Onda conservadora tem 50 tons de direitismos
Política

Onda conservadora tem 50 tons de direitismos

“O bolsonarismo já existia antes do Bolsonaro, ele existe durante o bolsonaro e continuará existindo depois de Bolsonaro”, afirma David Magalhães, um dos fundadores do Observatório da Extrema Direita,  uma iniciativa dedicada a monitorar e analisar ideias, movimentos, partidos e lideranças da extrema direita, atuando junto ao Laboratório de História Política e Social (LAHPS) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Por Diogo Campiteli, Fernanda Soldateli, Kimberly Caroline e Maria Eugenia Cotait

O resultado da eleição nacional para deputado federal, no Brasil, em 2022, aponta para o fortalecimento da onda conservadora no país, “O ponto de partida em que esse movimento se organiza politicamente e socialmente é em 2013”, diz David Magalhães, professor de relações internacionais da PUC/SP e FAAP, doutor em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas.

No dia 2 de outubro de 2022, os brasileiros elegeram, dos 513 possíveis, 260 deputados federais de partidos como o PL, União Brasil, PP, Republicanos, PSC, Patriota, Novo e PTB, totalizando 50,6% da Câmara. Esses partidos possuem histórico de apoio ao presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), refletindo, nas urnas, o entranhamento de pautas conservadores na população brasileira. Bolsonaro, em evento no Recife, no segundo turno, comemorou o fortalecimento de sua base e já fez promessas: “O Congresso eleito atualmente foi mais para o centro direita, então pautas como a redução da maioridade penal, obviamente caso seja reeleito, nós implementaremos e podemos dizer que temos muita chance de aprovar a redução da maioridade penal”.

A ascensão de ideias conservadoras emergem no mundo. Donald Trump em 2016, nos Estados Unidos, Viktor Orban na Hungria, Narendra Modi na Índia, Brexit no Reino Unido. A direita, se não está no poder, está na oposição ou em coalizões governamentais, citando o exemplo dos partidos Vox na Espanha e AFD na Alemanha. “Não é um fenômeno específico brasileiro, faz parte de uma onda global mais ampla”, afirma David Magalhães.

Esse movimento global surge na crise do modelo de Democracia Liberal. Grande parte das populações mundiais deixou de se ver representada por sua classe política. Isso gerou um movimento anti-establishment que, segundo David, líderes e ideias populista de direita são mais eficazes em capturar.

Nessa entrevista à FACTUAL900, David Magalhães explica o por que e como essa onda conservadora surgiu no Brasil e no Mundo, as particularidades do bolsonarismo e as estratégias de comunicação.

David Magalhães, professor da PUC-SP e FAAP, fala sobre o bolsonarismo e a onda conservadora – Maria Eugenia Cotait/Factual900

Factual900 – Quando começou essa onda conservadora?

David Magalhães – No Brasil, talvez, o ponto de partida em que esse movimento se organiza política e socialmente é a partir de 2013, com as jornadas de junho, que começa como um movimento progressista, mas é capturado por uma série de organizações mais à direita. Há um sentimento que foi muito capturado nas manifestações que pediram o impeachment da Dilma que é contra o sistema político. No Brasil, esse sentimento anti-establishment veio antes a reboque também da operação Lava Jato que ajudou a criminalizar todo o sistema político. É importante não desconectar esse movimento de uma onda global, ou seja, essa onda ultra direitista global. Ela tem três gatilhos. O primeiro é o 11 de Setembro, que vai disseminar no mundo uma percepção contrária ao Islamismo, a favor da civilização Judaica Cristã e espraiar nesses países, principalmente ocidentais, um sentimento islamofóbico. O segundo é a crise de 2008. Nos países ocidentais, essa crise vai produzir uma desigualdade muito grande, uma sensação de um grupo que perdeu com a globalização e que quer o seu lugar ao Sol. Geralmente, a direita populista consegue engendrar uma narrativa para capturar esses grupos mais ressentidos e que são resultado de uma desigualdade econômica da globalização.  O terceiro gatilho que é, principalmente para a Europa, que está vinculado com a crise de refugiados em 2014 e 2015.

Factual900 – Como funciona a comunicação desse movimento?

Magalhães – Vão buscar questionar os meios tradicionais de comunicação. Eles veem as organizações jornalísticas e midiáticas como organizações elitistas e progressistas. Por exemplo, a guerra que Donald Trump travou nos Estados Unidos contra a CNN. E a guerra aqui no Brasil que o Bolsonaro trava contra organizações mais tradicionais, Folha de S.Paulo, Globo e Estadão, em menor medida. Como substituição a esse enfrentamento, há toda uma estratégia de comunicação direta com seu eleitorado, essa comunicação direta se dá justamente por meio das redes sociais, principalmente do Twitter. Então, conseguem se comunicar sem o filtro do jornalismo profissional, o que facilita obviamente que as informações não tenham qualquer tipo de mediação e que se distribuam uma série de notícias falsas. É uma característica do populismo buscar se comunicar diretamente com o eleitorado sem as instituições que são tidas como instituições elitistas. O populista busca ser uma espécie de voz popular contra elites corrompidas. 

Outro ponto que se levantou foi a das “guerras culturais”. É uma estratégia que o Brasil importou dos Estados Unidos, o Country Wars, e é muito comum nos Estados Unidos desde os anos 1980. É a ideia que precisa comunicar e enfrentar os grupos progressistas com uma contra narrativa de direita. Existe uma percepção por parte deles que a esquerda domina as universidades, domina imprensa, domina meios culturais, domina todos os meios de pensamento e que é necessário uma contra ofensiva de direita. Então, a direita precisa ocupar a televisão, as rádios, as editoras, precisam publicar livros, ocupar as redações de jornais para oferecer uma contra narrativa. E isso vai produzir justamente uma guerra cultural.

Factual900 – No contexto brasileiro, a classe C, que recebe entre 2 a 10 salários mínimos, é a que mais vota no Bolsonaro, em oposição às classes mais baixas e mais altas que votam em sua maioria em Lula. A que se deve isso?

Magalhães – Existe uma propensão histórica da classe média ao conservadorismo. Se a gente perceber os grupos de apoio à direita radical mundo afora é justamente o grupo dos extratos intermediários. Então isso vale para uma classe média branca trabalhadora, que acabou elegendo o Trump. Tem um estudo de um grande economista, Branco Milanovic, que vai mostrar que esse grupo dessa classe média foi que nos últimos 20 anos de globalização menos ganhou, né? Eles ficaram estagnados, principalmente nos países da OCDE, Europa ocidental, Estados Unidos e Canadá. Esse grupo tem um certo ressentimento de classe. Eles viram grupos como os plutocratas financeiros ganharem muito dinheiro durante a globalização, uma classe média emergente surgir na China na Ásia e eles ficaram estacionados. O que chamam de “Left Behinds”. Eles foram deixados para trás da globalização e a esquerda não olhou para esse grupo. Os progressistas não olharam para esse grupo, abandonou a classe trabalhadora e a direita sobre engendrar uma narrativa. Para justamente conseguir capturar esses grupos intermediários que é uma classe trabalhadora branca de um estrato intermediário. Esse é um fenômeno também global. Então, é uma mescla de ressentimento de classe com uma inclinação intrinsecamente mais conservadora. Isso se torna um público alvo para a direita capturar. E ajudou também a demonização que alguns grupos de esquerda fizeram com a classe média. Eu lembro da Marilena Chauí aos gritos, a filósofa da USP (Universidade de São Paulo), dizendo que a classe média não presta, isso ajuda a empurrar a classe média contra tudo aquilo que é a proposta progressista.

Factual900 – Além do abandono da classe C, quais seriam outros motivos para a crise da democracia liberal?

Magalhães – Eu acho que não adianta a gente ficar apenas denunciando o bolsonarismo e o  ataque às instituições, sendo que não se faz nada para se reformar a democracia brasileira. Tem um problema central é que as pessoas não se veem representadas pela elite política que está governando. O sentimento geral é que sai uma pessoa e entra outra e nada muda. Porque há uma crise de representatividade estrutural. É necessário uma reforma política em que torne mais participativa as relações da sociedade civil com o poder. Então, qual é o modelo que prevaleceu no Brasil? Desde 1988 que eles chamam de Nova República é uma alternância entre PT e PSDB. Chegou o momento que houve uma exaustão desse modelo que se provou nas ruas. Eles não gostavam do PT, mas quando Aécio Neves tentou pegar carona na Paulista, ele foi quase que linchado porque eles eram vistos como parte desse mesmo sistema.

