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Como estão as moradias populares de SP?

Conheça algumas das moradias populares do estado de São Paulo, passando pelas ocupações, como Anita Garibaldi, e movimentos sociais, MTST, MSTC, além dos conjuntos habitacionais da zona leste de São Paulo

Por Amanda Guerra, Enzo Fiori, Guilherme Pitta, Júlia Josefick, Marcela Cavirro, Nathalia Zanatta, Rafaela Zampolli

Atualmente, São Paulo tem enfrentado uma nova crise habitacional, entretanto, ela pode ser amenizada com a criação de moradias populares e ocupações regularizadas ao longo do tempo. Ainda existem cerca de cinco milhões de ocupações irregulares no país. A Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo) está localizada na zona leste de São Paulo, e é caracterizada como um conjunto habitacional. Ademais, a comunidade Anita Garibaldi é uma ocupação guarulhense, que abriga mais de mais de 15 mil moradores. Foram entrevistados moradores de cada uma dessas regiões, a fim de entender a situação atual de cada uma delas.

Cohab I

Vista de prédios da COHAB Padre Manuel da Nóbrega no distrito de Artur Alvim em São Paulo SP.  – wikimedia – Elrapha

O Conjunto Habitacional localizado em Artur Alvim, bairro da cidade de São Paulo, foi construído na década de 1970 e abriga várias famílias de baixa renda até hoje. 

O poder público constrói a moradia popular e vende por um preço acessível para o trabalhador. Porém, no caso da COHAB I, as obras foram entregues inacabadas. 

“Eles entregaram muito cru”, segundo Anderson de Melo, 48 anos de idade, que morou por cerca de 35 anos na COHAB I.

No início não se tinha a infraestrutura necessária para se ter lazer e segurança. Então, os moradores se mobilizaram e juntaram recursos, construíram parquinhos para as crianças, muros, asfaltaram os estacionamentos, colocaram porteiros em alguns prédios, interfone, etc.

“No decorrer do tempo o poder público foi asfaltando as ruas, fizeram escolas, colocaram posto de saúde, mas na moradia em si eles não ajudaram em nada. Assim, a murar, asfaltar, a colocar pavimento decente no prédio pra fazer um estacionamento, isso aí não teve.”, afirmou Anderson.

Questionado sobre a segurança da COHAB de Artur Alvim, Anderson contou que, antigamente, era um ambiente perigoso, ocorriam inúmeros assaltos e assassinatos: “Você via as vezes corpo no chão, nas esquinas!”. Mas, com a instalação de um batalhão da polícia militar e o estabelecimento de uma ordem paralela, a de uma facção criminosa, a segurança melhorou. “Então, hoje em dia tem uma certa regra, que chegou uma facção criminosa, que impõe respeito no lugar. Ainda existem, sim, assaltos, até mesmo a mão armada, mas são pessoas de fora que entram na COHAB para roubar. Porque se os caras ‘pegar’ (a facção) moradores da COHAB assaltando lá dentro, está ferrado, porque tem um poder paralelo.”

Atualmente, ele descreve a COHAB I como sendo uma grande família, um condomínio sem porteiras, onde todos se conhecem. E ressalta a melhora na infraestrutura, que possibilitou uma melhor qualidade de vida aos moradores.

Agora, existe uma estrutura completa com fácil acesso ao metrô, mercados, padarias, farmácias, bem como praças, onde as pessoas se reúnem e até mesmo assistem a shows, às vezes. No entanto, Anderson acredita que a segurança poderia ser reforçada e destaca um local que precisa de monitoramento dentro da COHAB: “Quando construíram o estádio do corinthians, o governo fez uma passarela de vidro que hoje em dia está abandonada e virou caminho de fuga de bandido. É uma área muito perigosa.”, finaliza.

Cohab II

O Conjunto Habitacional José Bonifácio é uma moradia popular construída para os imigrantes brasileiros da cidade de São Paulo em busca de melhorar sua condição de vida. O bairro não foi planejado para nada além da moradia, faltava comércio, luz, transporte público. A segurança ficou por conta dos moradores, que precisaram construir muros e portões nas casas.

Os problemas atuais não são diferentes. A criminalidade continua sendo um problema para os moradores, Thiago Oliveira teve seu comércio prejudicado: “Tinha uma banca de jornal na frente do meu bar que era ponto estratégico para venda de droga e os clientes percebiam. A maioria deles parou de frequentar pelo medo de acontecer alguma coisa.” 

Apesar da criminalidade, Edson Queen acredita que a subprefeitura de Itaquera está atuando positivamente: “eles têm realizado a manutenção de vias públicas e promovido benfeitorias em praças e parques para o bem estar dos moradores.” 

A melhora do comércio partiu também dos próprios moradores, que utilizaram as garagens dos prédios para crescer na vida. Barbearias, açougues, padarias, bares, lanchonetes, estúdios de tatuagens e salões de beleza transformaram o COHAB em uma vizinhança mais completa. 

O COHAB II tem se modernizado com duas estações próximas, a estação José Bonifácio e a Estação Dom Bosco – ambas da Linha-11 Coral da CPTM. A linha é de extrema importância para os moradores de José Bonifácio. Não há mais necessidade de pegar um ônibus até o Shopping Metrô Itaquera.  

Em petições, algumas pessoas do bairro pedem a criação da Subprefeitura José Bonifácio com a justificativa que o bairro tem mais população que a maioria das cidades, chegando a ter 250 mil habitantes. Essa seria uma saída para o bairro ter mais verba e a atenção devida para uma população tão grande.

