Imagem ilustrativa de um festival de música
Entretenimento

Por que os festivais de música são tão caros no Brasil?

O público desejou muito a volta dos concertos e shows depois da pandemia; eles voltaram, mas os preços estão inacessíveis para a grande maioria

Por Felipe Cavalheiro Rodrigues de Almeida, João Pedro Costa Rodrigues, Luca Uras e Samuel Sbrissa Kyriazi

Um dia no Lollapalooza saiu por 1.330 reais. O The Town custará a “bagatela” de 800 reais. E isso por um dia em festivais que têm atrações distribuídas em mais de uma data. Apenas em 2023, o fã de música teria de desembolsar mais 1 salário mínimo e meio. Há explicações para que os ingressos serem tão caros no Brasil? Para os organizadores, o momento é de recuperar o tempo perdido, com o mercado ainda em fase de reaquecimento, para recuperar o prejuízo de dois anos parados.

Quando a gente voltou a fazer festivais de música todo mundo (locadoras de equipamentos para shows) ficou parado, o produto ficou mais caro, houve um acréscimo para compensar o tempo que eles ficaram totalmente parados”, explica Eduardo de França Santos, gerente de projetos do Grupo UmaUma. A empresa do mundo do entretenimento cuida dos festivais Sarará, Arena Brasileira , Carnaval na Cidade, entre outros. “Com isso, aumentou o ticket médio. O público reclama, mas não sabe que a gente também está pagando mais caro por isso. Sim, de grosso modo, eles aumentaram em torno de 30 a 40 por cento.”

A pandemia afetou vários eventos que seriam realizados ao vivo e com públicos, e com os festivais de música não foi diferente. Segundo pesquisas realizadas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em conjunto com a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape), mais de 51% dos eventos que aconteceriam em 2020 no Brasil foram cancelados, sendo que mais de 300 mil shows e eventos não aconteceram. As empresas responsáveis tiveram, durante esse período, uma redução de receita de até 90%, também afetando o preço dos ingressos.

Os festivais de música que ocorreram logo após o fim do isolamento social tiveram um aumento significativo de público com relação às edições pré-pandemia. A edição de 2022 do Lollapalooza registrou um aumento de 23% de pagantes com relação à edição de 2019. Também é perceptível o aumento da frequência de shows e festivais que ocorrem durante o ano. “O mercado se uniu bastante na época da pandemia, a gente percebeu que estávamos brigando entre nós. E se a gente se organizar direitinho todo mundo vai sair ganhando, nós, que não iremos mais competir entre si, e o público que poderá ir em todos os festivais.”, conta Santos. Luiz Restiffe, sócio-diretor da agência IhHaus, completa: “Quando liberou, juntou público e festivais em questão de 6 meses e a gente começou a ter outro tipo de problema, todos fornecedores não tinham condições de entregar o volume de eventos que tinham. Essa é a primeira questão. A segunda questão é que alguns desses fornecedores nem existiam mais, quando a gente fala de uma mão de obra terceirizada, muitas pessoas migraram para outro tipos de trabalhos.”

Ouça abaixo o papo completo com os organizadores pelo Festival Sons da Rua:

O público que retorna aos festivais de música também está mudado. Agora, ele exige atenção em relação à representatividade e igualdade, além de sustentabilidade por parte dos organizadores. A WME (Women’s Music Event) criticou o Lollapalooza 2022 por ter apenas 22% de artistas mulheres, cis e trans. Santos afirma que os festivais estão focados em garantir o acolhimento do público em geral. Não é à toa que os festivais contam com uma equipe especializada, como advogados, psicólogos, entre outros profissionais, para lidar com casos de racismo, homofobia, transfobia e assédio.

Em relação à sustentabilidade, alguns festivais de música  adotaram práticas sustentáveis. Um deles foi o aterro zero, com 90% do lixo produzido durante o festival Rock the Mountain sendo enviado para a reciclagem, e a distribuição gratuita de água para diminuir o consumo de garrafas plásticas.