Bolsonaro mesmo que ele tenha feito a sua carreira por 30 anos no baixo clero do Centrão conseguiu construir imagem de que ele era fora do sistema e queria palavras dele ‘quebrar o sistema’. Ele conseguiu comunicar politicamente que era uma figura antissistema. E era contra o Centrão, contra o PMDB, contra o PT, contra o PSDB, contra tudo que está aí. Compra quem quer, eu estudo política faz muito tempo. Eu sei que não é. Agora, a maioria da população que não conhece a trajetória do Bolsonaro compra a ideia de que ele era uma figura para romper com o sistema político. E ele vem como a figura fora do sistema. Então é uma crise colocada que só se resolve mediante uma reforma política mais ampla e estrutural.

Factual900 – Muito se fala sobre o papel dos evangélicos na construção da força do movimento conservador de direita no Brasil. Qual é o verdadeiro papel desse grupo na conjuntura brasileira?

Magalhães – Os evangélicos desempenham um papel crucial. A primeira coisa que a gente precisa saber é quantos são os evangélicos. O fato de não ter havido censo em 2020 atrapalha um pouco saber qual é essa fatia da população evangélica, mas especula-se que exista entre 60 e 70 milhões de evangélicos no País. É um tipo de denominação que a gente importou dos Estados Unidos, desde os anos 1930. Mas que ganha força no Brasil com a Assembleia de Deus, que é pentecostal, e depois tem uma dissidência dela que é a Igreja Universal que é uma neopentecostal. Esses grupos têm uma visão fundamentalista cristã em geral. Os evangélicos tiveram muito êxito em penetrar em rincões periféricos do Brasil. Entender que essa direita ela é um fenômeno elitista é muito falso, é enganadora, equivocado e até politicamente burro, eu diria. Porque o conservadorismo é um fenômeno popular, que penetra e tem uma força muito grande nos grupos de baixa renda e nas periferias do Brasil. 

As igrejas evangélicas fazem e desempenham o papel que antes era desempenhado pelo movimento de base da Igreja Católica, que tinha um viés mais progressista, e por movimentos sociais. A Igreja Católica e os movimentos sociais saíram da periferia, e as igrejas evangélicas acabaram as substituindo nesse papel. E é claro, uma mãe que vê o filho, inclinado para se vincular em uma organização de tráfico criminosa ou entre ele estar numa igreja, vai preferir que esteja na igreja. Então é um fenômeno até compreensível do ponto de vista da legitimidade social. Esse lugar foi ocupado por essas igrejas e isso explica o conservadorismo existente na periferia, um conservadorismo popular. O conservadorismo não está na Faria Lima. O conservadorismo está nas periferias.  O Bolsonaro capturou isso muito bem. Ele é um católico de formação batizado em 2016. Foi para Jerusalém até o Rio Jordão e foi batizado pelo pastor Everaldo, que concorreu nas eleições de 2014. Foi o recado que ele estava dando para os grupos evangélicos de que ele seria o candidato dos evangélicos. Então hoje há toda uma disputa por esse público. 

Em 2022, durante desfile cívico-militar da Independência , Bolsonaro faz gesto em referência à Deus – Antonio Cruz/Agência Brasil

Factual900 – Como classificar Jair Bolsonaro?

