguiu ser bem sucedido justamente por ter tido o privilégio de aprender a técnica aplicada no exterior. “Eu procurava técnicos e caras do futebol no Instagram e mandava mensagem, perguntando como eu poderia melhorar, que tipo de dicas eles dariam para o meu caso”, afirma. 

Situação do vôlei é menos crítica, mas precisa melhorar

No vôlei, a visibilidade e patrocínios são maiores que outros esportes, mas ainda assim é precário se comparado ao futebol brasileiro. Os disputados campeonatos nacionais e mundiais, por exemplo, não são transmitidos toda quarta-feira e domingo. “O vôlei vive até que uma situação mais tranquila, mas não que seja uma coisa cômoda e que você tenha como garantir todo ano a mesma qualidade ou quantidade de investimento”, afirma Daniel Bortoletto, editor-chefe do site Web Vôlei e antigo repórter do jornal Lance. Pontuando que “o brasileiro gosta de esporte que está ganhando”, o jornalista cita a época que o tênis estava em alta por causa de Gustavo Kuerten, o Guga, e, atualmente, o surfe que conta com nomes grandes, como Gabriel Medina e Ítalo Ferreira. O vôlei aproveita para surfar nessa onda. A hegemonia da seleção masculina no início do século e as conquistas olímpicas do vôlei feminino ajudaram no processo de visibilidade do esporte, diz Daniel.

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Fonte: Free Images

A seleção brasileira de vôlei conta com um bom apoio financeiro do Banco do Brasil e de leis federais que incentivam o esporte, mas nos clubes o cenário muda. Daniel Bortoletto conta que há clubes com dificuldades para renovar os patrocínios, enquanto alguns poucos “fazem parte de uma certa ‘bolha de tranquilidade’, onde os investimentos são constantes”. Ele dá o exemplo do clube do Cruzeiro, no qual o grupo Sada investe muito para manter o projeto vitorioso. E tem dado certo, já que o time acaba de conquistar seu oitavo título da principal competição nacional, a Superliga brasileira.

Porém, nem todos os projetos têm essa mesma constância nos patrocínios. “O que falta no Brasil é um investimento mais constante”, afirma Bortoletto. “O time RJX jogou a Superliga por dois anos. Foi campeão no primeiro, no segundo ficou devendo e o projeto teve que acabar.” Essa é a situação no Brasil, onde times pequenos e com pouca visibilidade não têm grandes patrocínios. Como o caso do time de Barueri, treinado pelo tricampeão olímpico Zé Roberto Guimarães, que teve que ir à TV e pedir por um patrocínio ao seu clube.

E a imprensa nisso tudo?

Além disso, o editor-chefe do Web Vôlei conta como o papel da imprensa é importante para que a cultura do esporte olímpico seja difundida. “Fazer a cobertura de uma competição e a visibilidade de estar na mídia é de extrema importância.” Robson Moreli acrescenta, finalizando: “Antes de conquistar a imprensa, a modalidade tem que conquistar o torcedor.[…] Cresceu? Aí a mídia vai cobrir.”