O jogador de Basquerte brasileiro, Marquiunhos, possui uma carreira solidificada no esporte.
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Basquete brasileiro: conheça a carreira de Marquinhos no esporte

Ala do São Paulo, em entrevista exclusiva à FACTUAL900, fala de sua trajetória, iniciada aos 16 anos, e como jogou nos campeonatos europeu e NBA [H3]

Por Nathalia Fruchi, Raphael Miras, Beatriz Castilhone, Lucas Labbate, Mariana Anderson, Enzo David Basseto e Lina Santiago 

Na certidão de batismo, está o seu nome completo: Marcus Vinicius Vieira de Souza teve seu nascimento no Rio de Janeiro. Mas, no mundo do basquete brasileiro, todo mundo conhece ele por “Marquinhos”, ala do São Paulo, vice-campeão da Liga Nacional de Basquete, a NBB. Hoje, com 2 metros 7 centímetros, altura suficiente para ser um pivô, o ala do time paulistano desde cedo se destacou entre os coleguinhas e não tardou para receber um convite para jogar basquete. Habilidoso, atuou até como armador. 

Marquinhos possui em sua galeria, 6 títulos de NBB e 10 indicações ao time do ano. Além disso, o craque representou a seleção brasileira em duas Olimpíadas (2012 e 2016), e tem passagens pela Europa e NBA, onde jogou duas temporadas pelo pelo New Orleans Hornets (2006 a 2008). Nesta entrevista, Marquinhos falou sobre o seu passado  e de como se tornou um jogador profissional de basquete. E comentou qual é a sensação de pisar em quadras da NBA, o templo do esporte no mundo. Confira a entrevista a seguir: 

Factual900 – Como você se interessou pela carreira de basquete?

Marquinhos – Tudo começou espontaneamente, na escola. Eu era um dos alunos mais altos ali e eu ficava sempre jogando bola no recreio, até que o professor de Educação Física falou: “ começando a montar um time de basquete. Você, pela altura, se encaixa lá… Não quer entrar, não?” Ai, comecei a brincar e a jogar interclasses. Meu time sempre ganhava porque era um dos maiores. Fui super bem, e o treinador do Clube Monte Líbano, em São Paulo, me viu jogando e falou “você não quer fazer um teste no clube?”. 

E aí eu fui fazer um teste no clube onde tudo começou. a minha carreira de atleta, posso dizer profissional, porque recebi uma ajuda de custo para  pegar ônibus, voltar para casa, comer alguma coisa. Então, quando você é remunerado acaba se profissionalizando. 

Factual900 – Como a nova geração pode ter uma motivação a mais? E quais são as dificuldades que você enfrentou? Qual mensagem você tem para passar para essa galera da nova geração que tem o sonho de ser atleta?

Marquinhos – É muita força de vontade.  Eu morava na zona leste de São Paulo e o Monte Líbano ficava na zona sul, perto do Ibirapuera. A minha rotina diária era a seguinte: por volta de 6h30 ou 7 horas meu pai me deixava na escola, eu voltava e fazia toda a jornada da escola, saía por volta de 12h15, mais ou menos e já tinha treino 2h30 da tarde, então já era uma coisa muito difícil, porque eu chegava no treino em cima da hora. Eu não desenvolvi a rotina de um dia  para o outro. Me adaptei ao treino depois de um ano fazendo o trajeto, no segundo ano também já estava jogando duas categorias, então era um treino duplo e ficava praticamente a tarde toda já no clube. E aí de vez em quando, de terça e quinta, meu pai dava para buscar só que meu pai saia de Santo André 7, 8 horas da noite e  ia me buscar. Então ficava praticamente o dia todo fora, não era fácil, foi  muita vontade mesmo.

Factual900 – Quais foram as principais dificuldades que encarou no percurso antes de chegar no atleta excepcional que se tornou?

Marquinhos – Esse começo foi muito difícil, mas foi onde peguei gosto. Quando comecei a competir mesmo, foi tudo muito rápido, corrido, e aí depois veio a minha primeira ida para o basquete europeu. Eu tive alguns treinos no Barcelona e na Itália e ficar sozinho foi muito difícil, porque eu tinha 16 pra 17 anos, e meu pai foi lá um tempo comigo, pois conhecer uma outra cultura muito difícil. E a outra parte é a das lesões. Lidar com lesões durante a carreira é muito difícil.

Factual900 – A gente está aqui falando do seu começo do Monte Líbano  e essa transição sua para o profissional. Como que foi um pouquinho da experiência de você sair de um sub-15 sub-20?  E logo em seguida, já subir pro profissional? Como você sentiu essa mudança de categoria?  

