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Philip Gourevitch e o relato angustiante do genocídio na Ruanda 

O jornalista investigou por três anos como a civilização foi trocada pela barbárie no país africano, resultando no livro “Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias” 

Por Felipe Viana, Guilherme Godoi, Isabella Messias, Leonardo Haidar, Luana Zanardi, Luiz Padovani 

O jornalista e escritor estadunidense Philip Gourevitch mergulhou de cabeça na história de Ruanda, o país africano que foi palco de um dos maiores genocídios da Humanidade. Por três anos, ele ouviu centenas de pessoas, reconstituiu o drama pessoal dos envolvidos na tragédia, fossem eles sobreviventes, assassinos ou cúmplices. Desse esforço, resultou o livro Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias. 

Nascido na Filadélfia no dia 1° de janeiro de 1961, Gourevitch ficou conhecido internacionalmente após a publicação deste seu livro de estreia. O autor venceu prêmios como o National Book Critics Circle Awards, do Reino Unido, e outro do jornal Los Angeles Times. O jornal britânico The Observer definiu o autor: “O principal escritor sobre a Ruanda no mundo”. 

Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias foi publicado em 1998. Ele é dividido em duas partes de 11 capítulos cada. A obra conta a história do conflito entre duas etnias ruandesas (hutus e tutsis) que protagonizaram o maior massacre desde o Holocausto, ocorrido na Segunda Guerra Mundial. O enredo se inicia em 1990 após um grupo de oposição tutsi, a FPR (Frente Patriótica de Ruanda), iniciar conflitos contra o governo ditatorial hutu que perdurava mais de 20 anos no país.  

Após anos de choques políticos e étnicos a batalha, tudo parecia caminhar para um fim calmo com interferência das Organizações das Nações Unidas (ONU), relata Gourevitch. Mas o atentado ao avião que transportava o líder hutu e então presidente de Ruanda, Juvenal Habyarimana, jogou por terra os esforços de uma saída negociada. Sua morte, que ocorreu em 6 de abril de 1994, deflagrou o segundo maior genocídio vivido em toda a história. O extermínio durou cerca de 3 meses e matou por volta de 800 mil pessoas da etnia tutsi em Ruanda. O livro tem como objetivo contar como ocorreu, a visão internacional e como o país tentou se reestruturar nos anos seguintes ao desastre.  

O livro não é uma leitura fácil, não só pela temática, distante para quem desconhecia a história da África. O enredo, que por si próprio já possui uma carga pesada, apresenta inúmeras nomenclaturas, sejam elas cidades, países, organizações políticas e personagens de destaque ou não no cenário, tornando a história um pouco complexa. Por outro lado, o acentuado número de detalhes torna a história muito completa e imersiva. A narrativa de Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias é capaz de fazer o leitor sentir parte dos acontecimentos e se emocionar com episódios que são verdadeiramente desumanos. 

O imenso e enigmático título do livro não poderia estar mais conectado ao enredo. A frase faz parte de um trecho de uma carta enviada por um grupo de pastores tutsis ao seu líder, também pastor, porém hutu. Fazendo relação à salvação dos judeus por Ester, os pastores condenados à morte suplicam pela salvação por meio da crença na misericórdia baseada numa relação anterior ao massacre. Ignorados, o grupo de tutsis foi assassinado no dia seguinte. 

A todo instante, o livro faz questão de trazer informações, declarações, entrevistas e episódios que não envolvem apenas o continente africano, local onde ocorreu o genocídio. Diversos pontos da Europa e até mesmo dos Estados Unidos são invocados para mostrar que o que aconteceu em Ruanda não está desconectado do resto do mundo. O livro é indicado para comunicadores, políticos ou pessoas relacionadas às relações internacionais por contar uma história que muitos desconhecem. Realista, a obra expõe um dos episódios mais aterrorizantes da história. Guerras, conflitos e a visão, por muitas vezes superficial e desinteressada, por parte do Ocidente geram um cenário que jamais deixou de ser atual e que pode causar danos irreversíveis à sociedade.  

Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias. De Philip Gourevitch. Companhia do Bolso, 1998 352 págs., 190 reais

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