Comportamento

Outubro Rosa: duas histórias de superação

No mês de conscientização, prevenção e combate ao câncer de mama, mulheres relatam a luta para enfrentar o tratamento; doença atinge mais de 65 mil casos por ano no Brasil

  • Por Beatriz Gatz, Fernanda Aves, Isabela Cucolicchio, Rafaela Masseo, Sophia Molinari, Valentine Boutsiavaras e Yasmin Junqueira.

O Outubro Rosa é conhecido como o mês da conscientização contra o câncer de mama e tem como objetivo principal contribuir para a prevenção, feita pelo diagnóstico precoce. De acordo com o INCA (Instituto Nacional de Câncer), estima-se que 66.280 novos casos foram diagnosticados apenas em 2021. Além disso, a cada 100 mil mulheres, cerca de 61 estão sujeitas a receber o diagnóstico da doença.

Em maio de 2020, Andréa Sanches perdeu sua mãe para o câncer de mama e, em agosto do mesmo ano, recebeu o mesmo diagnóstico. “Eu era professora, fui fazer meus exames no meio das férias e apareceu o nódulo. Na hora que o médico viu, ele já antecipou todo o laudo, e pediu que entrasse em contato com a minha ginecologista para dar a notícia e que adiantasse tudo que pudesse”, lembra ela. 

O seu médico mastologista era o mesmo que tinha cuidado de sua mãe, e logo adiantou que não era o mesmo tipo de câncer de sua mãe. Ao ouvir do médico que “não é a mesma coisa”, ela se tranquilizou um pouco. Três meses após o diagnóstico, Andréa realizou a cirurgia de retirada do tumor, e, no início  de 2021, começou o tratamento com quimioterapia. 

“Em janeiro, quando voltei na minha oncologista, começaram as notícias. O médico nunca te conta tudo de uma vez, ele vai te contando aos ‘pouquinhos’, então você vai sofrendo aos ‘pouquinhos’. Pelos meus exames, ela disse que faria oito sessões de quimioterapia. Mas ela não me contou que de cara eu ia ficar careca”, afirma.

Nos 14 dias após a primeira sessão de quimioterapia, Andréa disse que seu cabelo começou a cair. “Não foi igual à moça da novela que chorou, que tocou música, não tocou, foi tranquilo.” Andréa conta que não queria que ninguém a visse careca, então tinha mandado fazer uma peruca, muito semelhante ao seu cabelo natural. “Antes de perder o cabelo eu tinha ido ao salão e escolhido a peruca; era o cabelo igualzinho ao meu, então a gente combinou que ninguém ia me ver careca, eu ia voltar plena, maravilhosa, de cabelo.” 

Quando voltou para casa, passou o dia de peruca, mas isso não durou muito tempo. Como moram em Santos, a noite extremamente quente fez com que a peruca esquentasse ainda mais seu couro cabeludo. “Eu olhei para eles, pro meu marido e pros meus filhos, e falei ‘Tudo aquilo que eu falei era mentira, eu vou tirar a peruca, olhem bem, porque isso aqui não vai rolar [utilizá-la].’” 

Uma vez que seu tratamento se deu durante o período da pandemia do Covid-19, época de isolamento social, Andréa não se incomodou com a falta de cabelo, conseguindo se manter bem. 

TRATAMENTO DOLOROSO

Quanto às possíveis reações que o processo quimioterápico pode trazer, ela relata que não passou por nenhuma marcante. “Eu não tive nenhuma reação, eu não enjoei, eu não passei mal. Eu tomava a quimioterapia sempre na sexta, no sábado eu tomava uma injeção de imunidade”, conta. Decidida a seguir à risca o que o médico recomendava, alimentou-se bem durante o tratamento. A professora tinha medo de que a imunidade baixasse, o que impediria de fazer a quimioterapia. “Se os níveis estiverem muito baixos e você estiver com uma anemia, não pode tomar as medicações. Então, o meu medo era que eu não podia atrasar nada, eu tinha que seguir certinho. E assim foi, fiz a quimio.”

Andréa fez a quimioterapia até maio deste ano, quando parou com as medicações para iniciar, assim, a radioterapia – totalizando 18 sessões apenas no mês de junho. “Pelo tipo de câncer, eu tive que tomar durante dezoito meses uma injeção. Eu tomava na coxa, era como se fosse uma selagem da quimioterapia que eu fiz. A última medicação que eu tomei foi dia três de março, e hoje eu não tomo nenhum tipo de medicação, mas ainda faço acompanhamento com as médicas.”

