Livros para jornalistas

Minha Razão De Viver: Memorias De Um Repórter

Em autobiografia, Samuel Wainer conta a sua versão de como revolucionou o jornalismo brasileiro profissional, uma leitura obrigatória para conhecer os bastidores da imprensa

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Por Bernardo Pegoraro, Fernanda Palhares, Gabriel Valente, Gustavo Canato, João Pedro Cardoso da Silveira, Mell D’Agostini e Yan Vannucchi

1 de Janeiro de 1987

Nascido na Bessarábia (atual Moldávia e Ucrânia) em 1910, foi no Brasil que Samuel Wainer viria a se tornar um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro. Dono de dois grandes meios de comunicação entre os anos 1940 e 1970 (a revista Diretrizes e o jornal Última Hora), o jornalista bom de faro testemunhou os bastidores dos grandes acontecimentos de sua época. Também orbitava o poder no País. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek eram alguns dos seus interlocutores na política.
Em Minha Razão de Viver – Memórias de um Repórter, é o próprio Samuel que narra a sua trajetória no Brasil, iniciada ainda criança no bairro do Bom Retiro em São Paulo. O livro, autobiográfico, transita pelo seu auge como correspondente e dono de jornal até a sua queda na grande imprensa brasileira, quando em 1972 foi obrigado a vender o jornal Última Hora.
Apesar de ser uma autobiografia, Minha Razão de Viver não foi escrito por ele. Wainer deixou cerca de 53 fitas gravadas com suas histórias, que posteriormente seriam datilografadas e editadas pelo jornalista Augusto Nunes. O autor buscou preservar as falas do “profeta”, como Wainer era carinhosamente chamado. A obra é toda em primeira pessoa, dando a entender que o próprio Samuel havia escrito o livro.
Minha Razão de Viver retrata apenas as ideias e sentimentos do jornalista, ou seja, é a visão dele e de mais ninguém. Os outros personagens do livro aparecem a partir dos pensamentos que Wainer tinha de seus interlocutores. Mas essa parcialidade é compensada pelos principais relatos do protagonista, que tem muitas histórias para contar. Entre os exemplos, a sua ilustre presença no julgamento de Nuremberg, a amizade política com Getúlio Vargas e suas histórias no exílio.
Mas nem só de flores foi a vida do autobiografado. Augusto Nunes não deixou de fora os episódios tristes e sórdidos vividos por Wainer, como suas inimizades com Assis Chateaubriand e Carlos Lacerda, os ataques preconceituosos contra sua família e amigos, os obstáculos enfrentados para manter seu legado de pé e sua prisão pela questão de seu local de nascimento.
Samuel Wainer foi acusado de falsidade ideológica, pois teria nascido na Bessarábia e não no Brasil. O fato de ser estrangeiro o proibiria de ser dono de veículos de comunicação. Para se manter firme na imprensa brasileira, o “profeta” se defendeu com unhas e dentes e afirmou ter nascido em São Paulo. Anos mais tarde, foi comprovado que Samuel de fato nasceu no condado de Edineţ, atual Moldávia.
Para aspirantes a jornalistas nos tempos contemporâneos, Minha Razão de Viver oferece muito mais do que histórias e narrativas de um personagem ímpar da imprensa brasileira. Ele mostra detalhes dos verdadeiros bastidores que a profissão propiciará aos grandes jornalistas vivenciarem.

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Minha Razão de Viver. De Samuel Wainer. Planeta, YYYY, 315 págs., 10 reais.