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Cultura Entretenimento

O mundo nerd se rende à representatividade?

A cultura nerd tem evoluído e abraçando diversas causas sociais, como a representação da diversidade. Seja nos quadrinhos, nas telonas ou games, essa tendência representativa tem tido muita importância social

Por Matheus Sartori, Lorena Simão, Laura Bastos, Nathalia Molinari e Luisa Polidori

“Essas histórias têm espaço para todos, independente de seu gênero, cor de pele e religião. As únicas coisas que não temos espaço são o ódio, a intolerância e o preconceito. Aquele homem ao seu lado é seu irmão. Aquela mulher, sua irmã.” Essa foi uma das falas mais marcantes e importantes de Stan Lee (1947-2017), pai de heróis como o Homem-Aranha, Hulk e Homem de Ferro. Sua fala ressalta a pluralidade que essas histórias possuem e seria o suficiente para justificar Homem-Aranha Através do Aranhaverso, em cartaz nos cinemas e cujo protagonista Miles Morales é negro.

Mais do que nunca, as produções audiovisuais têm se engajado em causas representativas como a da comunidade LGBTQIAPN+, negra, latina e outras minorias. Diversas histórias e personagens de super-heróis que se enquadram nessas comunidades, bastando lembrar de Jon Kent e América Chavez. Mas para entender toda essa evolução e tendência, deve-se retornar aos primeiros passos do nerd: os quadrinhos.

Os primórdios e as primeiras manifestações

Os quadrinhos tiveram sua primeira tiragem na virada do século 19 para o 20, porém começaram a se popularizar algumas décadas depois, principalmente com a DC e Marvel Comics. Contudo, as manifestações eram mínimas por conta da CMAA (Comics Magazine Association of America), associação que regulava os conteúdos das histórias, fazendo com que certas mensagens, personagens ou até histórias fossem completamente descartadas. Isso se dava porque qualquer espécie de manifestação política ou ideológica era considerada uma ameaça ao público jovem.

Com o avanço do tempo, a CMAA perdeu força e personagens representativos das minorias começaram a aparecer como Luke Cage, o primeiro protagonista negro em uma história da Marvel, em 1972.  Já em 1992, foi a vez de Estrela Polar, primeiro personagem assumidamente gay do universo de super-heróis da Marvel. Isso sem contar os personagens existentes que também foram repaginados.

“De uns tempos pra cá, em virtude dessa representatividade, muitos personagens que você conhecia como héteros, passaram a ser: bi, pan, trans como Robin, Lanterna Verde, Angela” disse Laerte J C Junior, vendedor e entusiasta de quadrinhos da loja Comix Book Shop, e ainda completou “só acho que (a popularização desses personagens) seria mais positiva se os quadrinhos tivessem preços mais acessíveis”.

O embate entre popular X independente

Em entrevista com Nobu Chinen, um grande pesquisador, autor e co-autor de quadrinhos, discutimos sobre a cultura nerd no geral. A percepção que Nobu tem sobre os quadrinhos é que é algo geracional, ele comenta: “Pessoas da minha geração tinham os quadrinhos como a mais acessível forma de entretenimento. Não existiam videogames, nem celulares e a programação infantil na TV era bem limitada. Dessa forma, ler gibis era uma diversão barata e extremamente popular. Hoje, revistas em quadrinhos, com algumas exceções, não são um produto de consumo de massa. Viraram artigos caros, vendidos em livrarias.” Antigamente na década de 1970/80 as tiragens mensais das revistas da Disney eram de 200 a 400 mil. 

O pesquisador afirma que desde a manifestação estética e até mesmo como expressão artística, os quadrinhos sempre foram inovadores, mas em relação aos dias atuais comenta: “Agora em termos de qualidade é que houve uma significativa evolução, relacionada a questões de gênero, raciais ou narrativas de cunho mais intimista. Isso se tornou possível, em parte, graças à produção independente.” 

Nobu Chinen lembra que as histórias contadas no cinema não seguem, necessariamente, a cronologia dos quadrinhos. Se alguém vai assistir a um filme do Batman, que segue uma construção histórica, pode se decepcionar ao não encontrar nos gibis uma certa afinidade com o que viu na telona. “E quem lê e acompanha os gibis desde sempre também pode se incomodar com uma série de ‘liberdades’ que os produtores e diretores tomam em suas adaptações. Sem dúvida, os filmes deram visibilidade aos personagens, mas isso não se refletiu no aumento do número de leitores.”

A recepção do público associada à representatividade que vem sendo apresentada nos personagens contemporâneos é positiva: “É muito importante que as pessoas se vejam representadas em todas as mídias possíveis, inclusive, nos quadrinhos”, acrescenta Nobu.

De uns tempos para cá, as produções têm aumentado em histórias de quadrinhos com temas ligados às questões femininas/feministas, à cultura e à história negra, às pessoas LGTBQIA+ e outras “minorias”, Nobu relata. “Antigamente, os quadrinhos não costumavam abordar temas como o racismo. Hoje, existem muitas produções que tratam desse tema, como a excelente Jeremias Pele, do Jefferson Costa e do Rafael Calça, uma das graphic novels dos Estúdios Mauricio de Sousa.”