Magalhães – O bolsonarismo é um movimento muito mais amplo que é difícil você conseguir dar um nome porque é um movimento heterogêneo. A gente precisa separar o que é o Bolsonaro como pessoa, o movimento bolsonarista e o governo Bolsonaro. Como pessoa é extrema direita. Porque é uma das expressões de extrema direita na América Latina o flerte com o regime ditatorial e principalmente o que há de pior do regime ditatorial, que é apologia tortura. Então ele não é do grupo do (ex-presidente Ernesto) Geisel que fez a transição para democracia. Ele era do grupo que não queria abrir o País para a democracia, era o grupo que estava justamente apoiando e ele apoiou, disse isso, abertamente o general Ustra que torturou a Dilma (Rousseff, ex-presidenta). Então tem uma pauta que mistura com gangsterismo miliciano que é tipo de organizações extrema direita, madeireiros, milícias no Rio, então ele configura a extrema direita. O movimento bolsonarista é muito mais amplo que o de Bolsonaro. Tem setores liberais, Paulo Guedes e Faria Lima, que quer abertura e modernização econômica. Tem setores conservadores tradicionais, inclusive, alguns grupos neopentecostais, nem todos os neopentecostais são fundamentalistas que estão preocupados com a agenda anti-abortista, de família, contra o que eles chamam de ideologia de gêneros, uma agenda conservadora. E tem grupos anti-sistemas ali no meio, que são contra a Globo, contra Folha de S.Paulo, contra os artistas, Caetano Veloso, a Fernanda Montenegro. Tem grupos de extrema direita mesmo como tinha os 300 da Sara Winter, que havia de neonazista mesmo.  Tem 50 tons de direitismos no movimento bolsonarista, agora no governo Bolsonaro é diferente porque você tem mecanismos de contenção, não há autocrata que governa sozinho, tem sociedade civil, tem imprensa, então isso contém um pouquinho o que seria um governo de extrema direita. Bolsonaro é um governo radical populista de direita, que mantém uma agenda conservadora, mas sempre com uma pulsão antissistema. Populista porque tem um elemento antissistema muito forte, anti-elitista muito forte, contra elite política jornalística, elites culturais e algumas elites econômicas. 

Factual900 – Ao mesmo tempo, em 2022, candidaturas que se opõem ao movimento conservador foram eleitas, com destaques a Guilherme Boulos (PSOL-SP) com mais de 1 milhão de votos em São Paulo, as primeira vez que terá duas deputadas federais trans, Erika Hilton (PSOL-SP) e Duda Salabert (PDT-MG), além de outras candidaturas indígenas e de movimentos sociais. Como isso é possível?

Magalhães – Uma coisa alimenta a outra. Tem uma sociedade que é majoritariamente conservadora, vai ter um grupo que vai buscar espremer os seus direitos para sobreviver nessa sociedade. Então, numa sociedade que vê o cristão branco e o cidadão de bem como aquele que precisa ser protegido, as minorias vão buscar se organizar para sobreviver. Eu não falo nem só de direito, é de garantir a existência física, o Brasil é o país que mais mata mulher, mais mata minorias da comunidade LGBTQIA+. Então não estou falando apenas de direito, de casamento homoafetivo, estou falando de direito deles existirem. Esses grupos têm se organizado dado a uma reação conservadora. Isso acaba quando a gente olha no resultado eleitoral tendo uma situação polarizada ainda com a fatia maior em favor dos grupos conservadores.

Factual900 – Esse movimento no Brasil é reflexo de uma onda global?

Magalhães – Tem uma série de movimentos globais, o Viktor Orban (Hungria), na Polônia, na Índia com o governo do Narendra Modi. Não dá pra situar o movimento apenas no Brasil. O Brasil está conectado a uma onda de uma direita radical populista global que cresce e chega ao poder. E se não está no poder, está na oposição ou em colisões governamentais, que é o caso da Alemanha um partido ultradireitista AFP e tem um outro partido na Espanha que é o Vox que é o principal partido da oposição, um partido que flerta com o Franco, com o fascismo. Então, essa direita ela está na Espanha, na Índia, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Hungria, na Polônia e também chegou no Brasil, não é um fenômeno específico brasileiro, claro que aqui a gente tem as nossas especificidades, mas faz parte de uma onda global mais Ampla que se arrebatou no Brasil.

Factual900 – Existe algum caso internacional, em específico, que mais se assemelha ao Brasil?