Imagem da Andréa Sanches usando um lenço amarelo cobrindo a cabeça durante o tratamento
Andréa Sanches durante o tratamento da quimioterapia /Arquivo pessoal.

MANTENDO-SE FORTE

Apesar de ter sido tudo muito rápido – a perda de sua mãe pelo câncer junto com a descoberta da doença –, Andréa se manteve forte e positiva durante o tratamento. “Os meus médicos diziam que 10% era medicação e o resto era a cabeça da gente, a cabeça é tudo. Se não estamos bem, a gente se afunda em qualquer coisa. Então eu coloquei na minha cabeça que eu estava bem, que eu ia me curar.” Para o dia de sua última quimioterapia e encerramento deste ciclo tão difícil, Andréa assumiu-se inteira: foi de vestido, salto alto e maquiada, tentando trazer beleza para algo tão doloroso. 

A feminilidade da mulher é um tópico importante a ser retratado quando se fala do câncer de mama. No entanto, para Andréa, uma de suas maiores dores foi o afastamento das pessoas após o diagnóstico. “Perder cabelo, perder sobrancelha, pra mim, foi tranquilo. Mas as pessoas te veem de uma maneira diferente. Muitas pessoas se afastam de você. Isso me doeu muito mais do que me preocupar com a minha feminilidade, se eu engordei e se perdi o cabelo. Acho que isso fazia parte do processo, não me incomodou, era uma coisa que ia acontecer e que ia passar, o cabelo ia voltar.”

Apesar de precisar lidar com tal afastamento e com os olhares de compaixão que surgiam no meio do caminho, Andréa não esteve sozinha. Juliana Sanches, sua filha mais nova, conta como foi o período de tratamento da mãe, através de seu ponto de vista. Ela relata que, a princípio, foi difícil pensar que sua mãe possuía a mesma doença de sua avó – que faleceu meses antes –, mas que, uma vez que a própria mãe estava lidando muito bem, tudo foi ficando mais fácil. 

“Eu também tinha muito na cabeça que se eu demonstrasse estar triste ou com medo, acho que ia ser pior pra ela. O que realmente ajudou foi a forma como ela estava lidando, se ela estava agindo desse jeito, a gente também tinha que pensar assim, porque era o que deixava ela mais confortável e segura”, diz ela. 

Como todo o tratamento ocorreu no momento mais difícil da pandemia, foi preciso manter-se afastada das pessoas, com pouquíssimos contatos, sendo mais um ponto atípico de toda a situação. 

Foi um susto: a gente não podia ter contato com as pessoas, ninguém podia vir na minha casa. A mesma coisa aconteceu com a mamãe, porque as pessoas tinham medo, não saíam de casa. Ninguém podia me ajudar ou ajudar minha mãe. No começo, eu não falei para muitas pessoas, só para quem era mais próximo, não que tivesse algum problema, mas não ia adiantar… De novo, as pessoas não saíam, não falavam, pouca gente visitava. Hoje, eu encaro de boa, acho que cada um tem o seu tempo de perceber o outro, de entender o outro. Nem todo mundo encara de boa, nem todo mundo está preparado pra isso, e passou.”

A VIDA CONTINUA

Felizmente, Andréa Sanches se recuperou e, hoje, é uma sobrevivente do câncer de mama. Mas como é a vida depois da doença? 

Mas ela acredita que é necessário viver um dia de cada vez, sem tentar imaginar como será o futuro. “Eu acho que a gente tem que aprender um ‘pouquinhomais a viver o hoje. Tudo é tão rápido, tudo passa tão rápido. Acho que a gente aprende a dar valor a outras coisas que a gente não dava, a não se preocupar tanto com o amanhã, viver o hoje.”

Para Andréa, o amanhã é uma incerteza e essa foi uma das lições aprendidas por ela e por sua família. Hoje, ela aprendeu a valorizar as coisas que gosta – como suas aulas de costura, ir para a praia remar e caminhar –, além de estar com as pessoas que lhe fazem bem. A partir deste momento, Andréa acredita que é possível seguir a vida em diante, mesmo com eventuais medos. 

