Cultura

O futuro dos musicais no Brasil

Perspectivas desse estilo teatral por Gerson Steves

Autor do livro ‘A Broadway não é aqui’, Gerson Steves é formado em comunicação, é diretor e produtor teatral, dramaturgo e pesquisador em teatro musical. Além disso, mantém um canal no YouTube, o ‘ARTE Em Cena’, com diversos conteúdos da área. A Factual900 realizou uma entrevista com Steves acerca dos grandes musicais no Brasil. Ao longo do bate-papo, ele afirmou que o teatro musical “é como alta costura” e avaliou que “os musicais de baixo orçamento vão ganhar espaço e destaque”.

Gerson Steves em uma apresentação (Fonte: Arquivo Pessoal)

Qual é a história dos musicais no Brasil? 

G. Steves: O Teatro no Brasil sempre teve envolvimento com a música. Mas, quando iniciei meus estudos, há 35 anos, o teatro musical ainda não tinha muita força nem muita presença no cenário musical. A partir de 1995, o musical começa a ganhar força especialmente pelas leis de incentivo e pela tão falada e tão mal entendida Lei Rouanet. No estágio em que nos encontramos, o teatro musical é um dos produtos mais rentáveis para produtores e produções.

Quais as principais diferenças entre teatro musical e não-musical?

G. Steves: O Teatro musical é caro, exige muito dinheiro. É como alta costura. Você pode ver televisão, que é como comprar uma blusinha nas lojas populares, ou você pode ir ao teatro para ver um grande espetáculo com grandes artistas e grande tecnologia, que é como comprar uma roupa de alta costura, feita especificamente para você. Você pode comer uma lasanha congelada ou você pode ir num grande restaurante e  comer uma lasanha preparada por um grande chefe. A comparação é mais ou menos a mesma: Teatro é uma coisa artesanal, é caro por si só. A primeira diferença para o teatro convencional é que o musical, além de artesanal, exige muita tecnologia: microfones, amplificação de som, que são muito caros. Requer preparação corporal, vocal e musical. Músicos também não trabalham sem receber por ensaio e você tem que ter uma equipe muito grande. Claro que existem musicais pequenos, mas eles são exceções. Falando da regra, teatro musical é muito caro. 

A segunda diferença é que o teatro musical normalmente é um produto importado. Ou é imposto como um invasor cultural se vem da Broadway, ou é feito no Brasil, o que leva tempo. Demora muito, às vezes dois ou três anos para ser produzido e estrear. Nos Estados Unidos, um musical pode levar quatro ou cinco anos até o momento em que aparece. Então, além de tempo e recursos, demanda dinheiro. O teatro não-musical, nesse sentido, é mais eficiente. 

O público também é diferenciado?

G. Steves: O público do teatro musical quer espectáculos, cenários, figurinos, luz, glamour, sofisticação e brilho. Esse público normalmente está mais interessado na performance de canto e dança do que na interpretação. Já o público do teatro não-musical está mais interessado no texto, em pensar, mesmo que seja numa comédia. Essa plateia não se importa muito com as questões de cenário, figurino. Se importa mais com o conteúdo e menos com a forma. 

Quanto ao performer, o de teatro musical tem muitas demandas, precisa de acompanhamento de fisioterapeuta, fonoaudiólogo, professor de canto e faz aulas de dança fora do seu tempo de trabalho. Ele precisa ter um nível de preparação e manutenção do seu trabalho que é um pouco diferente do performer não-musical.

Como você  enxerga o futuro dos musicais de grande orçamento no Brasil com as mudanças na lei Rouanet?

G. Steves: Eu acho que os musicais estão passando por um momento que vai exigir mais criatividade e menos perdulários. Eu tenho muitas ressalvas com a lei Rouanet, acho uma lei com muitas distorções. De qualquer maneira, a gente não faria o que faz se não fosse por ela. Apesar de suas distorções, ela é importante. 

A gente começa a ver que essas distorções vão atender aos interesses contemporâneos desse governo. Ele vai começar a fazer produções religiosas com a lei Rouanet. Então a gente tem alguns problemas, as distorções só aumentam. 

Eu acho, principalmente, que os musicais de baixo orçamento vão ganhar espaço e destaque. Isso é bom, porque o musical de baixo orçamento privilegia o humano. O que significa, claro, que ainda vamos ter um bom microfone, som, luz  e manter os bons cachês para os artistas. Vamos parar de gastar dinheiro com tanto figurino, com tanto cenário que entra e sai, que talvez seja uma das cosias que mais encarece os grandes musicais. 

É evidente que o teto que eles colocaram é baixo para a produção de teatro musical. Algumas produções vão deixar de existir, como as negociações com musicais da Broadway. Os produtos da Time for Fun, por exemplo, ficam inviabilizados, pois tem normalmente 150 pessoas dedicadas a um espetáculo só. Além disso, a Time for Fun faz espetáculos com muitas perucas, muitas roupas, entra e sai de cenários, uma tecnologia muito cara – o Fantasma da Ópera é uma prova disso -, então isso vai mudar. Eu enxergo que temos que estar preparados para a mudança e já estamos mudando! A gente tem excelentes musicais de baixo e médio orçamento sendo produzidos e se tornando sucessos. O mais legal é que esses musicais são conteúdos brasileiros. É muito importante valorizarmos isso!

Steves escancarando sua dramaticidade (Fonte: Arquivo Pessoal)