Capa do livro "Cobras e Lagartos", de Josmar Jozino
Cultura Livros para jornalistas

“Cobras e Lagartos”, uma investigação jornalística sobre o PCC

Após ser ameaçado de morte, o jornalista Josmar Jozino decidiu expor a verdadeira história do PCC, e entregou uma aula de jornalismo

Por Amanda Donola Libório Lopes, Fabrizzio Sens Lombardi, Felipe Cavalheiro, Rodrigues de Almeida, João Pedro Costa Rodrigues, Luca Conestabile Uras, Nathalia Fruchi Fuinhas e Samuel Sbrissa Kyriazi

Crime, violência e corrupção. Esse é o mundo no qual Josmar Jozino presenciou a trajetória do PCC. E no qual sua vivência o levou a escrever Cobras e Lagartos, publicado pela Via Leitura em 2017. A existência do livro é prova de sua importância na vida do repórter. Após receber uma ameaça de morte supostamente vinda da facção criminosa, Jozino decidiu usar o tempo afastado, por segurança, do trabalho, para relatar o que sabia sobre o PCC, e criar um documento seminal para entender o crime organizado no Brasil.

O livro segue uma narrativa investigativa sem ordem cronológica exata. Josmar segue um fio lógico, conectando os pontos que se complementam, buscando causa e efeito, numa investigação quase detetivesca. Começamos conhecendo o nascimento do “Partido do Crime” e a história de seus fundadores. No entanto, as protagonistas da narrativa, e principais as fontes do autor, são as primeiras-damas do PCC.

São as mulheres dos presidiários que viram todo o jogo de poder, que comandaram de fora das prisões execuções, atentados, e impuseram suas vontades até mesmo na facção. No conjunto, dão um relato personalíssimo sobre a vida do crime organizado. Débora, esposa do importante líder Sombra, se tornou, inclusive, amiga do jornalista.

Outra figura que marca o livro é o próprio autor. Pondo a si mesmo como personagem, “Caveirinha” (seu apelido), admite a própria importância na história da facção. Ele chegou a ser acusado de ser cúmplice dos criminosos e teve sua vida posta em risco pela relação com eles. Mas, em Cobras e Lagartos, fica claro que nunca se encaixou em um lado dessa disputa, agente e observador são um amálgama inseparável.

Ler Cobras e Lagartos é conhecer a história do PCC, e entender o significado de jornalismo investigativo. Tudo no livro se resume ao contato da notícia com o jornalista. Ao se deparar com um livro-reportagem, é comum em muitos aspirantes a jornalistas a visão romântica de se viver a pauta relatada. Josmar entrega tudo que

se é esperado nesse sentido, mas expõe ainda mais a realidade por trás da profissão romantizada. O jornalismo investigativo demanda esforço e coragem. E os impactos da notícia só vêm após o repórter se expor ao risco denunciado.

O jornalismo como denúncia e ferramenta para compreender a sociedade é construído conforme Josmar Jozino acompanha a vida dos fundadores do PCC,e a trajetória de corrupção dentro e fora da facção. O slogan “Paz, Justiça e Liberdade” é lembrado já nas primeiras páginas e relembrado ao longo do livro. Esse lema é manchado conforme a disputa interna do PCC, que leva cada atentado, cada rebelião e protesto a ceder um pedaço de sua importância para os objetivos e rancores pessoais das cobras.

Com a reedição do livro, após 12 anos de sua publicação, Josmar tem a oportunidade de reafirmar o crescimento do crime organizado. Por maior que seja a resistência das autoridades em admitir, “o PCC está mais vivo do que nunca”, como é nomeado um dos capítulos finais do livro. Com Cobras e Lagartos é possível compreender as engrenagens da corrupção policial, das alianças do crime e das traições na expansão da violência no Brasil.

Cobras e Lagartos. De Josmar Jozino. Via Leitura, 2017, 224 págs., 51,68 reais.