Marquinhos – Parece que Deus moldou o Marquinhos para jogar basquete e sabe por quê? Eu era um dos mais altos, o técnico me escolheu eu já no outro ano já estava jogando duas três categorias. Comecei a me destacar. Fui para a Seleção Brasileira de base; dentro da Seleção Brasileira de base e olheiros de outros times da Europa, de faculdades também queriam me contratar. Então tudo aconteceu muito rápido, mas eu treinava muito e mudei de posição muito rápido. Era um cara que tinha ali dois metros e jogava de ala, algumas vezes de armador, onde normalmente os cara da minha altura jogava de pivô. Esse foi sempre um diferencial, essa habilidade de driblar bem a bola, de arremessar, de dominar o jogo em vários aspectos.

Factual900 – Você então treinava em dois três períodos de categoria era mais ou menos isso, não é? 

Marquinhos – Eu treinava demais e ainda tinha 14 para 15 anos. Então jogava duas categorias, algumas vezes era chamado para treinar na categoria de cima. Eu sempre estava tentando aprender o máximo com os jogadores mais velhos, porque isso me impulsionava a aprender mais rápido. E fisicamente suportar o contato com pessoas mais experientes é difícil, então paguei um preço muito grande, que eu acho que ajudou muito na minha carreira.

Factual900 – Como que é para um jogador de basquete fazer o esporte evoluir no Brasil e fazer com que a prática se torne uma potência aqui no país?

Marquinhos – Pelo lado do atleta falando eu escolhi o basquete por amor, foi o que me conquistou. Eu não pensava por esse lado de primeiro, segundo, terceiro esporte no Brasil. Eu queria fazer o melhor e surfar na onda do que estava acontecendo. E no que diz respeito ao que se pode fazer no Brasil, acho que é o que estão fazendo, fomentar o basquete na escola, na categoria de base. É trazer o basquete para todo mundo. Hoje o basquete pode ser assistido na internet, TV, e tudo que é lugar você vê NBA. É isso, esse é o caminho e também acho que o pessoal da LNB (Liga Nacional de Basquete) está fazendo. O campeonato da molecada de poder jogar NBB é muito bom. No treinamento da categoria, me lembro que tinha muitos jogadores bons que ficaram pelo caminho. O meu técnico da época me falou algo que nunca me esqueci: “Agora vocês vão ver realmente quem vai  desistir ou quem tem vontade”. Porque é um funil… chega nessa época, se você não tiver força de vontade, você vai ficar pelo caminho. Então é se dedicar, treinar o máximo que você puder para passar nesse funil.

Factual900 – Qual é a sensação de ser “draftado” pela NBA? Qual é o sentimento de estar pisando na quadra dos americanos?

Marquinhos – É uma sensação única porque, todo o processo para você entrar na NBA, é um processo duro. Eu praticamente passei por esse processo por dois anos, tivemos treinos privados e acabei tirando meu nome do draft que tinha algumas escolhas de segunda rodada, mas achava que poderia ir mais alto. Tanto é que no meu último ano eu tinha algumas opções de ir para Fênix, Dallas. Mas no meu terceiro treino privado em Minnesota, eu acabei quebrando a mão em um treinamento,  e acabei perdendo muitos treinos privados. Mas como já tinha feito um treino com o New Orleans Hornets (atual New Orleans Pelicans), eles já tinham apalavrado dois anos de contrato, e que era o que eu precisava para poder me desenvolver e crescer, conhecer a liga e tal. E eu acabei aceitando. Mas a primeira vez que eu pisei na NBA, olhei para mim mesmo e falei: “Meu Deus, olha aquele moleque lá que foi escolhido pelo professor, hoje ele está aqui. E no primeiro “match up” (confronto individual contra outro jogador) na NBA, foi o Allen Iverson. Eu fiquei tão emocionado, que falei: “Nossa Senhora”. Mas sabe, foi bem legal, porque a gente sabe de toda a luta que é para um estrangeiro chegar na NBA é muito duro e eu consegui isso.

Factual900 –  Você jogou pelo Flamengo em uma época que o clube estava ganhando tudo. Foram seis títulos seguidos no Flamengo. Como foi sair do Flamengo para entrar nesse novo projeto do São Paulo? 

Marquinhos – Envolve muitas coisas. O atleta é movido a novos desafios. Quando eu saí do Flamengo tinha acabado de ser campeão da NBB, Super 8 e PCLA, que são os campeonatos mais importantes, só perdem pro Intercontinental. Então tinha feito um ano incrível. E eu sou são paulino de coração, declarado, então quando tive a proposta, tinha acabado o meu contrato com o Flamengo. E o Flamengo tinha algumas ideias na cabeça e essas ideias não batiam muito com a minha. Quando recebi a proposta do São Paulo, não pensei duas vezes, porque era um desafio novo, um time que estava crescendo e continua crescendo. Então foi legal demais e não me arrependo dessa escolha.

Factual900 – Bom, a gente passou pela Itália, pela NBA, e agora no NBB. Sua carreira é excepcional, você é o jogador que mais vezes entrou no time do ano da NBB, 3 MVPs (melhor jogador da temporada). Qual é a diferença entre a Europa, NBA e o Brasil, quais são as diferenças que você vê?

Marquinhos –  A questão financeira é o principal quesito aí. A NBA é o maior basquete do mundo, recebe 18 mil espectadores toda noite. Na Europa é um basquete muito mais estudado, que valoriza muito mais a posse de bola. O NBA é um basquete muito mais um contra um e o NBB tenta mesclar isso, falando de jogo, entre taticamente e um contra um. Mas a parte financeira é a que mais pesa aí pra nós brasileiros.

Factual900 – Você passou por quase todas as fases do basquete mundial, que seria uma época que quase não existia arremesso de 3. Aí veio a força total no garrafão e agora abriu a linha de 3 pontos, onde temos agora praticamente 40 arremessos por jogo. Como foi essa mudança pra você? Como vê esse novo panorama, essa mudança de jogo?

Marquinhos –  É muito doido mesmo, eu peguei lá no comecinho, onde estava a linha de 3 pontos. E, sim, a dominância física era gritante e aí foi mudando, foi mudando para o que é hoje. Mas o jogo hoje é muito mais bonito, porque abre muito mais a quadra, você consegue ver todo o talento, não fica só naquela parte da força física, antes os cara de dois metros e quinze, dois metros e vinte dominavam e o jogo é mais vistoso, porque trabalha o aspecto tático, é muito mais corrido, também tem força física e para o público é um jogo melhor. E essa parte do basquete de aprimorar arremesso é a mais nova tendência, porque quanto mais você “mete bola” mais difícil é de marcar, abrir mais a quadra também.

Factual900 – Qual é a sua mentalidade depois de perder um título, você que é um cara multicampeão, ganhou tudo pelo Flamengo praticamente, essa derrota contra o Franca (por 3 jogos a 2, playoff finalizado em 10 de junho), qual é a experiência que consegue passar para os mais jovens para lidar com isso?

Marquinhos –  Graças a Deus eu passei por esses momentos (derrotas) poucas vezes na vida. Mas tudo nesse momento é necessário no crescimento de um atleta, porque sem derrota você não tem história para contar, não é verdade? Todo mundo diz que a derrota mostra quem é o atleta no dia seguinte. Então minha resposta é tentar procurar onde errei, onde posso melhorar meu jogo, onde eu possa agregar mais para o time, então essa é a minha motivação. É claro que quando você perde um título, não perde só em um jogo, são vários jogos, é um jogo coletivo. Então, se melhorar sua parte, com certeza o time vai acabar melhorando. 

Factual900 – E como foi a experiência de jogar duas olimpíadas pelo Brasil (2012 em Londres e 2016 no Rio). Como é que foi a sensação de jogar pelo seu país? 

Marquinhos – Eu lembro da minha primeira Olimpíada, em 2012, que entrei no jogo contra a Austrália. Era o primeiro jogo da nossa chave e o estádio ficou cheio. Me lembro que olhava e pensava “caramba, eu tô na Olimpíada, cara, que legal”, caiu a ficha até mais que na NBA de “caramba cara, quanta gente pisou aqui e eu to pisando agora”. E a gente acabou ganhando o jogo. Já na Olimpíada do Rio, era na minha cidade, e eu estava em um momento legal com o Flamengo. Participei de alguns eventos testes ali na arena carioca, fui lá, joguei uma bola, mas no dia que foi nossa estreia, foi mais tranquilo. Foi lindo demais, por se tratar de uma Olimpíada dentro de casa, com o público apoiando. A primeira vitória do Brasil foi naquele “tapinha” meu contra a Espanha e foi lindo demais. Eu tenho até a bola em casa, a bola do jogo deixo em um quadrado de vidro para nunca mais me esquecer.

Factual900 – Você tem 39 anos. Qual é o seu planejamento para os próximos anos? Até onde você pensa em jogar? Já pensou em um futuro fora das quadras? 