“[Ela se pergunta] ‘posso ter câncer de novo?’, mas a médica me garantiu que eu ia fazer um tratamento que em dez ou quinze anos não ia acontecer nada, mas a gente não sabe o que pode acontecer. Acho que foi uma lição que eu levei, não só pelo câncer, mas pelo Covid-19, pela perda da minha mãe. Amanhã é outro dia, amanhã são outros planos. É isso que eu aprendi, é dessa forma que eu vivo a minha vida.” 

Andréa Sanches em um passeio na rua após o seu tratamento.
Andréa Sanches após o tratamento/Arquivo pessoal.

UM LAÇO COR DE ROSA

A campanha do Outubro Rosa teve início em 1990, nos Estados Unidos, com divulgações isoladas sobre o tema. Em seguida, o Congresso Americano aprovou oficialmente o movimento e, só então, o mês de outubro foi reconhecido mundialmente como o da prevenção contra o câncer de mama. 

O laço cor de rosa, lançado pela Fundação Susan G. Komen for the Cure, e distribuído para todos os participantes da primeira Corrida pela Cura, realizada em Nova York, tornou-se o símbolo do movimento, passando a ser distribuído em diversos outros locais e ocasiões para sensibilizar a população.

Com o passar dos anos, outras ações começaram a fazer parte do Outubro Rosa. Além dos laços cor de rosa, corridas e desfiles foram adicionados à campanha. Diversos países ao redor do mundo se juntaram ao movimento, contribuindo para a conscientização de forma iluminada. Monumentos, prédios e pontes ganharam a cor rosa no mês de outubro, com a intenção de expandir a causa.

Sobre estes movimentos, Andréa conta que, em Santos, possuem o Instituto Neo Mama, especializado na prevenção e no combate ao câncer de mama. Durante o mês de outubro, eles focaram na realização de atividades vinculadas às mulheres, como a montagem de um espaço, com diversas avaliações e atendimentos, no shopping da cidade – sendo de fácil acesso. 

No final de semana em que nossa equipe conversou com ela, no dia 14 de outubro, o Instituto iria realizar uma caminhada, seguida de rodas de conversa. 

Andréa conta que, ao fim do tratamento, seu médico indicou a prática da canoa havaiana para a sua recuperação. A atividade ajuda no fortalecimento dos músculos e na melhora da condição física, além de ser uma forma de se conectar e confraternizar com outras mulheres que passaram pela mesma experiência. 

“Esse grupo que eu participo, foi um grupo criado no ano passado, idealizado por mulheres a partir de um estudo que diz que a remada fortalece muito o braço. […] A gente tem vários grupos aqui em Santos de remadoras, voltado só para as mulheres que tiveram câncer de mama. É uma coisa muito legal. É uma atividade bem aconselhada, então, aqui em Santos, a gente tem um trabalho bem eficaz quanto a esse tipo de câncer.”

Andréa em frente a canoa que faz parte de um coletivo
Andréa participando da ação coletiva de canoa havaiana/Arquivo Pessoal.

UM MÊS DE CONSCIENTIZAÇÃO, E DEPOIS?

O caso de Andréa serve para ressaltar a importância não apenas do autoexame, mas também em se manter uma rotina regular de exames médicos, para que, assim, seja feita a identificação de possíveis anormalidades o quanto antes. A campanha contribui para que mais mulheres sejam informadas sobre o câncer de mama, desmistificando a doença e incentivando o autoexame.

Entende-se que o câncer possui um estereótipo amedrontador e que, assim, muitas pessoas ainda tornam-se resistentes quanto aos cuidados físicos e psicológicos. Deste modo, as campanhas fazem-se cada vez mais necessárias. 

A entrevistada ainda comentou acerca dos pontos falhos da campanha. “O Outubro Rosa é extremamente importante, mas eu acho que ainda falta muito. Infelizmente, por mais que se faça a campanha, ainda é bem distante de um público maior. As pessoas são resistentes, o atendimento chega bem tarde. Eu posso dizer que fui muito sortuda nesse ponto, porque o processo, para mim, foi bem rápido, mas nem pra todo mundo acontece. Hoje, você fica em uma fila quilométrica esperando para fazer exames, ultrassom, consultas no médico, fila para ser operada… Tudo é bem demorado e, às vezes, não dá tempo.” 

“Acho que ainda é muito triste essa demora de atendimento, não só para o câncer de mama, mas para qualquer tipo de câncer. A gente ainda está bem distante de ter sucesso nisso. É uma coisa que a gente sabe que precisa.” 

Como dito anteriormente, realizar o autoexame é de extrema importância, uma vez que ajuda as mulheres a sentirem os chamados “caroços” e decidirem por procurar um médico. No entanto, nem todos os casos podem ser percebidos apenas através do autoexame, como foi com Andréa. 

“Eu não sentia nada. Dor no peito? Não. “Caroço”? Não. Eu não tinha nada, só descobri ao fazer a mamografia, então foi bem silencioso. É uma coisa rápida. Quando a gente vê, já foi. Embora exista a campanha, como existe agora, para cada mês uma cor, é uma coisa para a gente pensar, lutar, se conscientizar; ainda falta bastante para melhorar, infelizmente.”

OUTUBRO ROSA NA INTERNET

Mas além de Andréa, outras mulheres também lutaram e venceram o câncer. Uma delas é Linda Rojas.

Em 2012, recebeu seu primeiro diagnóstico e passou por uma cirurgia para a retirada de um quadrante da mama. Em seguida, iniciou o tratamento com quimioterapia e, depois, radioterapia. Cinco anos mais tarde, resolveu fazer um autoexame e sentiu um “caroço” no mesmo seio. 

Linda decidiu retirar as duas mamas como forma de prevenção, evitando que o câncer voltasse futuramente. 

Ela sempre teve o sonho de ser mãe e, para isso ser realizado, era necessário interromper a medicação, sendo essa a decisão tomada. No meio de 2020, ela parou de tomar os medicamentos e, em março de 2021, engravidou. Depois do nascimento de seu filho, Linda precisou retomar a medicação, por cerca de mais dois anos, para o câncer não voltar. 

Linda possui uma conta no Instagram com mais de 26 mil seguidores. Nela, mostra a sua rotina, como é a maternidade e aproveita para conscientizar as pessoas sobre o câncer de mama. Além disso, possui também um site, onde publica textos relatando experiências. 

O trabalho de Linda na Internet mostra-se essencial, uma vez que ela é capaz de informar às pessoas acerca da doença e de sua vivência, podendo, ainda, se conectar com outras mulheres que passaram, ou que estão passando, pela mesma situação. 

Imagem da influencer Linda em sua casa
Linda Rojas/Divulgação.

UM ANO COLORIDO

Assim como a campanha do Outubro Rosa, os outros meses do ano também possuem outras cores e conscientizam sobre diferentes assuntos, estes muitas vezes, não são discutidos e são considerados tabus. Além das campanhas mais divulgadas como o Setembro Amarelo, ligado à prevenção do suicídio, e o Outubro Rosa, existem outras várias pautas atribuídas a cada um dos meses do ano. A seguir estão algumas das campanhas realizadas anualmente:

  • Janeiro Branco: ressalta a importância da saúde mental;
  • Fevereiro Roxo: conscientização sobre Alzheimer, fibromialgia e lúpus;
  • Fevereiro Laranja: conscientização sobre a leucemia;
  • Março Azul: importância da prevenção e diagnóstico do câncer colorretal;
  • Abril Azul: conscientização sobre o autismo;
  • Abril Verde: segurança no ambiente de trabalho; 
  • Maio Vermelho: prevenção à hepatite;
  • Maio Amarelo: alertar sobre acidentes de trânsito;
  • Junho Vermelho: importância e da doação de sangue; 
  • Junho Laranja: conscientização sobre a anemia;
  • Julho Amarelo: conscientização sobre as hepatites virais e sobre o câncer ósseo;
  • Agosto Dourado: importância do aleitamento materno;
  • Setembro Amarelo: importância da saúde mental e prevenção ao suicídio;
  • Setembro Verde: conscientização sobre a doação de órgãos e prevenção do câncer de intestino; 
  • Setembro Vermelho: prevenção de doenças cardiovasculares;
  • Outubro Rosa: conscientização sobre o câncer de mama;
  • Novembro Azul: combate ao câncer de próstata; 
  • Novembro Dourado: conscientização sobre o câncer infanto-juvenil;
  • Dezembro Vermelho: prevenção contra a AIDS; 
  • Dezembro Laranja: conscientização sobre o câncer de pele.