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Cidades Comportamento

Imigrantes e refugiados buscam novas oportunidades

Imigrantes vindos da Venezuela, Espanha e do Japão contam à FACTUAL900 os motivos de escolherem o Brasil como seu novo lar

Por Karoliny Gouveia, Lucas Bisquolo, Lucas Jesus e Victória Manfrotti

A venezuelana Suranllelix Del Carme Guanare Santaella é mais um dos casos de imigrantes que vieram ao Brasil buscando uma condição melhor de vida. No País já há três anos, a imigrante conta que a situação econômica da Venezuela foi o estopim que levou a essa drástica mudança. Seu caminho certamente não foi fácil, e seu primeiro momento em terras brasileiras já enfrentou dificuldades.

“Vim de ônibus da Venezuela até a cidade de Boa Vista. Depois de dias de muita dificuldade, nos quais eu inclusive cheguei a dormir na rua, uma instituição religiosa me ajudou para vir para São Paulo. Então, fiquei hospedada durante três meses num abrigo para refugiados chamado ‘Casa Dom Luciano’.”

Mesmo sentindo falta da comida venezuelana e de sua família, Suranllelix afirma que a adaptação em São Paulo foi positiva. No começo, segundo ela, houve uma dificuldade na questão da língua, mas os brasileiros a receberam muito bem, principalmente quando chegou em São Paulo.

A imigrante venezuela conta que seu processo de acolhimento começou em Boa Vista: “Por causa do levantamento da minha documentação e vacinação. Depois disso, no abrigo em São Paulo onde fiquei, tive casa, comida, roupas, auxílio para conseguir emprego e até aulas de português”. 

Oportunidades de trabalho

Ela também explica como conseguiu trabalho após se estabelecer na metrópole paulistana: “A pessoa onde trabalho hoje ajudava nesse abrigo e precisava de uma empregada doméstica. Fiz a entrevista e estou trabalhando há três anos, com registro em carteira e convênio médico”.

Ainda sobre o trabalho, a venezuelana disse que pôde se mudar para uma casa perto do novo trabalho, e que sua patroa ajudou com o aluguel da casa. Fora essa ajuda, também fez uma campanha nas redes sociais, mobilizando uma vaquinha online para mobiliar a casa de sua nova empregada doméstica. 

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Fonte: Elaborado pelo OBMigra a partor dos dados base harmonizada RAIS-CTPS-CAGED e do eSocial 2021

Suranllelix destaca principalmente a mudança de padrão de vida que tinha antes em seu país natal e agora em solo brasileiro: “Minha vida melhorou demais economicamente. Com a ajuda dos meus patrões consegui trazer da Venezuela minha mãe, duas irmãs, meu irmão, cunhado e sobrinho, e agora todos estão trabalhando”, explica ela. “Eu moro atualmente com meu namorado, que também é venezuelano, e ainda recebo apoio do abrigo para refugiados. Sou muito grata por todas as pessoas que me ajudaram e continuam me ajudando.”

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Fonte: Elaborado pelo OBMigra, a partir dos dados do Ministério da Economia, base harmonizada RAIS-CTPS-CAGED e do eSocial, 2021.

Um imigrante europeu

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Manolo praticando futebol, onde joga com os amigos do condomínio todos os sábados de manhã.

Manuel Gonzalez Cuña, apelidado de “Manolo”, é um imigrante vindo da Espanha que mora no Brasil desde 1984, atualmente residindo em um condomínio de casas na rodovia Raposo Tavares, próximo da cidade de Cotia, no estado de São Paulo. 

Como motivo para sua vinda ao Brasil, o espanhol coloca principalmente os negócios que o pai tinha no país tupiniquim.

“Meu pai foi imigrante nos anos 50, e minha mãe ficou lá na Espanha. Ele ficou cinco anos aqui e voltou (para a Espanha). Meu irmão, Tito, nasceu, ficou mais oito anos no Brasil, e eu nasci. Morei na Espanha até meus quinze anos de idade. Aí como meu pai tinha negócios aqui, via mais futuro para eu e meu irmão, então trouxe a gente em 1984.”

Inclusive, Manolo e seu irmão continuaram trabalhando no ramo do pai: “Meu pai, junto com quatro sócios espanhóis, construíram uma rede de motéis. Depois os filhos começaram a trabalhar juntos, e hoje até os netos trabalham na mesma rede.”

Vinda ao Brasil

Em relação a vinda ao Brasil, conta que não queria mudar de país logo de início: “Na hora a gente não queria nem vir né. Estava naquela idade que você começa a sair, tem escola, amigos, mas não teve jeito.” Porém, sua adaptação não foi ruim graças aos sócios espanhóis que também já tinham filhos, criando um tipo de “colônia espanhola”.

