Imagem de Lula e Bolsonaro no debate da Band, dia 28 de agosto de 2022
Eleições Política

Jovens, mulheres e evangélicos: eles decidirão a corrida eleitoral

A FACTUAL900 conversou com especialistas para entender o que fará diferença nas eleições 2022 e descobriu que a disputa será voto a voto nesses três tipos de eleitorado.
  • Por André Bacha, Diogo Braga, Edgar Marques, Guilherme Agrella, Lucas Lima e Pedro Hernandes

No primeiro debate televisivo e na internet da corrida eleitoral 2022, no domingo (28), a presidenciável Simone Tebet saiu-se vitoriosa, segundo pesquisa Datafolha. O termômetro de comentários nas redes sociais também indicava que a candidata pelo MDB deixou para trás os outros candidatos, a maioria homens. O destaque de uma mulher indica a importância do voto feminino numa disputa que se tenta convencer o eleitor indeciso.

Tebet se destacou por enfrentar o presidente Jair Bolsonaro, que acusou o golpe. Nos dois primeiros blocos, segundo o Datafolha, ele teve o pior desempenho. O episódio em que ele atacou a jornalista Vera Magalhães, da TV Cultura, ganhou repercussão na internet, sendo defendida no programa por Tebet e também pela candidata Soraya Thronicke (União Brasil).

Dessa forma, o destaque das mulheres no debate indica algo que está cada vez mais claro nessa corrida eleitoral. O próximo presidente depende de três tipos de votos: o feminino, o dos evangélicos e os jovens. A FACTUAL900 foi investigar essa fragmentação do eleitorado para entender se e como esses votos farão diferença.

VOTO FEMININO

“O voto feminino não tem um peso nas eleições modernas só no Brasil, mas tanto em países desenvolvidos e em desenvolvimento”, inicia a vereadora e pré-candidata a deputada estadual, Carolina Iara, da bancada feminista do Psol. Ela também aponta que as mulheres estão cada vez mais decidindo os votos e não sendo mais influenciadas pelos homens.

Sobre mulheres de diversas religiões e gêneros, Carolina Iara acredita que o movimento feminista está ajudando elas a terem independência e seus próprios princípios. “Há uma diferença gritante entre os votos de mulheres e homens evangélicos”, acrescenta. De acordo com a candidata, até mesmo as mulheres conservadoras e evangélicas têm se afastado de Bolsonaro. E o motivo, aponta ela para esse movimento, é a presença do “machismo estrutural da extrema direita”.

Assim, para tentar reverter esse cenário, Bolsonaro tem usado muito sua mulher, Michelle, na campanha. A vereadora, no entanto, possui uma certa dúvida sobre essa estratégia: “Vamos ver se ela vai ter a capacidade de convencer o eleitorado feminino”.

A vereadora do Psol assume que o discurso repleto de valores familiares conquista muito eleitorado feminino, porque “a família é fundamental para a mulher”. Mas ressalta que só o moralismo não resolve, é necessário políticas públicas também. “Eu acho que, nessas eleições muito polarizadas, as mulheres evangélicas e negras vão decidir as eleições.”

Em relação ao campo progressista da sociedade, Carolina faz uma crítica. Ela crê que embora haja a necessidade de defender o aborto, essas mulheres que irão definir as eleições possuem outras prioridades. “Os setores progressistas precisam cada vez mais estar próximos dessas pautas, para atrair voto e base social”, diz a vereadora. 

Por fim, Carolina Iara finaliza seu discurso dizendo que esse é o caminho que Lula deve seguir para conquistar as mulheres e obter êxito nesse estratégico público, ganhando vantagem aos demais na corrida eleitoral. Segundo a pesquisa Datafolha de intenção de votos, de 01 de setembro, o ex-presidente petista lidera por 16% a mais, sendo 45% ante 29% do atual presidente. 

Foto1: Reprodução/DataFolha

Foto2: Reprodução/DataFolha

VOTO JOVEM

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a média de jovens eleitores caiu pouco mais de 3 milhões nos últimos 10 anos, totalizando apenas 900 mil aptos para votar. Isso ocorreu muito por conta do voto não obrigatório para jovens de 16 e 17 anos que optam por não tirar o título de eleitor. Mas tudo mudou nessa corrida eleitoral.

Esta eleição terá mais que o dobro de jovens eleitores comparado com a corrida eleitoral de 2018. O número cresceu de 1,4 milhão para 2,1 milhões de jovens aptos a votar. Esse crescimento tem como base diversas campanhas de incentivo da Justiça Eleitoral entre 2021 e 2022, além de diversos artistas que impulsionaram seu público jovem, como a cantora Anitta.

Ao conversar com a FACTUAL900, Thaís Chaves, jornalista, ex-casperiana e gestora pública da Secretaria de Educação de Recife, comemora essa crescente do público jovem. “A gente está vendo esse movimento, porque o momento político que a gente vive é de muita barbárie. Fome, desemprego, pessoas em situação de rua e quase 700.000 mortes de covid no Brasil. Então eles se sentem mais coagidos a se manifestarem politicamente e isso acaba ressoando no público deles”, diz.

Thaís também fala que, no momento, a maioria dos jovens defende causas mais progressistas como a igualdade, diversidade, sustentabilidade e a ciência. Isso se reflete nas intenções de voto desse grupo. 

Além disso, uma pesquisa do PoderData, realizada no fim de março deste ano, mostra que, entre as pessoas de 16 a 24 anos, a intenção de voto no ex-presidente Lula predomina com 51%, ante aos 29% do presidente Jair Bolsonaro. Para Thais, isso ocorre porque as pautas defendidas pelos jovens são “avessas à campanha do atual presidente” e “a cara da campanha de Lula”.

VOTO EVANGÉLICO

A FACTUAL 900 conversou com a pesquisadora de pós-doutorado no programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ Livia Reis, que falou um pouco sobre o voto evangélico. 

“Acho que a gente tem que  desconstruir a ideia de que existe um voto evangélico. Existem pessoas que se definem como evangélicas, mas que têm votado mais recentemente em lideranças que se identificam como cristãs. Os evangélicos não são um grupo homogêneo; são constituídos por muitas vozes distintas”, diz a pesquisadora.

De acordo com Lívia,  o que talvez seja o grande trunfo do atual presidente em relação ao petista para conseguir o voto evangélico são as ideias de defesa dos valores da família tradicional brasileira e o comprometimento com a educação das crianças. 

“Posso dizer que, a partir do que eu observo das minhas pesquisas, as pessoas estão mais preocupadas em melhorar sua vida e também o bem-estar. Acho que qualquer governo que se proponha a melhorar as condições de vida da população mais pobre vai ser naturalmente mais bem aceito no futuro”, analisa Lívia.

Com isso, enxerga-se uma certa vantagem de Lula, que propõe projetos para famílias mais carentes e de menor renda espalhadas pelo Brasil. No entanto, as porcentagens levantadas seguem apontando certo desequilíbrio e Bolsonaro continua com a maioria dos votos deste eleitorado.

Já quando o assunto é a comunidade evangélica, Bolsonaro lidera os números, segundo o Datafolha, com 48% a 32% de Lula, e tem ganhado força nos últimos meses: na comparação a julho, o atual presidente cresceu cinco pontos (de 43% a 48%), na medida em que o petista oscilou um ponto para baixo.

Fotos: Ricardo Stuckert/Carolina Antunes/Montagem.

PESQUISA DATAFOLHA

Pesquisa realizada pelo Datafolha, publicada no dia 01 de setembro, indica que, no 1º turno das eleições, o ex-presidente Lula (PT) aparece com 45% das intenções de voto. Enquanto isso, o atual presidente, Jair Bolsonaro (PL), vem logo atrás com 32%. 

Assim, a disputa à Presidência da República tem aumentado à medida que o calendário se aproxima do mês de outubro. Dessa forma, os candidatos começaram oficialmente suas campanhas eleitorais no dia 16 de agosto e já foi possível observar como a população os enxerga e as tendências que definirão a corrida eleitoral.