Garota posa vestida com um vestido que faz alusão a uma sacola de lixo.
Cultura Moda

Moda lixo e a bolsa-saco de 10 mil reais

A popularização do estilo tem servido de combustível para discussões sobre arte e consciência de classe

Por: Alexandre Slivestre, Francisco Stefanelli, Lilian Santos e Pedro Penteado

O trashion, moda lixo na tradução literal, é um movimento que apresenta itens de vestuários e acessórios com o aspecto destruído, como se a estética “gastada” fosse o seu principal atributo. A marca de luxo Balenciaga despertou sentimentos conflitantes com suas peças que vão de tênis “sujos” a bolsas que imitam sacos de lixo.

A designer de moda Bia Nardini postou um vídeo em sua rede social no qual compartilha sua interpretação acerca do desfile da Balenciaga que levou uma dessas bolsas-saco-de-lixo à passarela. No vídeo, a fashionista relaciona duas das peças, a tal bolsa e uma roupa feita de toalha, com a situação dos refugiados ao redor do mundo. Demna Gvasalia, diretor criativo da marca, é um ex-refugiado da Geórgia, o que a fez pensar que aquilo seja, acima de tudo, uma crítica social. “A questão por trás desses signos é falar da pessoa que da noite para o dia teve de fugir do seu país de origem, então ela vai se enrolar numa toalha, jogar seus pertences em um saco e sair às pressas”, afirma Nardini.

Em seu vídeo, a designer inclusive mencionou o urinol de Marcel Duchamp, uma obra artística dadaísta chamada “A Fonte”, de 1917. Nesta obra, Duchamp utilizou um mictório de porcelana para o propósito artístico e isso, na época, gerou discussões que permeiam nossas rodas de conversa até hoje, como “o que é arte?” ou “para que serve a arte?”, e se posicionou na história como uma oposição radical, uma anti-arte, de todo modo, anárquico e provocador, assim como, para uns, a arte deve ser.

Mas a Balenciaga é anarquista?

Esse questionamento foi retórico e usado aqui como um link para desenvolver outro lado dessa história: a discussão de classe. Afinal, poderia uma marca de luxo ser anárquica? A comunicadora e especialista em moda Flávia Sennes Dias defende que essa teoria, quando trazida para a argumentação de classes sociais, merece ser olhada com uma lente mais grossa e um tanto mais realista. “É comum atrelarem moda à futilidade, mas a moda é arte, cultura, política, expressão. É uma forma de se relacionar com o mundo. Então, a partir dela, é possível também analisar recortes de classe”, explica Dias à FACTUAL900.

A história da Balenciaga é marcada por idas e vindas e a identidade da marca como conhecemos hoje é bem diferente do que há alguns anos. No passado, podia-se esperar vestidos com grandes volumes de tecidos, algo elegante, mas que beirava o extravagante. Já a estética que vemos hoje é algo mais street wear. “A Balenciaga hoje tem uma estética intrinsecamente ligada ao Kanye West enquanto designer de moda e artista no geral”, explica Dias. Kanye West, por sua vez, tem feito um expressivo trabalho na história da moda com referências que ele traz do final dos anos 1980 e início dos anos 1990.

Flavia Dias compara a “moda trash” com a história do conto de fadas “A Roupa Nova do Imperador”, no qual vigaristas se passando por alfaiates fingem que costuram uma roupa ao rei, e dizem que só os inteligentes conseguem vê-la. A comunicadora se pergunta o que impede a elite na primeira fileira do desfile questionar o que vê. “Talvez as pessoas pensem que se elas falarem ‘Vocês estão de brincadeira? Isso é literalmente um saco de lixo’ elas vão ser vistas como ignorantes, e assim a tendência vai se espalhando, sem a elite perceber que aquilo é uma crítica a ela mesma”, compara.

Quem está rindo de quem?

Um dos itens que a Balenciaga também comercializa é a “Bota de Pedreiro”. O calçado que vem com aspecto gasto e manchado de tinta. Uma crítica social? O elemento que barra esse argumento é o preço das peças, afinal, ainda estamos falando do mercado de luxo. “Não é emblemático que esses produtos sejam vendidos por uma quantia de dinheiro que faria toda a diferença na vida do trabalhador que eles imitam?”, questiona Flávia Dias.

A “Bota de Pedreiro” vem sendo tópico de debate (Reprodução: Instagram)

Outras marcas de luxo também se valem dessa estética. A Bottega Veneta ficou em evidência quando influencers de luxo passaram a compartilhar uma bolsa da marca feita de toalha. Não é incomum o questionamento do rico querer se “fantasiar” de pobre em situações específicas, mas sem perder seus privilégios. Os passeios turísticos que estrangeiros realizam pelas favelas do Rio de Janeiro geram essa mesma discussão há anos. “Consumir algo que tem um valor inacessível, e que é um item claramente passageiro, que não é para ser utilizado muitas vezes ou por muito tempo, transmite ainda mais a ideia de exclusividade, poder e privilégio”, diz Dias.

O movimento punk nos anos 1980 ou até o grunge nos anos 1990 tinha em sua estética o aspecto do destruído. Tênis e jaquetas pichadas, calças rasgadas, tudo isso era parte de uma subcultura. Dizia muito sobre o indivíduo marginalizado que tinha de se reinventar e encontrou na maneira de se vestir, um jeito de se expressar. “Agora, fica muito mais complicado aceitar que o destruído é arte quando esse discurso vem de marcas de luxo que geralmente tem uma produção na qual as trabalhadoras são mulheres mal pagas, e para um consumo final de pessoas que dificilmente tem consciência de classe”, comenta Dias

Tênis ‘detonado’ foi vendido pela Balenciaga por R$10 mil (Reprodução: Instagram)

Tópico: tendência?

Como explica a especialista Flávia Dias, para algo virar tendência, não basta um só motivo, geralmente são vários fatores que se combinam juntos e causam um barulho. Um dos fatores que a comunicadora acredita ter sido muito forte na ascensão desse assunto foi a crise sanitária. “A pandemia teve um efeito muito forte na maneira de muitos mercados pensarem e se comportarem, e na moda não foi diferente. As pessoas estavam presas em casa olhando mais pra si mesmas, para o que vestiam, passaram a querer ver mais propósito nas coisas. Aflorou o lado extravagante da nossa personalidade. E tem também o fato da Gen Z (geração Z) ser mais consciente em relação à sustentabilidade”. Ou seja, “a população mainstream se alimenta do que as grandes marcas colocam no mercado, mas as grandes marcas também se alimentam do que estamos pensando, usando e querendo. É uma relação extremamente simbiótica”, conclui Dias.