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“O Brasil Privatizado”: a história se repete? 

O livro de Aloysio Biondi publicado há mais de 20 anos ainda reflete no cenário econômico brasileiro

Por Ana Carolina Rutkoski, Anna Cândida Xavier, Duda Kabzas, Giulia El Houssami e Sofia Kansbock Bianco 

De maneira clara e coesa o jornalista Aloysio Biondi escreve um livro com um único propósito: desmistificar argumentos que justificam a privatização das estatais. Publicado em 1999 pela Editora Fundação Perseu Abramo, foi motivo de alvoroço no cenário nacional.  

Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso nos anos 1990, grandes empresas públicas foram vendidas. O então presidente, sociólogo de formação, propagandeava que essa era a solução para resolver a crise do Brasil. A narrativa da época era de que a iniciativa privada significaria uma melhora para a economia e para a população. Aloysio vai na contramão dessa corrente. O jornalista defende que, conforme as estatais deixaram de ser patrimônio nacional, as privatizações causaram uma série de impactos negativos, como o aumento da dívida externa, a desvalorização do real frente ao dólar e prejuízos como resultado das vendas das empresas.  

Na primeira parte do livro, enumera e detalha os principais fatores responsáveis pela deficiência do projeto de privatização aplicado no Brasil.  De tarifas congeladas e venda por valores muito baixos, até o uso de “moedas podres”, Aloysio Biondi explica o processo de privatização durante o governo FHC. O autor, que foi professor da Cásper Líbero, mobiliza diversos casos que ajudam o leitor a compreender o que de fato aconteceu com o dinheiro do contribuinte. Expõe, por exemplo, os investimentos milionários que o governo fazia nas operações estatais para torná-las mais eficientes e lucrativas e depois as vendia por valores ínfimos. 

O autor tem uma grande preocupação em ser compreendido. Em O Brasil Privatizado, ele adota a sua linguagem simples com expressões corriqueiras. Diversas vezes, entre tabelas e números astronômicos há um tom leve e irônico. Biondi apresenta os fatos históricos com clareza para que todos possam entender. Com seu estilo de escrita, envolve o leitor, tornando trechos complicados da economia mais palatáveis. Até os extensos levantamentos de dados produzidos pelo próprio autor são explicados com destreza e simplicidade. Compreender a extensão do “rombo” que a economia brasileira sofreu é de dar um nó no estômago, mas os artigos reunidos na segunda parte do livro são tão cheios de vida e pontiagudos que fica mais fácil de lidar com a dura realidade. 

Mais um ponto aguçado de O Brasil Privatizado é o comentário sobre a postura da mídia brasileira durante o período das privatizações. O jornalista afirma, sem rodeios, que ocorreu uma campanha de “lavagem cerebral” da sociedade brasileira. Durante o governo de FHC houve um intenso ataque às estatais, sempre alegando a maior competência das empresas privadas.  

O Brasil Privatizado possibilita uma compreensão plena do processo de privatização no Brasil, mostrando todas as formas de como essa venda pode ser escamoteada e de como os serviços sob responsabilidade da iniciativa privada podem piorar vertiginosamente. É um alerta para que os brasileiros valorizem o que é público. Em São Paulo, a privatização da Sabesp, do Metrô e da CPTM está em jogo em 2023, mais de duas décadas depois da publicação dessa obra até hoje atual. O livro de Aloysio Biondi é um apelo pela participação da população nessa decisão de forma completamente informada. 

O Brasil Privatizado. De Aloysio Biondi. Editora Fundação Perseu Abramo, 1999, 80 págs., grátis (PDF)