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“Estação Carandiru”, a história do maior presídio da América Latina

O médico Drauzio Varella relata seus dez anos de atendimento voluntário na Casa de Detenção de São Paulo, mostrando seu funcionamento e relatos de detentos

Por: Amanda Gdikian, Ana Carolina Malheiro, Bruna Cravo, Julia Delaosa e Lara Vital

Todos conhecem Drauzio Varella, um dos médicos mais influentes do País. E ele faz as vezes de jornalista com seus quadros televisivos sobre saúde. Midiático no jornalismo e na medicina, ele adentrou também no mundo da literatura com uma escrita que nasceu de sua vontade de contar histórias. Suas narrativas mostram o lado da vida carcerária que muitos nem desconfiam que exista, mas que só o doutor Drauzio presenciou.

Em seus dez anos de atendimento voluntário na maior casa de detenção da América Latina, o Carandiru, Drauzio conheceu um outro lado da cadeia que não é abordado pela mídia e pela sociedade. Suas histórias em Estação Carandiru, lançado em 1999, giram em torno da sua rotina de trabalho e também da de alguns prisioneiros com quem manteve contato.

Drauzio Varella ingressou como médico-voluntário no Carandiru para realizar palestras de conscientização para a prevenção da aids. Já naquele período a maior parte dos prisioneiros havia contraído o HIV. A disseminação corria solta pela livre circulação de cocaína injetada por meio de seringas que eram compartilhadas entre os presos.

Como médico, ele conta sua dificuldade com a falta de disposição de laboratórios e auxílio. Não havia como pedir os exames necessários já que para isso deveria passar por um processo burocrático. Faltavam as condições até solicitar um medicamento. Diante de tanta carência, restava a ele ouvir os pacientes e passar um diagnóstico baseado na fala de cada um.

Ao decorrer da narrativa de Estação Carandiru, o médico-escritor mostra que não cabia a ele adicionar algum tipo de juízo de valor, apenas transmitir a mensagem como profissional de saúde. Drauzio mostra como sua passagem pelo presídio o comoveu, por meio de uma escrita simples e direta, sem se distanciar da história. Na narrativa, opta pelas falas originais dos prisioneiros, não as alterando significativamente. É como se elas tivessem sido transcritas da maneira como foram ditas, com a presença de gírias e expressões comuns do linguajar dos presos. O recurso humanizou a obra e a tornou mais real.

O livro Estação Carandiru não segue uma organização cronológica dos acontecimentos. Cada capítulo tem uma vida independente. Algumas histórias são interligadas, mas não deixam de ser pequenas narrativas. O autor aborda, inicialmente, a descrição da cadeia e como era a vida lá dentro. Os relatos dos prisioneiros vão do passado de cada um deles e passam pelas vivências no presídio. Naquela época, Drauzio já falava da interferência do crack e dos riscos que a droga causava. O conhecido massacre do Carandiru, de 1992, também é mencionado no livro, mas não é o foco dele.

Embora Drauzio não busque denunciar o sistema, ao narrar sua passagem pelo local e intercalar com relatos e acontecimentos acaba por revelar, o médico mostra um pouco da realidade das penitenciárias do Brasil. Carandiru sofreu com a superlotação: chegou a ter 7.257 prisioneiros para uma capacidade de apenas 4000. Muitas vezes, havia a mistura de prisioneiros com crimes muito distintos uns dos outros na mesma cela.

Estação Carandiru. De Drauzio Varella. Companhia das Letras, 1999, 368 págs., 63 reais