Capa do livro "Raul Seixas: não diga que a canção está perdida"
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Metamorfose ambulante: 30 anos da morte de Raul Seixas

Jotabê Medeiros, jornalista e produtor musical, lançou em 2019 uma biografia sobre o cantor que teve longa parceria com o escritor Paulo Coelho

Por Brisa Sayuri, Fernanda Barreiros, Maria Clara Lentz, Rafael Vasconcellos

Raul Seixas: Não Diga que a Canção Está Perdida é uma biografia que foca mais no homem e menos no artista que o roqueiro foi. O jornalista Jotabê Medeiros deixa claro desde a introdução de seu livro: “Não me preocuparei em lustrar a lenda, porque essa já é do tamanho do mundo”.

A forma como o escritor apresenta a história de Raul é cativante. Jotabê Medeiros traça uma linha do tempo do artista desde sua infância na Bahia, passando por sua adolescência, quando ele fundou o clube “Elvis Rock Club”, até atingir a fama que tanto esperava. Nos últimos capítulos, o jornalista destrincha a decadência de sua carreira e sua morte precoce aos 44 anos.

O livro contém inúmeros acontecimentos, como a atuação do roqueiro como produtor musical, a fundação da Sociedade Alternativa, sua amizade com o escritor Paulo Coelho, seguida pelo desentendimento entre eles e sua transição de Raulzito para Raul Seixas.

O jornalista é dono de uma escrita simples e inclusiva. Ele não utiliza palavras que fogem do vocabulário comum e adiciona citações e falas de entrevistados que tornam a leitura mais fluida. Jotabê é empático ao retratar os episódios mais emblemáticos da carreira de Raul Seixas.

O detalhamento e a contextualização feita pelo autor, de maneira impessoal, nesta biografia impacta positivamente a leitura. Tal como fez na biografia de Belchior, o jornalista especializado em música lança do recurso de interpretar as composições do biografado de modo mais amplo e profundo. Isso devolve a importância histórica que as obras de Raul Seixas tiveram à época.

Em grande parte do livro, a ditadura militar brasileira (1964-1985) é presença constante. O jornalista explica como Raul e Paulo Coelho “enganavam” a censura e denunciavam, de forma implícita e irônica, a situação que se encontravam.

Dos oito capítulos encontrados na biografia, Jotabê Medeiros dedica um inteiro para a amizade de Paulo Coelho e Raul Seixas. Ele aborda suas parcerias musicais, a criação da Sociedade Alternativa e a produção do primeiro álbum solo de Raul, o qual ambos trabalharam na elaboração de músicas. O escritor se atenta em demonstrar a inteligência que eles compartilhavam e a influência que exerciam sobre o povo. Entretanto, apesar da ligação entre os dois, o autor não deixa de trazer o episódio do Dops. A esse momento é atribuído o afastamento da dupla, que vem recado de uma polêmica: Raul entregou Paulo Coelho para a ditadura ou não? Sem tomar partido, o jornalista apresenta os vários lados, inclusive com documentação inédita, e deixa para os leitores a conclusão.

Jotabê é um repórter, percebe-se pela apuração bem amarrada. O jornalista afirma ter seguido todos os passos de Raul para escrever essa biografia, ou seja, foi até a Bahia, visitou cenários dos primeiros shows, entrevistou pessoas próximas do cantor e leu entrevistas antigas. Seu olhar jornalístico fez com que ele encontrasse outra perspectiva histórica sobre Raul e quisesse contar de outro ângulo.

Raul Seixas: Não Diga que a Canção Está Perdida. De Jotabê Medeiros. Todavia, 2019, 384 págs., 79 reais.