Apresentação do Blackpink no Coachella de 2023.
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Música estrangeira emplaca hit após hit na parada dos EUA

A recente ascensão de artistas fora do território norte-americano como Anitta, Bad Bunny e Blackpink acende uma luz amarela na tradicional indústria cultural

Por Bárbara Maiato, Bruno dos Santos, Felipe Ockner e Isabelle Bignardi

Shakira, Ricky Martin, J Balvin, Maluma, Blackpink, Jennifer Lopez, Anitta, Bad Bunny e BTS, o que eles têm em comum? Grandes sucessos? Milhares de streams? Multidões de fãs? Tudo isso é verdade, mas você já reparou que nenhum deles é norte-americano? Com a internet e a tecnologia, as plataformas de streamings e redes sociais alavancaram a carreira de muitos artistas, entre eles, os grupos de K-pop e cantores latinos. Nunca a indústria cultural norte-americana esteve tão ameaçada. 

“Um dos principais fatores do sucesso desses cantores são as plataformas, como o Spotify, elas viabilizaram as descobertas de novas pessoas de uma maneira muito mais rápida, hoje os streamings possuem formas diferentes de divulgar esses artistas para o público”, afirma o jornalista musical Jacidio Leão.

As mídias sociais também foram importantes para esse processo de ascensão. O TikTok especificamente, permitiu junto ao algoritmo um sucesso orgânico das músicas, no aplicativo as músicas viram hit sem muita explicação. A maneira como o aplicativo funciona proporciona a fama de músicas que os próprios cantores não investiram tanto no marketing, divulgação e produção. Um exemplo disso foi a música Envolver, da cantora Anitta, que teve números impressionantes, obtendo influência no TikTok, após um vídeo da cantora viralizar dançando um trecho da composição.  

“Com as redes sociais, você tem os artistas como donos da sua própria estratégia de marketing, o TikTok ajudou a deixar isso de uma forma mais exponencial”, completa Jacidio. A divulgação das canções que antes eram feitas por meio de televisão, rádio e imprensa, hoje pode ser realizada através dos perfis de mídias dos próprios artistas. 

Não faltam exemplos da ascensão de artistas fora do território norte-americano. “Bad Bunny teve seu boom a partir do momento em que ele começou a tocar nos Estados Unidos, ele cresceu porque o país começou a ouvi-lo”, explica Jacidio Leão. Essa afirmação introduz a semelhança que esses artistas possuem com os estadunidenses para serem sucessos mundiais. 

Americanização 

Diante da ascensão de artistas não estadunidenses na música global, surgiram questionamentos sobre como eles conseguiram se inserir tão rapidamente no mercado. Uma das respostas para isso é a “americanização” deles e de suas músicas, fenômeno que faz com que a obra do artista latino ou coreano seja adaptada para as “métricas estadunidenses”. 

Dessa forma, o cantor usa recursos que atraíam públicos e mercados diversos, como a composição de músicas em inglês. “A Anitta fazendo features com artistas da América Latina é uma troca. O artista cede em um lugar e ganha no outro, com públicos diferentes, passando por um processo puramente de americanização”, ressalta o crítico musical Leonardo Lichote. 

Entretanto, o crescimento dos cidadãos latinos nos Estados Unidos e, consequentemente, da cultura latina no país, facilita a inserção dos cantores sul-americanos. Esse cenário diferencia-se da situação dos cantores de K-pop, já que, historicamente, eles foram condicionados a se encaixarem nas “normas norte-americanas”. “Os cantores de K-pop já são estruturados para serem globais desde do dia um. Então tem refrões e partes da música em inglês, alternação entre coreano e inglês e, por isso, nesse caso, eu considero que houve americanização”, assegura o jornalista Leão. 

Isso evidencia o por quê das apresentações de grupos como BTS e Blackpink terem uma superprodução coreografada devido à certa americanização por se assemelharem às performances de artistas norte-americanos. Assim, verifica-se que a produção coreana é mais americanizada que a latina.  

Apresentação da música "We Are One" na abertura da Copa do Mundo de 2014
Apresentação de abertura da Copa do Mundo de 2014

História desse processo 

Ao longo dos anos, os Estados Unidos têm sido o palco principal do cenário musical internacional, desenvolvendo estilos únicos, dando predominância apenas ao inglês. Entretanto, isso não foi um fator que impedisse outras línguas e continentes de adentrar nesse mercado tão popular.

Entre as décadas de 1930 a 1950, surge um dos maiores fenômenos do cinema e da música, seu nome, Carmen Miranda, artista luso-brasileira, ficou conhecida pelas suas roupas coloridas, flores e frutas na cabeça e sua sensualidade. Dentre seus maiores hits estão o clássico Chica chica boom Chic, Mamãe eu quero, famosa marcha de carnaval e Tico-Tico no Fubá, foi uma dentre poucos artistas falantes de português a estourar no território americano.

Já na década de 1960, outro fenômeno surge, Garota de Ipanema de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. A canção é lançada e em 64, no álbum Getz/Gilberto, a música é introduzida no inglês, com participação de Jobim, João Gilberto, Stan Getz e Astrud Gilberto. No ano seguinte concorreram ao Grammy, dentre uma das categorias, estava a de artista revelação. Eles concorriam com ninguém mais ninguém menos que os Beatles, que levaram o prêmio naquela noite. 

Mas apenas no fim dos anos 1980 para o início do 1990, as músicas latino-hispânicas começaram a bombar, artistas como Ricky Martin, Shakira e Jennifer Lopez eram os principais no ramo. Tal fator seria decorrente do crescimento da população hispanohablante, que transformou essas músicas em um mercado lucrativo dentro dos EUA, fazendo com que chegassem às principais gravadoras, virando uma febre mundial.

Hoje, a música latina e sul-coreana dominam as paradas, artistas como Bad Bunny e J Balvin dominam as headlines de grandes eventos musicais como o Coachella, feito nunca visto antes. Grupos e cantores de k-pop não fogem também, devido ao grande investimento do governo da Coréia do Sul, esses garotos e garotas conquistaram o coração e os ouvidos de várias pessoas no mundo.

Colaborações entre os artistas 

O feat, abreviação da palavra em inglês featuring, é muito conhecido por ocorrer em músicas e clipes, com o intuito de indicar a participação de outro artista na música, como uma parceria. Tais colaborações já aparecem no mercado da música há muito tempo, sendo em um projeto de marca, um remix, ou até para alavancar a carreira de algum artista, se juntando com outro e lançando uma canção em conjunto, que pela influência dos dois músicos, deve ser bem sucedida. 

É claro que por existirem grandes artistas nortes americanos, seus feats com outros cantores costumam fazer sucesso, e muitos artistas brasileiros já fizeram feats internacionais, como a Anitta na música Onda Diferente, que além de contar com a cantora Ludmilla, também teve Snoop Dogg, apresentando uma colaboração de artistas brasileiras com um estadunidense. Ou até mesmo na música tema da Copa do Mundo de 2014, We are one, onde Claudia Leitte, Jennifer Lopez e Pitbull, se juntaram e fizeram esse hit, mostrando que um feat entre uma artista brasileira, uma porto riquenha e um artista norte americano, pode ser um sucesso. 

Colaborações essas, que de acordo com o jornalista Braulio Lorentz, conseguem levar a cultura de um lugar ao outro, onde a música, tendo mais diversidade, unindo os públicos independente do país que estejam. Então não importa se o feat seja entre dois artistas do mesmo país, ou de países diferentes, ele junta diversos públicos e abre espaço para culturas distintas que agregam, musicalmente, no mundo todo.