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Eleições Política

PSDB em crise: tucanos em extinção

Depois de 30 anos, o PSDB pode não eleger um governador de São Paulo e já não conta com um candidato próprio à Presidência. A crise interna no partido, que parece ter fim, tem nome e sobrenome: Jair Bolsonaro

Por Danilo de Oliveira, João Acrísio Loyo, Ligia Moraes, Marcus Francisco, Patrick Taconelli

O PSDB, desde 1988 quando foi fundado, tornou-se um protagonista na política brasileira. Mas nestas eleições o partido que já governou o Brasil por dois mandatos, nos anos 1990, não terá um candidato à Presidência. E em São Paulo, onde governou o Estado por 30 anos, seu candidato amarga um terceiro lugar nas pesquisas. Por trás dessa crise, não admitida publicamente no PSDB, está a ascensão do bolsonarismo no Brasil e uma renovação que até pode gerar votos, mas não atrai o eleitorado.

“Quando surge o Jair Bolsonaro, existia um vácuo na política, de quem conseguiria abraçar o antipetismo. No colo de quem cairia essa bandeira do antipetismo?”, questiona Pedro Campos, jornalista do Grupo Bandeirantes. Ele próprio antecipa uma resposta: “Muitos imaginavam que seria no colo do PSDB, que foi o grande adversário político do PT nas eleições presidenciais, nos Estados, nas grandes disputas que nós tivemos para o legislativo nas eleições regionais. Só que quem conseguiu capitanear esse sentimento da população não foi o PSDB, foi o Bolsonaro”.

Em 2018, o PSDB que tinha João Dória como candidato em São Paulo, e uma das novas lideranças, decidiu se aproximar do bolsonarismo abertamente. O ex-governador foi eleito com o slogan de campanha “#BolsoDória”. Aderir formalmente ao PSL, o partido de Bolsonaro, não era uma opção, mas os tucanos correram riscos que agora têm de pagar a fatura.

Com o desenrolar do governo de Bolsonaro, Dória e antigos pessedebistas decidiram se voltar contra o presidente. Mas isso não impediu que o PSDB aceitasse a chegada de Alexandre Frota e Joice Hasselmann – figuras centrais da eleição de Bolsonaro. À luz do eleitorado, os tucanos continuavam se aproximando cada vez mais da direita – e se afastando de sua origem de centro-esquerda, da social-democracia.

“O que aconteceu com o PSDB na verdade é que você teve um racha interno e não teve uma liderança capaz de catar os cacos. O Dória fez a coisa certa nas eleições que disputou no PSDB, ele foi a favor das prévias. Ele quis trazer mais democracia para o partido, isso é louvável, porque quando ele foi candidato a prefeito”, acrescentou Pedro Campos. Mas nas prévias com políticos tradicionais do PSDB, o ex-aliado de Bolsonaro até arrumou uma briga com Andrea Matarazzo, que acabou saindo do partido. “Depois, para o governo do Estado, a mesma coisa, mas ele acelerou demais, quis ser um trator por cima de todo mundo, acredito que ele errou.”

Com personagens históricos, o PSDB cresceu e se consolidou como um dos protagonistas mais competitivos nas eleições. Assim, a legenda criou uma base de apoio forte o suficiente para levar candidatos a todas as esferas políticas brasileiras. No Estado de São Paulo, seu principal colégio eleitoral, a sigla venceu todas as eleições da esfera estadual desde 1994.

Desde a virada de década de 2010, o PSDB não ficou imune aos conflitos internos e externos que afloraram nas principais siglas do Brasil. Em 2014, foram os principais oponentes na reeleição de Dilma Rousseff e em 2016 foram figuras centrais de sua destituição do poder executivo federal.

Em janeiro de 2019, o PSDB não podia ser nem oposição direta e nem aliança. O posicionamento de Bolsonaro e seu partido se relacionava com os tucanos, no qual, seus candidatos atraiam com maior força movimentos que eram ancorados no PSDB, como foi o caso da bandeira do antipetismo, que se tornou marca dos grupos bolsonaristas que entraram na vida política.

Nos últimos três anos, essa relação causou uma cisão interna no partido. Um sintoma da crise foi a queda de João Dória no estado de São Paulo. Ao se separar do governo federal, devido aos conflitos na gestão da pandemia, o governador assumiu posição contrária à de Bolsonaro e acabou sendo rechaçado por eleitores e por integrantes do próprio PSDB, que não aceitaram as medidas da saúde pública estabelecidas naquele momento.  

Assim, entre 2021 e 2022, Dória perdeu cada vez mais o apoio interno no partido, não conseguindo dialogar com seus pares de maneira confortável o suficiente para salvar sua posição interna. No início deste ano, chegou a ganhar as prévias do PSDB, mas foi rejeitado, renunciando ao cargo de governador e anunciando sua saída da política, instaurando definitivamente a crise.

