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O voo dos “Morcegos Negros”: 17 anos perseguindo a verdade

O jornalista Lucas Figueiredo narra a relação entre o Esquema PC, a Máfia Italiana e o narcotráfico internacional

Por Giulia Peruzzo, Giuliana Lima Miranda, Gustavo Rosmaninho e Sofia Faltz

A busca pela verdade tem muitos preços a serem pagos. Para mostrar ao Brasil a enigmática história sobre o caso PC Farias, ex-tesoureiro da campanha que elegeu Fernando Collor, o jornalista Lucas Figueiredo perseguiu e foi perseguido por fatos que giram em torno de sua morte e da sua namorada, Suzana Marcolino. Em Morcegos Negros, ele reúne as informações que conduzem o leitor a um desfecho, ou, pelo menos, permite que chegue a suas próprias conclusões.

O modo que o jornalista decide fazer isso é um tanto quanto curioso. Se estivéssemos vendo um filme, assistiríamos a múltiplos flashbacks e flashforwards intercalados a uma única cena: os corpos sem vida de Paulo César Farias e Suzana Marcolino na casa do empresário, na praia de Guaxuma, em Maceió. As idas e vindas no tempo parecem ter como objetivo responder a seguinte pergunta: quais os acontecimentos que levaram a essas duas mortes?

Em mais de 400 páginas, Morcegos negros: PC Farias, Collor, máfias e a história que o Brasil não conheceu (título original) revela uma apuração aguçada de Figueiredo. Ela pode até aparentar produzir um excesso de informação e a escolha estrutural da narrativa não ajuda. Na verdade, ela é atordoante. O amontoado de nomes, datas, lugares ou informações – como o número do passaporte de um personagem – faz com que seja muito fácil se perder nessa intrincada história de polícia e política que tomou conta do Brasil nos anos 1990.

Mas como organizar 17 anos de pesquisa densa em um único livro? O jornalista dá o nome ao que diz respeito à robustez de conteúdo e jornalismo investigativo. Isso é crucial para que o leitor adquira propriedade sobre o assunto e desenvolva autonomia de pensamento sobre o caso, que é o que faltou na cobertura noticiosa da época – tão repleta de conteúdos, mas muitas vezes deixando o leitor à deriva dos fatos.

Um olhar mais aguçado em Morcegos Negros consegue perceber que a narrativa escolhida pelo autor possui um viés ao que diz respeito a esse desfecho. Seria impossível não ter um, ainda mais depois de tantos anos envolvido profundamente nas investigações e desdobramentos desse caso. Cabe ao público comprar ou não a versão colocada por Lucas. E isso, leitor, você só saberá ao ler o livro.

Caberá ao leitor também escolher qual edição de Morcegos Negros preferirá ler. A primeira edição, lançada em 2000, tem algumas diferenças quanto à mais nova, revisada e lançada em 2013, pela Editora Record. Essa última conta com um envolvimento maior do jornalista como um personagem de sua própria narrativa, incluindo um posfácio que poderia muito bem ser uma cena pós-créditos, caso se tratasse de um filme. É também um respiro para Lucas, que se mostra aliviado em encerrar esse capítulo de sua vida: “Percebo que, do ponto de vista pessoal, também preciso botar um ponto final nesta história”.

Morcegos Negros. De Lucas Figueiredo. Record, 2013, 420 págs., 28 reais.