Ainda mais, frequentavam o chamado “Clube da Galícia” na cidade de São Paulo, fato que ajudou muito em seu acomodamento no país.

Fora isso, a língua também não foi grande empecilho para se acostumar: “Eu morava numa região chamada Galícia que faz fronteira com Portugal, então tínhamos um idioma, o galego, que é meio um ‘portunhol’. Por isso tenho sotaque até hoje, não tem jeito.” 

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Fonte: Coordenação Geral de Imigração Laboral/Ministério da Justiça e Segurança Pública, Janeiro de 2022.

A recepção dos brasileiros

Quando perguntado sobre a recepção do povo brasileiro, o espanhol afirma que nunca teve nenhum problema e que adorou a receptividade e a amizade que foi criando com os brasileiros. “Sempre fui bem recebido. O espanhol é mais fechado nesse sentido de acolher, abrir a porta de casa, mas aqui você encontra o cara no futebol e amanhã você já tá na casa dele comendo um churrasco.”

Como único defeito no Brasil, Manolo pontuou a falta de segurança: “Tudo tem suas partes boas e ruins, mas conviver com essa falta de segurança aqui, sabendo que lá você teria mais qualidade de vida, é uma parte ruim, mas não posso reclamar da vida que tenho.”

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Fonte: Elaborado pelo OBMigra, a partir dos dados da Polícia Federal, SisMigra 2022.

Segundo o estudo “Acompanhamento de fluxo e empregabilidade dos imigrantes no Brasil”, do Observatório das Migrações Nacionais, é feito um relatório mensal que tem a finalidade de disponibilizar, aos órgãos públicos todas as informações sobre migrações e refugiados no País.

Uma imigrante do Oriente

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Neuza Hirawa de 78 anos, filha de pais japoneses, moradora no bairro Liberdade em São Paulo

“Sou a única da minha família que não tem diploma e prometi a mim mesma que esse braço aqui seria minha fonte de sustento”, conta Neuza Hirawa de 78 anos, filha de pais japoneses, moradora no bairro Liberdade em São Paulo.

Ela explica que seus pais se mudaram para o Brasil aos 18 anos, em busca de melhores condições de vida e principalmente de trabalho: “Eles diziam que o Brasil era a ‘terra prometida’ e colocaram todas as suas expectativas nesse país”. 

Neuza relata que inicialmente se mudaram do Japão e vieram diretamente para Lins, no interior de São Paulo, onde constituíram sua família com 6 filhos, oficialmente brasileiros.

A partir do momento em que as crianças foram crescendo, sentiram a necessidade de se mudarem novamente, agora para São Paulo capital, por dois motivos.

“Eles diziam que a distância da nossa casa para a escola era muito grande, e isso acabou se tornando grande empecilho, já que gastávamos muito tempo nesse trajeto”. 

A saudade da língua materna

Ainda mais, Neuza conta que a falta da língua materna foi outro ponto essencial que fizeram os pais tomarem essa decisão.

“Lá (em Lins), eles não falavam japonês na escola, o que dificultava ainda mais a adaptação de um casal originalmente do Japão, que estavam se esforçando para aprender o portguês. Mas para eles, o contato com a nossa língua de origem era de extrema importância para nossa identidade”. 

Trajetória no Brasil

Após explicar sobre a trajetória da família para o Brasil, Neuza esclarece sobre sua história pessoal como descendente: “Como disse antes, todos os meus cinco irmãos tiraram diploma, menos eu. Sou a mais velha e a única que não tive essa oportunidade, então resolvi tirar do meu sofrimento, minha força para sobreviver”. 

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Local onde a Neusa Hirawa trabalha
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Marcador de página feito pela Neuza Hirawa

Ela conta que sempre teve o dom de produzir coisas artesanais e resolveu investir nisso sua vida inteira. Fora isso, contou que viajou durante aproximadamente 32 anos ao redor do Brasil, em eventos japoneses que promoviam essa aproximação com a cultura do país oriental, levando sua habilidade artesanal em cada lugar que visitava.

Ela ainda explica o porquê dessa diferença: “Os chineses são investidores e ricos, por isso não estão preocupados em fazer algo diferente, querem apenas o lucro. Nós japoneses não, queremos fazer algo que seja significante e especial para quem vai comprar”.

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Fonte: Elaborado pelo OBMigra, a partir dos dados do Ministério da Economia, base harmonizada RAIS-CTPS-CAGED, dezembro de 2021.

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