Capa de "Os novos cães de guarda", livro de Serge Halimi
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Como “Os Novos Cães de Guarda” desmascara o jornalismo

A influência dos meios de comunicação na sociedade e a denúncia das conexões entre o poder econômico, político e a mídia, no ensaio do escritor e jornalista francês Serge Halimi 

Por Gabriel Bonilha, Giovanni Stein, Henrique Zaneti, João Gustavo Machado e João Rossetto

É notável a capacidade dos meios de comunicação de moldar em vários aspectos uma comunidade. Menos nobre é o fato de como eles também podem ser moldados por entidades superiores, pelo interesse político e econômico. É essa a essência de Os Novos Cães de Guarda, do escritor e jornalista francês Serge Halimi. O livro foi publicado em 1997 e atualizado em novembro de 2005.

Halimi revela como os jornalistas tidos como “gigantes da comunicação”, que controlam a maior parte das informações que rodeiam o mundo, manipulam a opinião pública. Ele vai além, mostrando as consequências dessa manipulação na veracidade dos fatos. Em sua análise, ele estabelece uma conexão direta entre o poder econômico, numa triangulação que envolve ainda os representantes da esfera política e jornalistas. Com isso, o autor busca denunciar essa interligação entre o poder político, econômico e a mídia, considerando-a antiética.

Na era da informação, os meios de comunicação detêm de um grande poder sobre a sociedade. Eles possuem a capacidade de inspirar a opinião pública e promover a manutenção de uma comunidade saudável por meio da constante veiculação de informações. Mas essa é a situação ideal, alerta Halimi. À medida que o cenário da mídia evolui, sua força na sociedade e a responsabilidade sobre suas ações aumentam significativamente. As informações transmitidas vão tendo uma maior influência nos hábitos, opiniões e consumos de uma sociedade. 

O título faz uma alusão ao livro Les Chiens de Garde (Os Cães de Guarda, em português), de Paul Nizan, publicado em 1932. Nessa obra, Nizan denuncia as análises dos filósofos mais famosos de seu tempo, e Serge Halimi estabelece um paralelo com essa crítica, aplicando-a aos jornalistas. Portanto, o francês destaca como aqueles que deveriam ser os guardiões da democracia e da liberdade de expressão acabaram desempenhando um papel “novo”. Ao contrário do tradicional, eles se tornam “cães de guarda” do poder estabelecido, produzindo o discurso oficial e silenciando as vozes dissidentes.

A obra de Halimi, que é diretor editorial do Le Monde Diplomatique desde 2008, traz uma grande riqueza de detalhes sobre a mídia francesa, o que transmite um melhor entendimento ao leitor. Os Novos Cães de Guarda utiliza diversas falas e nomes de jornalistas e políticos, o que passa credibilidade ao texto. A grande quantidade de informação, por vezes, torna a leitura um pouco cansativa para quem desconhece os personagens da França. 

Os Novos Cães de Guarda propõe uma importante reflexão sobre o papel e a responsabilidade dos jornalistas como agentes sociais e como produtores de informação. Além disso, estimula uma postura ética, independente e comprometida com os valores democráticos e humanos do jornalismo. Embora tenha desafiado e denunciado os superiores, a obra foi um grande sucesso. O livro teve 135 mil vendas em menos de seis meses após o seu lançamento e continua a manter uma longevidade que o torna uma representação significativa no mundo editorial. 

Os Novos Cães de Guarda. De Serge Halimi. Vozes, 1998, 152 págs., 30 reais.