A jornalista e deputada federal Joice Hasselmann, em entrevista exclusiva à FACTUAL900, explica por que decidiu ingressar no PSDB num momento de crise. “Apareceu a oportunidade de o PSDB ter um candidato próprio à Presidência da República – à época, nós teríamos um candidato. E, para mim, era importante estar num partido que estivesse numa eleição majoritária para Presidência, justamente porque eu sou terceira via e, por ser terceira via, eu precisava de um candidato para chamar de meu.” 

Joice não se esquiva de falar sobre divisão no PSDB. Os partidários mais conectados com Aécio Neves – os “cabeças brancas” – eram contra a candidatura de João Dória – representante dos “cabeças pretas” – para presidência. “E a ala do PSDB ligada ao Aécio Neves é que boicotou todo esse caminho para que o PSDB tivesse um candidato à presidência. Porque na cabeça do Aécio Neves era para tirar o João Dória da rota. Eles não se gostam, não se bicam”, diz ela. 

Além dos problemas em São Paulo, a realidade geral das eleições para os tucanos não tem alcançado grandes números desde a ascensão dos demais partidos de direita. Para Pedro Campos, a crise tucana está fortemente ligada à identificação de parte do eleitorado com essas novas siglas. “Isso (crescimento de Bolsonaro) aflorou na população um sentimento que talvez estivesse guardado de um conservadorismo maior daquela parcela da população que votava no PSDB porque não tinha alguém tão próximo que representasse os seus anseios.” 

Joice engrossa as linhas de Pedro, analisando a candidatura de Geraldo Alckmin para Presidência em 2018: “[…] E o PSDB micou com a candidatura do Alckmin. O Alckmin, na verdade, se você for colocar, se a gente pudesse ter uma ‘chavinha’ de voltar no passado, a gente veria que o Alckmin seria o melhor candidato à época… Só que o Alckmin não empolgou. Isso também tem muito em campanha.”

Âncora do programa O Pulo do Gato, da Rádio Bandeirantes, Pedro Campos também compartilhou sua visão sobre a crise: “O PSDB foi empurrado para uma fatia do eleitorado que é cada vez menor. O pessoal hoje não gosta mais de falar de direita, esquerda, porque em algum momento esses conceitos se confundem e são atualizados com as propostas mais modernas. […] O PSDB ficou nesse limbo (entre esquerda e direita), dividindo espaço com outras siglas que já eram menores”.

Gráfico representando as cadeiras da Câmara dos Deputados de 1998 a 2018 em relação aos deputados eleitos pelo PSDB.
Gráfico representando as cadeiras da Câmara dos Deputados de 1998 a 2018.

Não são raros momentos de crise nos partidos brasileiros, ocorreu com o PT, com o PSL após a saída de Bolsonaro e com o MDB.  O PSDB agora enfrenta um momento crucial na sua existência que pode revelar uma mudança total ou uma futura restauração da legenda.

Para Hasselmann, o PSDB errou ao abrir mão da candidatura própria para presidência da República. Ao assumir apoio à Simone Tebet (MDB) que, ainda segundo a deputada, não tem se demonstrado como um nome forte o suficiente para ser a “terceira via”, o partido se distanciou do seu eleitorado.

A candidata à reeleição para a Câmara dos Deputados também ponderou sobre os rumos que o partido tomará após a eleição deste ano. “Primeiro tem que esperar o resultado da eleição, porque se o PSDB chega – e eu creio que chegará – com uma bancada forte de São Paulo, a coisa começa a mudar de cenário”, diz. Na conta de Joice, com uma bancada forte, os tucanos paulistas terão mais poder de negociação junto à Executiva Nacional, que tem poder decisório. “Todos esses planos que eu estou fazendo aqui vão depender do número de deputados federais que nós elegermos. Tem gente que está apostando em 12, 14, 15 deputados.”

Apesar de provável e possível, a renovação do partido não parece veloz o suficiente para poupá-lo de derrotas eleitorais em 2022. Um dos quadros mais fortes do partido está no Sul, do ex-governador Eduardo Leite, que perdeu as prévias para Dória e depois forçou a desistência do seu oponente no partido. Em São Paulo, terra considerada como base dos tucanos no Brasil, o cenário não é animador. Rodrigo Garcia, a aposta do partido para o estado, não está mostrando resultados promissores entre os candidatos, perdendo para Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) segundo os mais recentes levantamentos.   

Para Pedro Campos, um novo PSDB emergirá depois dessa crise se e somente se conseguir interromper as brigas internas e fraticidas. Ele aposta nos novos nomes. “Agora, se ninguém fizer nada, se continuar a briga interna, cada um quiser ocupar o espaço a tapa daqui para frente, a tendência do partido é ficar cada vez menor e até desaparecer um dia. Mas que há condições para que nós tenhamos de volta o PSDB forte na cena política, não tenho dúvidas.” 

Ouça como foi a ascensão e queda até a crise do PSDB no podcast da FACTUAL900: