Baile Funk na Ladeira dos Tabajaras. Foto: Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro via Flickr
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Dos morros aos festivais, como o funk dominou o país

Acompanhe a trajetória do Funk desde seu desembarque em solo brasileiro na década de 1970 até sua popularização entre as elites no Brasil

Por Camila Belo, Danilo Yamada, Diego Allegretti, Enzo Ferreira, Gabriel Noronha e Julia Fratti

De James Brown a Anitta ou a DJ Arana. Quem ouve os primeiros acordes de I Got You (I Feel Good), do cantor norte-americano, talvez não consiga ver muita conexão com as músicas brasileiras Vai Malandra ou Aquela Mina de Vermelho. Todos são sucessos e considerados funk, por incrível que pareça. Como um dos gêneros musicais mais ouvidos no Brasil herdou e incorporou o ritmo dos pioneiros nos Estados Unidos é algo que intriga muitos. A história do funk traduz como a cultura evolui por caminhos inimagináveis. 

Início do funk no Brasil

O funk tem origem no soul, R&B (rhythm & blues) e jazz, estilos que dominavam as ruas de bairros periféricos de cidades como Nova York, Miami e New Orleans. James Brown, figura fundamental não apenas para o crescimento do funk como gênero musical, teve também grande destaque nas manifestações da população afro-americana na década de 1960. Suas músicas se tornaram fonte inspiradora mundialmente, e não demoraria para chegar no Brasil também.

Foi na década de 1970 que as músicas dançantes e animadas invadiram os bailes da Zona Sul carioca, mas ainda na versão original. Por serem cantadas em inglês, o gênero se difundiu só entre a elite da época. Mas eis que surge o artista Fernando Luís Mattos da Matta, também conhecido como DJ Marlboro, que, quase duas décadas depois, lança o primeiro álbum 100% brasileiro. Funk Brasil se tornou o marco na história do ritmo no Brasil.

A mídia e a marginalização

O ritmo tomou conta das comunidades, muito por conta dos “Bailes da Pesada”, no Rio, e o sucesso da produtora “Furacão 2000”. Mas nos anos 1990 a concorrência não facilitava a vida dos funkeiros. Com a ascensão do MPB nos bailes do Rio, o funk foi perdendo espaço na zona Sul carioca e, como consequência, migrou para as periferias e favelas. Os bailes “da Pesada”, como eram conhecidos, eram frequentados por milhares de pessoas. Era o fermento necessário para se popularizar na mídia, ainda que sob um viés negativo.

Baile funk da Furacão 2000. Foto: Marco Gomes via Flickr

“O funk se torna conhecido junto com o próprio processo de criminalização do ritmo”, explica a doutora em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mylene Mizrahi para a FACTUAL900. Ou seja, segundo a pesquisadora, ao mesmo tempo que a imprensa expunha as músicas dos bailes e divulgava o movimento, o funk era estigmatizado por ser um estilo consolidado na periferia.

O estigma só aumentou quando em 1992 o movimento ganhou notoriedade nacional com o episódio conhecido como “Arrastão de Ipanema”. Na ocasião, dois grupos frequentadores dos bailes começaram uma espécie de “briga” misturada com dança na areia da praia, gerando uma confusão generalizada no local dominado pela classe média-alta do Rio de Janeiro.

O preconceito à volta de jovens pretos e vindos da periferia praticando tal ato foi o suficiente para a mídia da época taxar todos os participantes do movimento funk como marginais e criminosos. Além disso, as músicas cujas letras apresentavam a realidade da população das favelas e que citavam a violência e as armas, por exemplo em “Rap das Armas” de Cidinho e Doca, eram tratadas com repulsa pelas elites. A cantora Anitta, internacionalmente reconhecida, falou sobre o assunto em uma palestra que participou em Harvard: “A rejeição ao funk é única e exclusivamente porque veio do pobre, da favela. O funkeiro canta a realidade dele (…) Para mudar o contexto da letra do funk, você precisa mudar a realidade de quem está vivendo essa realidade”.

Nos jornais, o funk que antes era instrumento de denúncia das comunidades através das letras, passou a ser associado diretamente ao crime e às facções criminosas do Rio de Janeiro. Desse modo, a criminalização do movimento foi se acentuando, com diversos bailes e funkeiros sendo perseguidos, o que tirou o poder de liberdade dos artistas e dos consumidores de suas músicas.

O papel social do funk

O gênero musical periférico traz diversas questões sociais importantes para a população, duas delas são a representatividade e a inclusão da periferia. Além de gerar empregos e oportunidades de trabalho, tanto na produção de músicas quanto na de eventos, ajudando o crescimento econômico das comunidades. “O funk permite os jovens terem uma alternativa a mais na vida, no desenvolvimento de ofícios” comenta Mylene.

Outro papel social que o funk potencializa é o empoderamento. O sucesso de artistas periféricos, ou de outras classes minoritárias desafia os estereótipos e preconceitos impostos pela elite brasileira, quebrando barreiras e aumentando a diversidade. Além de ser inspiração para os jovens das favelas, ele ajuda no combate à criminalidade. Em diversas letras de funk, os cantores falam sobre como o crime não compensa, incentivando  a busca pelos seus sonhos, promovendo a inclusão social.

Funk Ladeira dos Tabajaras. Foto: Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro via Flickr

O gênero musical também permite que artistas negros expressem suas vivências, denunciando injustiças, colaborando com a visibilidade de pautas da comunidade negra. “O funk quer ser visualizado de igual para igual, não de diferente para igual.” afirma André Fernandes, produtor do cantor Léo da 17.

Consumo das elites

Com o passar dos anos, o funk foi fazendo mais sucesso e se ramificando em vários subgêneros, atingindo tanto a classe média e alta, como a classe baixa. Com a popularização entre celebridades e a elite, no fim da década de 1990, os bailes de favela do Rio de Janeiro, como o Baile Castelo das Pedras, ganharam maior público. Através do fascínio e curiosidade, o funk, mesmo que de forma restrita, saía das favelas.

A ascensão do funk nas elites não teria sido a mesma sem a participação das rádios e da televisão, que, inicialmente, auxiliaram na sua criminalização. Os programas tornaram-se responsáveis por ajudar a divulgar os MCs, e o principal exemplo foi a ascensão da Furacão 2000, que trazia um funk que não chegava a ser o proibidão produzido no Rio de Janeiro. 

“Porque desde antes o funk faz seu som ter alcance em pessoas que às vezes nem ouvem o gênero” declara André Fernandes.

O Xou da Xuxa foi um dos principais programas de televisão que ajudou a popularizar o funk, a apresentadora criou o chamado Paredão da Xuxa, que homenageava e representava o gênero. ‘’Aquele momento da Xuxa ali foi muito importante porque, o funk estava sendo perseguido, massacrado, discriminado. Aí vai uma loira, rica, de olho azul e fala que é funkeira. Bota uma interrogação na cabeça de todo mundo. Não é música de preto, pobre e favelado?” comenta o DJ Marlboro em entrevista para João Brasil.

 Após essas segmentações, o subgênero que conseguiu se popularizar para a elite foi o de ostentação. Originária de São Paulo, essa vertente usava as letras para esbanjar artigos de luxo, como os carros, as mansões e o dinheiro, ou seja, excluía o proibido. Com isso, as classes altas passaram a querer escutar esse estilo de música, porque além de não falar explicitamente sobre o crime e a violência, o funk ostentação acabava se aproximando da realidade deles, a vida repleta de bens de marca que poucos indivíduos conseguem atingir.  

”Ostentação canta o que o proibido já cantava, só que ele retira da narrativa, da discursividade, das letras, da estética o elemento proscrito, o proibido. Então o ostentação vai legalizar o funk”, destaca a antropóloga Mylene Mizrahi.

Com a consolidação do funk no cenário nacional, não demorou muito para ele se popularizar mundialmente. Um exemplo é Anitta, que em 2011 começou a cantar funk no Rio de Janeiro e atualmente virou uma estrela mundial, chegando a ter uma música mais ouvida no Spotify em todo mundo e se apresentando no festival de música Coachella em abril deste ano. No documentário Funk.Doc, Sergio Affonso, presidente da Warner Music Brasil, afirma que o mundo da música sempre está interessado no que faz sucesso. Então, quando os produtores e djs ao redor do mundo veem o funk com números incríveis no Youtube, Spotify e redes sociais, eles têm muito interesse em fazer colaborações e entender o estilo. 

        Porém, apesar de todo o sucesso atingido, sendo até considerado uma manifestação cultural popular no Brasil, ainda há barreiras que desvalorizam o gênero. “Os funkeiros sabem que precisam moldar o discurso para atingir determinados públicos”, explica Danilo Cymrot, cientista social formado na USP para a BBC News Brasil. Desse modo, diversas músicas, quando começam a fazer sucesso sofrem alterações na letra para versões menos explícitas. Na Olimpíada de 2021, a ginasta brasileira Rebeca Andrade apresentou seu solo com Baile de Favela, mas com adaptação, tirando as letras características do estilo.

Ouça a entrevista com MC Bibi Drak, uma novata no funk: