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“Elogiemos os Homens Ilustres”, o retrato humano da crise de 1929 

Com descrições minuciosas e relatos dolorosos e poéticos, essa obra de James Agee e Walker Evans retrata a vida miserável de meeiros na década de 1930 no Sul dos Estados Unidos 

Por Ana Carolina Carvalho, Enzo Cipriano, Letícia Lima, Tiffany Maria e Victoria Acquaviva

Elogiemos os Homens Ilustres é uma obra fruto da colaboração entre James Agee e Walker Evans. Publicado em 1941 nos EUA, o livro surgiu de uma missão inicial para documentar os efeitos na vida de pequenos proprietários rurais no Sul dos Estados Unidos após a Grande Depressão. A complexidade do relato resultou em sua rejeição como artigo jornalístico pela revista Fortune, mas a obra ganhou vida como um livro. 

Em 1936, Evans e Agee embarcaram em uma jornada para o condado de Hale, no Alabama, com o propósito de documentar a vida diária das famílias de meeiros locais. Durante aquele verão, passaram oito semanas convivendo e registrando as atividades de três famílias, os Gudger, Ricketts e Woods. Para preservar a privacidade, Agee utilizou pseudônimos tanto para os membros das famílias quanto para as cidades mencionadas no livro. 

Os relatos destacam o drama das famílias que vivem com pouco mais de 10 dólares por mês. Para elas, a existência se resume ao trabalho. Homens atuam no campo, realizando árduas tarefas, como a colheita de algodão. Mulheres concentram-se em tarefas domésticas. E as crianças já são vistas como aprendizes. Os trabalhos são herdados de pai para filho, e as crianças nascem para auxiliar nas atividades familiares. 

Na primeira parte de Elogiemos os Homens Ilustres, são apresentadas 62 fotografias em preto e branco, captadas por Evans, que ilustram a extrema pobreza enfrentada pelos colonos. Apesar de não terem legendas, as imagens não são esquecidas à medida que a história de Agee se desenrola. Suas descrições vívidas dos indivíduos, das casas e das terras incentivam o leitor a retornar às fotografias repetidas vezes, cada vez com uma nova camada de compreensão. 

A segunda parte de Elogiemos os Homens Ilustres apresenta a prosa de Agee, uma narrativa que se distancia de uma abordagem jornalística tradicional, assemelhando-se mais a um livro de memórias. A história oscila entre as perspectivas das famílias e as reflexões internas do jornalista, que ocasionalmente se manifesta como um personagem na narrativa, angustiando-se com seu papel de “espião” e intruso nas vidas humildes retratadas.  

Os relatos dividem-se em três partes: a primeira, não linear e meditativa, oferecendo retratos de suas caminhadas pelas cidades e interações com os cidadãos locais. A parte seguinte apresenta linguagem mais concreta, subdividida em seções que abordam temas gerais, como “Dinheiro”, “Abrigo” e “Comida”. Nessas partes, Agee utiliza uma narrativa altamente descritiva. Na última parte, denominada “Induções”, o jornalista compartilha seus encontros iniciais com as famílias, detalhando o quão desconfortável foi para elas se tornarem próximas, compartilhando detalhes íntimos de suas vidas. Ao enfatizar o processo de construção de confiança, a seção fornece um contraponto vital, contextualizando as imagens e humanizando tanto os autores quanto às pessoas retratadas. 

O livro Elogiemos os Homens Ilustres é fundamental para jornalistas por diversas razões. Representa uma inovação tanto jornalística quanto literária, desafiando as convenções tradicionais ao oferecer uma narrativa profunda e poética sobre a vida das famílias rurais durante o inédito período em que os Estados Unidos eram uma nação empobrecida. A abordagem única de Agee, combinada com a fotografia de Evans, inspira jornalistas a explorarem novas formas de contar histórias, indo além dos relatos convencionais. 

O livro destaca ainda a importância de uma observação cuidadosa e detalhada, bem como a empatia ao retratar a vida cotidiana. A habilidade de Agee em capturar a essência humana e transmitir a complexidade das experiências das famílias é uma lição valiosa para jornalistas, enfatizando a necessidade de ir além dos fatos superficiais e realmente compreender as histórias por trás das manchetes. 

Elogiemos os Homens Ilustres. De James Agee e Walker Evans. Companhia das Letras, 2009, 520 págs., 53 reais