Magalhães – Talvez, o caso que mais se aproxima do Brasil seja o da Hungria. A Hungria passou por um regime ditatorial até os anos 1980. O Brasil passou por uma experiência democrática liberal após os anos 1980. A Hungria teve uma tentativa de se criar uma democracia liberal que durou 20 anos. Na Hungria a esquerda vai ficar no poder por oito anos, aqui (Brasil) a esquerda fica um pouco mais no poder, um partido centro esquerda que é o partido social Democrata Húngaro e aqui é o PT. Na Hungria o partido social Democrata se corrompe no poder e vem uma crise econômica então a mescla de crise econômica com corrupção. 

E aí isso surge justamente a figura que vai ser o redentor, o messiânico. Na Hungria é o Viktor Orban propondo restaurar uma nova democracia, não essa democracia corrompida elitista, uma nova democracia popular que dê força ao povo e a gente pode dizer que um processo muito parecido aconteceu no Brasil. Ou seja, a ideia de você aproveitar os movimentos de rua contra o sistema político, contra o establishment e as elites, para propor uma democracia que fosse do cidadão de bem. Então, é o projeto que se colocou, um projeto autoritário em vários sentidos.

O que ele tem, ao contrário do Bolsonaro, foi muito capital político no primeiro mandato. Ele faz uma reforma do Judiciário, e vai justamente aposentar compulsoriamente os ministros da Suprema Corte e inclui mais 10. E tem uma maioria que pode fazer, inclusive, impeachment de ministro (do Judiciário). Então ele consegue fazer isso no primeiro mandato. De repente, tem uma corte constitucional que é dócil ao regime, cooptada pelo presidente, que passa a ter o Poder Legislativo nas suas mãos, porque isso ele obteve por meio dos votos, e passa a ter o Poder Judiciário. A democracia liberal só sobrevive se houver tripartição de poder e independência entre eles. 

O temor que se tem em relação a uma reeleição de Bolsonaro é a replicação do que aconteceu na Hungria com o Viktor Orban. Porque agora o Bolsonaro tem uma maioria robusta no Legislativo, principalmente no Senado, tem um projeto que começa a circular sobre uma reforma do STF muito parecida com a da Hungria.

Factual900 – Qual é o futuro dessa onda da direita radical populista e conservadora? 

Magalhães – O bolsonarismo já existia antes do Bolsonaro, ele existe durante o bolsonarismo e continuará existindo depois. Bolsonarismo é um movimento que estava silenciado por uma espécie de cultura democrática que censurava a violência, censurava essas posições mais extremistas. Era estranho uma pessoa vir a público e defender a ditadura há 10 anos. Você não via gente falar ‘Ah, eu sou a favor do AI-5’, uma pessoa vir a público e defender uma posição classista, racista. É o que acontece. Mas, existia no subterrâneo. Por exemplo, em 1993 houve o massacre do Carandiru, 111 presos foram assassinados da forma mais bárbara possível, o responsável pelo ataque no Carandiru foi aplaudido de pé pela população, no carro de carnaval, no mesmo ano. O Caetano Veloso, em uma música, falou que o massacre aconteceu sobre o ‘Silêncio Sorridente de São Paulo’, nesse silêncio sorridente meio que sorrindo para a barbárie, o bolsonarismo já estava ali, só que ele estava envergonhado.  A partir do momento que você tem alguém na Presidência que legitima essas posições, essa turma sai do bueiro, se sentem legitimados, perdem a vergonha e sai na rua com a bandeira da monarquia, não interessa se a monarquia era escravocrata ou não.

Então eles estão aí vão continuar manifestando vão continuar se organizando. Não só uma direita conservadora que é legítima porque respeita a democracia, mas o problema é que a direita radical e a extrema direita também cresceu no bojo do conservadorismo, não apenas uma direita que respeita a democracia. Uma direita civilizada cresceu, acho que é imprescindível para qualquer democracia e faltava no Brasil. O problema é que o Bolsonaro está capturando o que sobrou de uma direita civilizada. Esse movimento vai persistir. Vejo, por exemplo, no eventual governo Lula, uma dificuldade muito grande de governar e de mesmo lidar com manifestações. Vai ser um período não de paz social, não vejo paz social, vejo um período ainda de manutenção da polarização.