Anita Garibaldi

Em um espaço de mais de 250 mil metros quadrados que servia para criar “grilos e baratas”, viu-se uma oportunidade de abrigar as pessoas que não tinham onde morar. A comunidade Anita Garibaldi fica em Guarulhos, e é fruto de um esforço coletivo, um processo que levou 15 anos para ser ganho, dividido em três instâncias. “Abrimos as ruas na mão”, comenta Élvis Vieira, um dos moradores mais antigos da ocupação.

Élvis, de costas para primeira rua construída no bairro: “19 de maio” Foto: Rafaela Zampolli

Hoje, Anita Garibaldi tem rede de esgoto e mais de 15 mil moradores. Todos os habitantes pagam mensalidades à imobiliária contratada pelo dono do terreno.

As ruas da região têm nomes emblemáticos, vindos da história deste mesmo lugar. A primeira delas, 19 de maio, remete à data em que o processo foi ganho, quando as pessoas puderem se manter sem maiores problemas jurídicos. Che Guevara, Zumbi dos Palmares, Antônio Conselheiro e Carlos Marighella são exemplos de personagens exaltados pelos moradores da região e que viraram ruas.

Vista para a represa localizada ao lado da comunidade. Foto: Rafaela Zampolli

A localização afastada do centro traz, também, um afastamento político: não existem medidas notáveis para o desenvolvimento da região. “Eleições são uma coisa muito complexa, o que os candidatos gostam? Voto. Eles conquistam votos, muitos são eleitos, só que depois viram as costas para a população. Mas o errado, pra mim, somos nós. Às vezes nós votamos no cara que em quatro anos não fez nada, aí nós vamos lá e reelegemos o mesmo cara.” relembra Élvis.

“2024 nós vamos lançar um candidato aqui do bairro!” “Porque só votamos em caras de fora. Essas pessoas não representam a gente. Elas ganham e somem.”, finaliza o entrevistado.

Antiga moradora da comunidade, cuja ocupação é recolher recicláveis. Foto: Rafaela Zampolli

Apesar da comunidade ser majoritariamente evangélica, é rotineiro para a única igreja católica da região receber e separar doações aos sábados. A missa acontece no domingo e o povo tem oportunidade de fazer catequese.

Igrejas de descendência peruana e boliviana também se encontram instaladas em algumas ruas da ocupação. Existem cinco escolas na região, onde a mais relevante delas, o “Batuíra”, foi um centro espírita que concedeu seu espaço para criação da mesma. 

MSTC

A ativista Carmen Silva – líder do movimento MSTC (movimento sem teto do centro). atua na mobilização e organização de famílias sem teto que estão na luta por uma moradia digna. O movimento luta para que o direito constitucional ao acesso à moradia seja cumprido pelo estado, realocando a habitação das Metrópoles Brasileiras.

Para se manter em pé, o MSTC realiza a promoção de debates, atividades culturais, educacionais, esportivas, resistência e empoderamento social. Hoje em dia o projeto conta com 10 prédios ocupados em São Paulo, por trabalhadores de baixa renda, crianças, jovens, adultos e idosos – incluindo refugiados e imigrantes, tudo isso feito graças a supervisão de Carmen Silva, que promove ocupações e ressalta a necessidade delas. 

A Ocupação 9 de Julho (recuperada pelo MSTC em 2016 e contava com 124 famílias em 2019) luta pela moradia na capital paulista, que conta com estrutura de segurança contra incêndios, ligações elétricas, coleta de lixo e esgoto, ou seja, enseja condições básicas de saúde e moradia a quem reside na ocupação. 

Ao ser questionada sobre quais recursos o próximo governo pode prover para ajudar o MSTC, Carmen diz que vem apresentando há um tempo como conduz o MSTC para o mundo e está levando à prefeitura de São Paulo uma proposta de uma parceria público-privado-popular, onde a gestão, educação, saúde e cultura, o trabalho e o uso dos imóveis vazios, fiquem por conta do MSTC, tal como reformas e melhorias, juntamente com a Política Pública ATISE – Assessoria Técnica de Interesse Social. 

Arquitetos recém formados dão forma aos projetos da ocupação. Portanto, Carmen afirma que não quer nada novo do governo, apenas o movimento se propondo a fazer a gestão com os próprios moradores. E ainda conclui com a seguinte frase: “ Se o governo utilizasse mais a participação popular, “nós já estaríamos ó… muito ‘aquém’ de desenvolvimento”.

MTST

A necessidade da população de baixa renda, mais afetada pela falta de moradia no país, em possuir uma habitação, justifica o número de ocupações irregulares. A Constituição de 1988 define que o Estado tem como dever garantir o direito a moradias (Art. 5º e Art. 23º), mas a construção de moradias qualificadas não ocorre como deveria.            

Na intenção de fornecer habitações adequadas aos trabalhadores de baixa renda, foi fundado o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, em 1997. O MTST ganhou destaque nos últimos anos com a candidatura do seu coordenador Guilherme Boulos. 

O principal objetivo do movimento social é chamar atenção do Estado para a falta de moradia e reivindicação de direitos, lutando para que trabalhadores que recebem salário mínimo realizem o sonho de conquistar sua casa própria. 

A organização dos trabalhadores ocupam imóveis irregulares para que as autoridades sofram a pressão de desapropriá-los. O MTST também atua em outras questões sociais, como combate à fome.  

Em 2003, um terreno vazio da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP) foi ocupado por integrantes do MTST. Os ocupantes foram barrados pela polícia, que estava armada e acompanhada de cães e cavalos para forçar a desocupação, e saíram de forma pacífica para evitar um massacre. O evento repercutiu por ser propriedade da empresa de carros e gerou críticas ao movimento, intensificando o pensamento de que os trabalhadores sem teto são invasores. 

Escute também nosso podcast sobre MTSC entrevistando a Carmen Silva e acompanhe outros conteúdos nas redes sociais (@factual900).