Marquinhos – Quando eu estava perto dos 30, coloquei uma coisa na cabeça “preciso” fazer uma faculdade de Educação Física, pra poder me formar e estar dentro do basquete” para ajudar os jovens que vejo, e que precisam muito de uma referência.  Quando você chega aos 16, 17 anos, os jovens estão em fase de formação e eu via que eles acabavam se perdendo muito. Eu falo por experiência, via uma molecada que treinava com a gente, bem juvenil e mal sabiam arremessar, mal sabiam a parte tática, onde eu me encaixo melhor. Então eu queria muito me formar para ter o CREF (Os CREFs têm por finalidade orientar e fiscalizar o exercício da profissão, zelando pela qualidade dos serviços prestados pelos Profissionais de Educação Física) e poder trabalhar na área. Esse ano eu me formei, e quem sabe, eu posso atuar. Quando você fala assim “Pô, tá com 39 anos, tá na hora de parar”, eu sempre coloquei na minha cabeça que meu corpo iria me dizer a hora de parar. Esse ano eu cheguei a pensar muito em parar, porque jogo basquete profissional há 23 anos, parece que não, mas eu comecei cedo, com 16 anos eu já estava jogando a minha primeira partida adulta mesmo, campeonato paulista adulto pelo Corinthians. Dentro disso, eu falei “Cara, quando eu começar a ter várias lesões, que eu não conseguir mais, é a hora de eu parar”. E esse ano eu fiz uma operação no joelho e me recuperei só agora, no final da temporada, porque quando você faz uma cirurgia, até você voltar, ganhar força no joelho, parar de sentir dor e acostumar de novo aquelas pancadas que uma partida de basquete exige, demanda tempo. O Super 8 foi um sacrifício, campeonato mundial foi um difícil, pois havia feito a cirurgia e ainda estava doendo, ainda com incômodo. E fui quase que 100% nos playoffs e, graças a Deus, consegui ajudar o São Paulo a estar brigando pelo título, perdendo contra o líder do campeonato no último jogo. Hoje não penso em parar, acho que consigo jogar mais uns 2 anos, então, essa é a minha meta, estar no tricolor por mais dois anos.

Factual900 – Como é a rotina de um atleta de alto nível como você hoje? O que você faz, treina por  quanto tempo? 

Marquinhos – Na minha rotina normalmente a gente treina, durante a semana, no NBB, e jogamos duas vezes. Quando jogamos em casa, normalmente é de quarta e sexta, quinta e sábado. Então, duas vezes na semana a gente treina dois períodos, que é aquela parte da manhã, com  musculação e, depois, arremesso de quadra e a tarde, parte tática, que é uma hora e meia. A gente não consegue treinar muito porque senão  ficamos muito desgastados para os jogos. Mas na pré temporada a gente treina duplo sempre, na parte da manhã físico e na parte da tarde, tático mas um pouco mais longo.

Factual900 – Como é que o Marquinhos em casa? Você acompanha os jogos da NBA e NBB? Ou você desliga do basquete e curte a família e esquece tudo?

Marquinhos – É um misto de tudo. Eu tento ficar um pouco com a minha esposa, porque ela fica entre Rio e São Paulo boa parte do ano se deslocando por que ela trabalha aqui no Rio. Quando ela está em casa eu tento ver séries, NBA, esportes. Para quem não sabe, eu sou casado com uma ex-nadadora olímpica, Mariana Brochado. E quando estou com as minhas filhas também, minha filha é viciada em basquete, a outra é mais “influencerzinha” com TikTok, então tento mesclar um pouquinho de tudo, com um bom churrasquinho também, eu adoro fazer um churrasquinho, estar com os amigos.

Factual900 – E o que você achou das finais da NBA? Você assistiu aos jogos?

Marquinhos – Eu estava torcendo para ir ao jogo 7, mas a gente sabia da dominância do Denver Nuggets, e que o Miami não ia conseguir parar. Acho que o Boston daria mais jogo, mas que nenhum acabaria ganhando.

Factual900 – E como que você vê o Nikola Jokic? Porque o cara faz de tudo, ele é grande, gigantesco e passa, arremessar de 3, vai pra dentro, é forte, ele é ágil. Por que ele se torna meio que imarcável, não é mesmo?

Marquinhos – Parece que ele foi moldado. Ele tem a altura do Shaquille O’Neal, batendo bola, jogando de costa para a sexta, hoje em dia, como estávamos falando, o basquete mudou muito, então os pivôs são muito mais baixos que ele, quando o cara é mais baixo, ele joga de costas. Quando o cara é maior ele joga de frente, fazendo pick and roll, pick and pop. Ele tem uma leitura que é fora da média e tende a usar muito essa leitura de jogo dele.