Como Lula e Alckmin superaram desavenças para enfrentar Bolsonaro

A oficialização da chapa Lula e Alckmin sela a mais improvável aliança das eleições das últimas décadas, mas a disputa de 2022 não será para amadores

Por Fernanda Aranha, Gabriel Castanho, Gabriel Susini, Luigi Vargas, Maria Carolina Barmakian e Maria Fernanda Pimentel.

Pela primeira vez na Nova República, dois antigos adversários políticos diretos se juntam para formar uma chapa para concorrer à Presidência. Lula e Alckmin representam dois campos antagônicos que nos últimos 30 anos polarizaram a política brasileira. Mas se antes havia PT versus PSDB, o antigo partido do ex-governador de São Paulo, hoje a disputa se deslocou contra uma nova força política, o bolsonarismo.

Para o jornalista político Luís Costa Pinto, a consolidação da chapa Lula e Alckmin tem como principal objetivo construir uma frente ampla para derrotar Jair Bolsonaro (PL). “No caso do Lula, vai buscar quem? Aquele personagem que simbolizava, que sintetizava, a oposição a ele, Geraldo Alckmin, a quem derrotou em 2006, que foi um cacique do PSDB, e vai mostrar que são tão amplos que se aliam, porque o objetivo maior é o país”, comenta. O jornalista lembra que existem setores que são contra essa aliança dentro do PSB, mas que representam uma minoria.

Formalização da chapa Lula-Alckmin – Fotos: Divulgação/Ricardo Stuckert

A oficialização da chapa Lula (PT) e Alckmin (PSB) ocorreu no sábado (7/5) e foi precedida de muita expectativa até a sua confirmação. Antigos desafetos, o ex-presidente e o ex-governador paulista possuem uma longa trajetória política, marcado por diversas divergências. Concorrendo à Presidência pelo PT desde 1989 e sendo eleito em 2002 e 2006, Lula viu o PSDB, antigo partido de Alckmin, como adversário não só político, mas também ideológico, em boa parte de suas candidaturas. E disputou com o próprio Alckmin em 2006 na campanha de sua reeleição.

Eleições 2006, segurança pública, mensalão e Lava-Jato foram alguns dos principais pontos de desavença entre os atuais “companheiros”. Em um debate presidencial de 2006, Lula afirmou que a corrupção apareceu em seu governo porque o mesmo colaborou com a investigação, enquanto os tucanos sempre jogaram a corrupção para debaixo do tapete, incluindo Alckmin. Farpas desse tipo perduraram pelo menos até 2018, quando o ex-tucano criticou duramente a possível influência de Lula, na época preso pela Lava Jato, no possível governo de Fernando Haddad (PT). Alckmin afirmou que cabia à população evitar que corrupção e a “roubalheira” pudessem comandar o País, além de evitar que um preso condenado por corrupção seja solto.

Apesar da consolidação da aliança, as opiniões acerca da união são muito diversas dentro do mundo da política. A velha guarda do PSDB até enxerga uma proximidade com o PT, sobretudo em um passado anterior à era lulista, mas avalia que o ex-presidente deixou-se corromper pelo poder. Ou seja, Alckmin não deveria se associar ao petista, afirmando que as diferenças programáticas podem ser superadas, já as éticas, não. Na ala da esquerda petista, antes da consolidação da chapa, a possibilidade de Lula se juntar com Alckmin era temerária, já que simbolizaria um pacto com o neoliberalismo, representado pelo político do PSB, além de compactuar com alguém que defende privatizações e outras pautas da direita.

Para João Peschanski, professor de ciências políticas da Cásper Líbero, há a necessidade de conciliação, mesmo que entre ex-adversários, para conseguir lidar com a situação frágil de um país como o Brasil. “Na política, as pessoas sempre têm expectativas de estratégias, e em alguns contextos, como o atual, você vai ter que lidar com um país que passou por fraturas, traumas, disputas que levaram a posições muito acirradas, às vezes até extremas. E que tal situação faz com que políticos adversários tenham que se conciliar”. Além disso, João acredita que para os candidatos um bom futuro para o País importa mais que as desavenças antigas entre ambos. “Na ótica desses dois candidatos, eu acho que mais do que pensar o que aconteceu no passado, é que tipo de futuro é possível de construir”, diz o professor.

O professor João Peschanski, da Cásper Líbero, analisa a união entre Lula e Alckmin

Com a chapa formada, Lula e Alckmin agora parecem ter alinhado o discurso, como no evento de lançamento da pré candidatura. Alckmin afirmou que desavenças passadas não impediram a união com Lula e que ambos estão com um só objetivo, defender a democracia. “A democracia é marcada, sim, por disputas. Disputas fazem parte do processo democrático. Mas acima das disputas, algo mais urgente e relevante se impõe: a defesa da própria democracia”, disse Alckmin.

Já Lula adotou um discurso muito parecido, prezando pela defesa da democracia e pela luta contra o ódio: “Queremos unir os democratas de todas as origens e matizes, das mais variadas trajetórias políticas, de todas as classes sociais, de todos os credos religiosos para enfrentar e vencer a ameaça totalitária, o ódio, a violência, a discriminação, a exclusão que pesam sobre o nosso país”, afirmou no dia 7, durante o lançamento da chapa PT-PSB.

Essa improvável e histórica aliança é a prova de que o ano eleitoral de 2022 guarda grandes surpresas, e muito ainda pode acontecer até 02 de outubro, o domingo cujo brasileiros e brasileiras irão às urnas decidir o futuro do país.

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