“O streaming enriquece a experiência”, diz diretor de “Chorão: Marginal Alado”

Para o documentarista e jornalista casperiano Felipe Novaes, é falsa a oposição que se coloca entre o streaming e o cinema de rua e que não se pode encarar os novos serviços digitais como a primeira ou a última novidade do mercado audiovisual

Por Arthur Viana, Daniela Clivatti, Luiza Pojar, Mariana Cury, Otávio Henrique, Rafaela Paredes e Yasmin Logrado

Felipe Novaes dando entrevista.
Felipe Novaes, diretor de “Chorão: Marginal Alado” (Foto: Arquivo Pessoal)

O streaming veio para ficar, e, para muitos, salvou a vida pandêmica. Foram horas de binge watching para dar conta das séries mais comentadas no mundo em isolamento. Já que não dava para aglomerar no cinema, a pipoca estava garantida dentro de casa. Os grandes estúdios cinematográficos decidiram investir pesado em lançamentos de filmes nos serviços de streaming. A ponto de impactar até a duração das obras e em como elas são pensadas e lançadas”, explica o documentarista Felipe Novaes, em entrevista exclusiva para a Factual900

Para quem não sabe, Felipe Novaes é jornalista formado pela Cásper Líbero e produtor e diretor-executivo do documentário Chorão: Marginal Alado, lançado em 2021. O longa, que conta a história do vocalista do Charlie Brown Jr., estreou de forma simultânea nas salas de cinema e nos principais serviços de streaming, como Netflix e Amazon Prime Video. Há alguns anos, esse caminho seria bem diferente. Na entrevista para a Factual900, Novaes aborda como as transformações do audiovisual se aceleraram, não só com a ascensão do streaming, mas com novas formas de encarar os “cinemas de rua”. Para ele, “quem gosta da experiência da sala vai continuar gostando”. 

Como a cultura do streaming impactou o cinema?

Acho que foi completamente afetado. O cinema definitivamente não é mais o mesmo, mas isso não quer dizer que tenha acabado, não acredito nos “profetas do apocalipse”. Agora, mais do que nunca, as mídias estão completamente conectadas e transpostas, tudo está mudando, mas o cinema continua existindo, ainda mais vivendo uma era da transmissão. Antigamente os filmes eram feitos para o momento em que a pessoa saía de casa, um momento de lazer em que ela ia para uma sala de cinema ficar imersa na experiência. A partir da popularização do streaming, a sétima arte é feita pensando em que momento as pessoas estão encaixando esse hábito em suas vidas, o que impacta, inclusive, na duração das obras e em como elas são pensadas e lançadas. 

Na sua opinião, o streaming empobrece a experiência do filme?

Acho muito reducionista dizer que empobrece a experiência. Muda, lógico, e tudo que muda tem um lado bom e um lado ruim. Ainda há espaço para o cinema nas salas de exibição, porém como um momento mais específico. Hoje você tem a oportunidade de ver muito mais coisas do que você veria se tivesse que sair e pagar um ingresso cada vez que quisesse assistir algo, ou se dependesse de algum conteúdo estar em cartaz ou não. Acho que, nesse sentido, o streaming enriquece a experiência. Por exemplo, por um lado, na sala de exibição você fica completamente imerso, é uma experiência subjetiva, individual, você não pode fazer barulho e tem que respeitar o espaço do outro. Mas, com o streaming, você pode juntar seus amigos em casa e debater um filme à medida em que vocês o estão assistindo. Acho também que, apesar de não ter a mesma experiência da sala de exibição, os aparelhos de televisão estão cada vez mais modernos, então você consegue emular uma experiência imersiva. Temos que falar muito mais em transformação do que em empobrecimento, porque a vida é isso, as mídias estão sempre mudando. O streaming não é a primeira novidade que chegou “na praça”, e, certamente, não será a última.

Em relação ao preço, onde é mais barato lançar um filme?

