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“Corações Sujos”: o negacionismo dos descendentes japoneses no Brasil

Livro de Fernando Morais narra as atrocidades cometidas por grupo formado por imigrantes que não acreditavam na rendição japonesa na Segunda Guerra Mundial

Por Bruno Neves Giusti, Diego Palmezano Allegretti, Felipe Ockner Rezende, Fabrício Colli Badino Filho e Giovanni Ghioldi de Souza

No final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o imperador Hirohito renunciou ao seu título de ‘Deus’ ao discursar na rendição do Japão. A fala, de dimensões históricas, causou revolta  entre os incrédulos japoneses, inclusive os que migraram para o Brasil. Numa tentativa de negar os fatos, eles decidiram contar uma outra narrativa.

Corações Sujos, livro de Fernando Morais lançado em 2000, narra a história da Shindo Renmei, um grupo de imigrantes japoneses que se negavam a acreditar na rendição japonesa na Segunda Guerra. Eles tiveram intensa atuação no interior paulista, sobretudo nas cidades de Tupã e Bastos. A organização, liderada pelos coronéis Junji Kikawa e Wakiyama, e mais o capitão Kiyo Yamauchi, dividia-se em kachigumi (vitoristas) e makegumi (derrotistas), chamados de ‘corações sujos’. Kikawa, fiel ao Imperador, recusava a derrota do Japão, enquanto os derrotistas aceitavam a rendição, provocando a revolta dos kachigumi. 

Para conseguir alienar a população de descendentes nipônicos e facilitando a formação de grupos anti-rendição, a Shindo Renmei distorcia os fatos, censurava as rádios, impedia que a informação chegasse aos imigrantes no Brasil. 

A trama se desenrola com os kachigumi buscando assassinar os derrotistas. O primeiro makegumi morto foi Ikuta Mizobe, diretor da cooperativa agrícola de Bastos, assassinado por um tokkatai dos kachigumi por propaganda derrotista. Os homicídios aumentaram, as prisões se multiplicam, levando o Congresso da época a considerar bloquear a imigração japonesa para o Brasil. Figuras políticas brasileiras, como Carlos Marighella e Luís Carlos Prestes, apoiaram a ideia.

O livro Corações Sujos adota um narrador em terceira pessoa para relatar os fatos de forma cronológica. O autor vale-se de uma pesquisa aprofundada sobre documentos da época e também recorre à descrição detalhada do ambiente, personagens e ações, o que permite ao leitor imaginar o que ocorre na trama. Morais leu periódicos, documentos e até entrevistou pessoas envolvidas no período de atuação da Shindo Renmei. Ao todo foram 88 entrevistados, 28 periódicos, 50 arquivos e 58 livros diferentes. 

Fernando Morais, conhecido por suas biografias como Lula, Olga e Chatô, o Rei do Brasil, ganhou destaque com o livro-reportagem Corações Sujos, que lhe rendeu um Jabuti em 2001. Morais trabalhou em diversos veículos de imprensa como a TV Cultura e o Jornal da Tarde, foi ex-deputado estadual e Secretário da Educação e Cultura de São Paulo. 

Corações Sujos. De Fernando Morais. Companhia das Letras, 2000, 217 págs., 45 reais.