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Por que o carro está deixando de ser prioridade para os jovens

Dinheiro, cultura e mudança de comportamento são alguns dos motivos que levam o carro a deixar de ser a prioridade entre a juventude

Por Ricardo Marcitelli, Isabella Messias, Manuela Inoue, Matheus Greff, Fernanda Diniz

Um ano depois de completar 18 anos, o estudante Gustavo Costa é categórico ao dizer que não tem interesse em tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH): “Não pretendia na época e hoje ainda não tirei”. Ele admite que até pode vir a ter um carro, mas não é prioridade. Jovens como Gustavo têm deixado para trás os tempos em que ter um veículo simbolizava o sonho dos sonhos de uma vida adulta. 

Uma série de transformações culturais, sociais e financeiras tem feito com que o jovem, da adolescência até atingir a maioridade, já não veja o automóvel como seu maior desejo. E é um movimento que desespera as montadoras. Nos últimos dez anos, o número de condutores de 18 a 21 anos habilitados no Estado de São Paulo caiu de 857.409 para 674.925, uma queda expressiva de 21,3%. E se trata de uma tendência nacional. No Pará, como outro exemplo, a queda foi de 42.517 para 28.486 no mesmo período, segundo dados divulgados pela Secretaria Nacional do Trânsito (Senatran). 

“Para cidades maiores como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, que têm um transporte público que funciona, ainda que tenha problemas, o carro não é tão necessário”, afirma o jornalista especializado no setor automobilístico Sergio Quintanilha. O carro acaba sendo fundamental apenas em locais que o transporte público é ruim. “O jovem consegue se movimentar de casa para o trabalho, do trabalho para a faculdade, de alguma atividade cultural ou de lazer”.

No podcast da FACTUAL900, Sergio Quintanilha fala mais desse fenômeno:

“Ter um carro próprio é fora da minha realidade hoje, os gastos são muitos e meus pais não têm condições financeiras para isso neste momento”, afirma Júlia Bortoletto, de 17 anos. A jovem representa uma parcela da população que já nem pensa mais em ter um veículo e, por isso, adapta sua vida para outras metas. “Não pretendo tirar carta porque minhas prioridades são os estudos.”

O carro mais barato do Brasil da atualidade é o Renault Kwid, que custa R$ 59.965. Segundo o IBGE, a média salarial do brasileiro de 18 a 24 anos é de R$ 1.556. Ou seja, se esse jovem não frequentar baladas, comprar roupas ou ajudar a família, ele poderá comprar esse veículo se juntar tudo o que recebe durante 3 anos, 2 meses e 15 dias. Nos últimos dez anos, o valor do carro zero subiu mais de 40 mil reais nominais.

Gustavo Costa afirma que ter um veículo agora o tiraria de seus objetivos maiores, que “são estudar e arranjar um emprego para ter a vida que eu desejo no futuro”. Foi-se o tempo em que ter um automóvel era uma das únicas maneiras de se alcançar autonomia e liberdade. Com as diferentes formas alternativas de locomoção, que vão desde o carro compartilhado (Uber ou 99) a empréstimo de bicicletas, os jovens dos grandes centros acabam se organizando para não depender de um carro. E, assim, aquele sentimento de liberdade e autonomia que podia ser atingido com a posse de um carro, hoje pode ser alcançado de outras formas.

A Webmotors, plataforma de venda de veículos online, realizou uma pesquisa no fim de 2021 sobre a intenção de compra nesse segmento. Os dados indicam que para a maioria dos brasileiros o carro é ainda um cobiçado bem de consumo. E apenas 5% não tinham interesse em comprar um automóvel em 2022. E os três motivos principais para essa decisão recaíam sobre a vontade de investir (58%), viajar (27%) ou comprar um imóvel (24%). A pesquisa mostrava que 23% dos 2.439 entrevistados não possuíam um veículo, mas a quase totalidade deles queria ter um.

Este é o caso da estudante Isabela Bastos, que acabou de completar 18 anos, e planeja tirar sua carteira de motorista: ‘’Pretendo tirar minha CNH assim que possível. Tenho muita vontade de ter um carro e aprender a dirigir. É uma vontade mais recente, porque antigamente, até há uns 2 anos atrás eu tinha medo’’.

Mas Isabela reconhece que existem empecilhos para que ela e outros jovens tenham seu primeiro carro próprio. “Alguns jovens estão evitando ter carros tão cedo porque é um gasto, pela facilidade de locomoção, principalmente através dos Ubers e também porque acaba acontecendo muitos acidentes com pessoas alcoolizadas e isso causa medo nos jovens”, arrisca ela, que utiliza bastante os carros de aplicativo e transportes públicos para se locomover em sua cidade, Barueri, e até mesmo para vir à capital paulista. 

As consequências para as montadoras são drásticas. Se em 2013, melhor ano da indústria automobilística, foram licenciados 3,0 milhões de automóveis, no ano passado esse número despencou à quase metade, 1,6 milhão, um patamar que retrocede aos anos 2005 e 2006. Os dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) repetem um padrão internacional. Segundo a International Organization of Motor Vehicle Manufactors (Oica), em 2017 o mundo fabricou 97,3 milhões de carros. Em 2020, a produção caiu para 77,6 milhões.