Com a representação nos quadrinhos há maior produção de títulos com determinados temas, é porque há mais leitores propensos a consumir esses itens, mais abertos a ler sobre esses temas “Claro que quanto mais gibis falarem de certos assuntos e mais pessoas conhecerem a respeito, maiores as probabilidades de que a mentalidade das pessoas, de modo geral, seja influenciada, mas seria pretensão demais achar que os quadrinhos têm esse poder de mudar a visão de mundo de uma sociedade.”

Um dos exemplos citados pelo especialista é dos quadrinhos considerados transgressores como os do movimento underground na década de 1960 nos Estados Undios, que tratavam de drogas e sexo, foi notória a influência, mas mesmo assim ele afirma que não foram somente os quadrinhos que criaram tais mudanças.

As expectativas para o futuro da cultura nerd se baseiam em distinguir entre a produção independente e a mídia de massa. “A primeira, por não estar comprometida com os objetivos de mercado, pode ousar e tratar de determinados assuntos, inclusive sobre diversidade e inclusão, com mais autonomia. Seu alcance, porém, é restrito. Já para as grandes corporações de entretenimento, o objetivo sempre é o lucro”, arremata Nobu. 

Audiovisual e a evolução do mundo nerd

Os quadrinhos saíram do papel e se expandiram no audiovisual na década de 1990, e a partir desse momento foram se tornando cada vez mais populares, com as histórias vindo para a telona, a evolução também veio, dando espaço cada vez mais para a representatividade de todas as maneiras. 

A jornalista Bruna Nóbrega, que trabalha no meio do entretenimento, vê um aumento da representatividade nas produções audiovisuais e não só em filmes dedicados a esse tópico. E ressalta que, de forma geral, elas têm uma abordagem cada vez mais natural.

Nos últimos tempos com o grande aumento de personagens negros, latinos, asiáticos e LGBTQIAPN+ em filmes e séries do mundo nerd, é possível ver uma parte dos fãs se sentido representados nesse mundo. “Tem um público muito grande que nunca se viu representado que hoje em dia se ve, e isso é muito importante”, diz Bruna.

Por outro lado alguns ainda se revoltam por essas mudanças, exemplo disso é o último live action da Disney, onde a protagonista de A Pequena Sereia é negra. Foi o que bastou para surgir o movimento racista de “no my Ariel” (“não era minha Ariel”). “Isso é complicado, mas acho que vem de um preconceito interno, e aos poucos isso ainda vai diminuir e não ter nenhum impacto. são coisas de gerações antigas que eu acho que a gente vai conseguir superar”, diz Bruna.

A importância de trazer essa visibilidade está nos detalhes, o quão benéfico é que as pessoas se sintam parte de algo tão grande, o mundo nerd. “Muitas pessoas dentro do universo geek, nunca se sentiram dentro do universo geek, porque não se sentiam representadas ali, ou porque estavam dentro de um grupo que não as aceitava, e quando chega uma produção que vai trazer essa representatividade, as coisas mudam”, conta a jornalista. 

Ouça a opinião de coletivos sobre a representatividade no mundo nerd:

Os preconceitos dentro do mundo nerd

Além dos casos de mudança de personagens, visando essa representatividade, personagens criados do zero também sofrem preconceito descabido. Um exemplo recente foi a criação dos personagens Rey e Finn para a franquia numerada de Star Wars. Daisy Ridley, a intérprete de Rey, foi vítima de ataques por simplesmente ser uma mulher protagonista, e John Boyega o mesmo, porém por ser um negro protagonizando Star Wars.

O alarde foi tão grande que um grupo de fãs promoveu um hashtag no Twitter chamada: “#BoycottStarWarsVII”. Na campanha, alguns alegavam que o filme promoveu um “marxismo cultural” e um “genocídio branco”, tudo por conta dessas criação de personagens, e escolha de atores. Isso só reforça uma sensação de ameaça de parte da comunidade por conta de liberdades criativas que visam minorias. Isso acaba classificando-as como algo destrutivo para os produtos que consomem e a cultura nerd como um todo.

O real que inspira no fictício 

Ver produções audiovisuais com personagens para que as pessoas possam se espelhar e inspirar é fundamental. E os resultados são, literalmente, virais. O gesto de mãos cruzadas de Pantera Negra foi reproduzido diversas vezes durante o movimento Black Lives Matter, estabelecendo-se como um dos grandes símbolos da luta. O mesmo pode ser dito do beijo de Wiccano e Hulking, que sofreu tentativa de censura por Marcelo Crivella na Bienal do Livro em 2019. Acontecimentos como esse reforçam o poder dessas histórias sobre as pessoas, motivando-as a continuar na luta. Dessa forma, a cultura nerd caminha para a representação igualitária de todos, comprovando a fala de Stan Lee, de que essas histórias são para todos.