Capa do livro das vidas, obituários do New York Times
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A arte de transformar o comum em extraordinário em “O Livro das Vidas”

Ao criar uma coletânea de obituários publicados durante anos no jornal New York Times, o jornalista Matinas Suzuki Jr apresenta um caleidoscópio de vidas notáveis que fizeram a diferença na sociedade

Por Bárbara Maiato, Giulia Giampietro, Julia Fratti e Maria Cecília Dallal

“Se você tiver de morrer, é melhor morrer no Times”, afirmou o renomado jornalista A. M. Rosenthal, em frase pinçada por Matinas Suzuki Jr no posfácio de O Livro das Vidas, lançado em 2008 pela Companhia das Letras. A frase do editor-executivo, a quem se atribui a salvação da falência, nos anos 1970 e 1980, do hoje prestigioso New York Times, traduz o que é a arte de escrever obituários. Diferentemente do senso comum, que muitas vezes associa essa palavra a algo mórbido e melancólico, os obituários publicados nas colunas do jornal mais influente do mundo são, na verdade, uma grande celebração da vida.

O jornalista Matinas Suzuki Jr foi o coordenador da coleção Jornalismo Literário e organizador de O Livro das Vidas, que ganhou o intertítulo “A última palavra sobre vidas extraordinárias – e quase desconhecidas”. Ele selecionou obituários publicados no New York Times que foram um sucesso internacional. Tanto é assim que mais de 2 mil pessoas expressaram o desejo de serem entrevistadas em vida para garantir que, após sua morte, tivessem um obituário publicado.

Suzuki tenta apresentar uma perspectiva diferenciada desse gênero jornalístico, ainda visto com algum preconceito pelo público brasileiro. Ele dá prioridade aos obituários de pessoas comuns, cujas realizações e contribuições ganham destaque por meio da lente jornalística, ressaltando a importância de suas trajetórias para a sociedade. Assim como Matinas Suzuki afirma, um jornal bem informado também é aquele que reconhece uma população que teve um papel essencial na vida cotidiana.

O livro, por ser formado apenas por obituários, pode tornar a leitura cansativa e repetitiva. Alguns textos menos interessantes podem fazer com que o leitor perca o interesse, o que o fará perder ótimas histórias.

Os jornalistas têm um papel essencial em O Livro das Vidas, pois é por meio de suas visões que o leitor tem contato com o personagem dos obituários. Em todo o livro, percebe-se uma boa escrita, somada a uma ótima apuração. Ao procurar imprimir uma excepcional narração, o olhar jornalístico permite encontrar o extraordinário no meio do comum.

A figura jornalística se torna tão presente durante a leitura que muitas vezes ela rouba a cena. Por exemplo, na história “Testemunha da peste, vítima da peste”, o próprio repórter Richard J. Meislin, que era portador do HIV, entrevista um homem que também possui a doença. Meislin coloca o seu próprio relato no texto, dando muito mais emoção para aquela narrativa. Essas curiosidades enriquecem a narrativa que o livro carrega, tornando-o um exemplo excepcional do que é a narrativa jornalística.

O Livro das Vidas. Organizado por Matinas Suzuki Jr. Companhia das Letras, 2008, 312 págs., 58 reais.