Por questões logísticas, é mais barato no streaming. Para você lançar um filme na sala de exibição, você tem que mandar um DCP (Digital Cinema Package) para cada sala, o que envolve um custo de transporte significativo. Hoje, lançar no digital é bem mais simples, porque você tem um alcance maior com um arquivo só, e basta as pessoas acessarem e alugarem o filme de sua própria residência. Em compensação, a receita é menor, porque, por exemplo, quando você aluga um filme para uma pessoa só, três, quatro, cinco pessoas podem assistir também. Então, acho que é um erro ficar pensando em falsas equivalências entre a experiência do streaming e a do cinema. Elas coexistem hoje, e se complementam. No caso de Chorão, lançamos nas salas de exibição nas cidades onde pudemos lançar na época, por causa dos protocolos da pandemia. E lançamos, também, no VOD (Video on Demand) e no TVOD (Transactional Video on Demand). Cada um sabe da sua rotina, alguns irão continuar indo ao cinema e outros vão preferir o streaming. Até hoje, o Marginal Alado é convidado para algumas exibições em festivais, tipo o SESC, que montou um circuito e o exibiu. As pessoas continuam assistindo a filmes no cinema, quem gosta da experiência da sala vai continuar gostando. 

Poster do documentário "Chorão: Marginal Alado"
Documentário “Chorão: Marginal Alado”, lançado em 8 de Abril de 2021. (Imagem: Distribuição)

Como premiações como o Oscar tiveram que se adaptar para incluir filmes de streaming? Qual sua opinião sobre isso?

Essa história do Oscar começa com Roma (2018), que foi o primeiro filme da Netflix aceito e que ganhou, de fato, vários prêmios. O Oscar é um prêmio que representa uma indústria que está se transformando, então, o mínimo que ele pode fazer é se adaptar. Principalmente depois da pandemia, imagina o tanto de filme que não teria tido a oportunidade de ir para o Oscar se não fosse essa revisão das regras. E eu acho que não adianta resistir, o streaming veio pra ficar. Vou dar um exemplo: outro dia eu estava assistindo o Jornal Nacional ao vivo aqui em casa, tocou o interfone e eu peguei o controle pra pausar. Pra você ver como a experiência do streaming já está enraizada, embutida nos nossos hábitos. É um caminho sem volta, todas as premiações têm que se adaptar para incluir filmes lançados nas plataformas digitais. Lógico que a gente precisa, como indústria e como sociedade, continuar valorizando os filmes exibidos no cinema, porque é uma experiência muito legal. É diferente, catártica, social, pois você vai assistir com um público que não está restrito à sua casa. E a reação das pessoas é muito legal, você pode usar a experiência da sétima arte como uma espécie de termômetro social: ver o que acham engraçado, o que as emociona, o que dá raiva. 

O lançamento inicial no streaming aumentou a pirataria?

Essa questão da pirataria é meio dúbia. Ao mesmo tempo que você pode pensar que com o lançamento inicial no streaming, o arquivo fica disponível pra pirataria mais rapidamente, você também tem que pensar que muita gente que compraria uma cópia pirata – por não tem a grana pra ir ao cinema ou por não poder sair de casa – talvez já assine um serviço de streaming ou conheça alguém que assine. Talvez o streaming agilize a pirataria, mas aumentar em termos de consumo, não sei. Por exemplo, tenho uma prática que é a seguinte: só baixo um filme quando ele não está disponível em nenhum streaming no Brasil. E isso dificilmente acontece, porque hoje em dia existe uma gama de possibilidades. Tudo bem, não dá pra usar isso como parâmetro para todos, mas eu acho que não aumentou. Acredito que a pirataria só mudou em relação ao formato de existir. Se antes eram cópias vazadas em DVD, com um pouco mais de dificuldade e demora, hoje em dia a pirataria também está presente no âmbito digital, através de arquivos em pastas do Google Drive ou no YouTube.

O streaming desvaloriza ou democratiza o acesso ao cinema?

Temos que pensar que algumas cidades não têm cinema. O Brasil não é São Paulo, Rio de Janeiro ou só as grandes capitais, então o streaming facilita, abrange e expande o acesso. Democratizar é um termo mais complicado, já que, por um lado, as plataformas digitais tornam tudo menos democrático. Você vira um tirano do controle remoto, escolhendo a forma como assiste e quando pausar ou voltar. Nesse sentido, tem um efeito negativo: a facilidade com que você deixa de assistir algo. Acho importante assistir filmes que a gente não gosta, que causam desconforto. Isso é necessário, pois o cinema é isso, não só entretenimento, mas também reflexão. Às vezes, com a facilidade de trocar de conteúdo, de pausar e voltar para ver depois, o streaming talvez só limite um pouco esse espaço de reflexão. Por outro lado, acho que democratiza na medida em que faz chegar para mais pessoas. E, realmente, em termos monetários, é muito mais fácil para uma galera que não tem tanta condição de pagar ingressos de cinema, se juntar com amigos e dividir a assinatura de algum serviço digital. Então, sim, tornou-se mais acessível, porém não sei se mais democrático.

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