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Como e por que a Rua Augusta voltou a ficar na moda

Conheça a história da Rua Augusta, e como uma das mais famosas vias de São Paulo deu a volta por cima e se tornou point entre os jovens  

Por Julia de Miranda, Rafael Grossi, Pedro Henrique Shiroma, João Tofanello e Sophia Silva

Da tempestade ao (quase) paraíso, a Rua Augusta passou por diversos processos de transformação fazendo com que hoje possa ser considerada um “point” da noite paulistana. Apesar de sua diversidade, a rua permanece cercada por uma série de estereótipos e preconceitos. Os mais velhos, por exemplo, a associam como um local de prostituição e até hoje cenas de LGBTfobia podem ser presenciadas por lá. Porém, para quem a frequenta, ela não só é um local seguro, mas o local para se estar hoje em São Paulo.  

Houve um tempo em que se imaginava que a Rua Augusta era o espaço da cidade onde tudo podia acontecer, sem correr o risco de batidas policiais, por exemplo. Mas assim que casas noturnas, bares e restaurantes começaram a voltar, a partir da pioneira Casa Vegas, do empresário Facundo Guerra, no ano de 2005. Augusta praticamente virou uma marca da noite paulistana, abandonando os anos de esquecimento e voltando a ser frequentada pelos jovens. A volta da popularidade não beneficiou só os jovens da classe média de São Paulo, mas também, fez com que os imóveis da região voltassem a ser valorizados, com cada vez mais procura. 

O público LGBT foi extremamente importante nesse processo de “volta a fama” da Rua Augusta. Podemos dar o crédito da vinda desse público para famosa festa gay chamada “Grint”, que acontece no clube A Lôca, onde jovens cantores interpretam clássicos da música, e que foi responsável na influência da abertura de várias casas noturnas. 

 A Baixo Augusta é onde se localizam grande parte dos bares e baladas LGBTfriendly. Sara, uma frequentadora de longa data da Rua Augusta, afirma: “Antes havia muito preconceito com o público LGBT, mas hoje em dia observo um certo acolhimento com esse público. Então existe um público LGBT maior aqui na Rua Augusta e acho que por isso a gente tem essa liberdade maior. Dá pra ir em um restaurante sem achar que vai apanhar”, relata a jovem, entrevista pela equipe da FACTUAL900.  

O nome da rua não possuí o objetivo de homenagear alguém, já que na verdade “augusta”, assim como dizem os dicionários, está ligado a algo digno de respeito e admiração, pois foi construída com o intuito de ligar a Avenida Paulista às outras regiões, e para o desfrute da alta sociedade. 

Com a vinda dos cinemas de bairro e opções de lazer, a rua passou a ser muito frequentada pelos jovens, visto que era cercada por colégios. Até os anos 1950, a Augusta era sucesso da elite paulistana, sendo repleta de comércios, principalmente por lojas de móveis, tendo em vista que na época a rua era sinônimo de casas grandes e elegantes. 

Depois, mudanças passaram a acontecer na chamada era da Jovem Guarda. A rua passou a ser recheada de música, arte e também os chamados “edifícios mistos” que trouxeram grande desenvolvimento para o local, sendo sinônimo de luxo e status. 

Conheça um pouco da história da rua Augusta

Construção de uma cultura 

Com o passar dos anos, os costumes presentes no local foram se alterando com a evolução da sociedade e de suas redondezas. “O que a gente vê hoje é um processo de renovação do que um dia já foi a Rua Augusta”, diz Luiz Eduardo de Camargo Minervino, estudante de Jornalismo da Cásper Líbero, autor de uma reportagem sobre a Augusta.   

Na década de 1950, a elite paulistana passa a frequentar o local. Foi nessa época em que os “edifícios mistos” começaram a aparecer, e consequentemente, por se tratar de prédios com comércios pelo térreo, seria natural que o público atraído fosse mais elitizado. Caminhando aos anos 1960, o clima era de ascensão. Como uma crescente escada desde a última década, suas ruas se tornaram “points” para o público que buscava fazer compras, passeios de carro, idas ao cinema e teatros, já que esses eram um dos principais atrativos da Augusta.  

O fim década de 1960 retratou algo inesperado para a população da região. O surgimento de shoppings e comércios em outras regiões da cidade fizeram com que boa parte da comunidade que ali frequentava começasse a rodear novos ares, atraindo uma desvalorização imobiliária aos vários edifícios presentes na Augusta.  

“Nos anos 50 e 60 a rua era repleta de jovens em busca de cinemas, bares e restaurantes, contudo, a crise do comércio na década de 70 e o processo de afastamento dos escritórios do centro de São Paulo atraiu prostíbulos e casas de entretenimento que marcariam a região até o início dos anos 2000”, conclui Luiz Minervino.  

Décadas de má fama

Desde sua origem, a Rua Augusta é um local rodeado por diversas formas de acesso, algo bem democrático. A diversidade de pessoas, desde classes sociais opostas até dos mais variados nichos culturais, sempre foi um símbolo da via. A vida noturna da região foi ganhando forma com bares, baladas e mais pra frente com os prostíbulos, os quais deram a fama de um local mal frequentado durante décadas seguintes.  

Os chamados prostíbulos, casas destinadas a prostituição, perduraram de forma clara até os anos 2000, pois anos depois com a chegada de uma nova prefeitura a cidade, a rua foi reforçada. “No começo do milênio, na prefeitura da Marta Suplicy, o policiamento foi reforçado e o entretenimento adulto afastado, dando espaço para o retorno de ambientes voltados para o público jovem, principalmente a cena alternativa”, constata Luiz. Até os dias atuais, a Augusta convive com esse preconceito no nome. A fama continua, mesmo que de forma mais leve, por conta da idealização que muitas pessoas prosseguiram detendo sobre este tipo de atividade.