Cultura

Brasilcore: das periferias cariocas ao Coachella

Entenda o Brasilcore, tendência verde e amarela que vem vestindo desde artistas periféricos à modelos europeias

Por Fabian Noda, Guilherme Catellino, Isabel Almeida, Laura Ragazzi, Leonardo Medina e Fernanda Garcia

A partir de 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, bandeiras e camisas do Brasil passaram a ser frequentemente exibidas pelo chefe do executivo e por seus apoiadores como um símbolo ou uma forma de identidade. Nessa conjuntura, opositores do governo – artistas e anônimos – hesitavam sobre o uso das cores nacionais em seus looks, receosos de uma suposta alusão ao governo bolsonarista.

Mas com o segundo turno das eleições presidenciais se aproximando de forma conjunta a Copa do Mundo do Qatar, o uso das cores da seleção brasileira foi colocado em xeque. A paleta de cores verde e amarela, de fato, identifica apenas o bolsonarismo? Na verdade, não. A brasilidade característica do vestuário popular, embora tenha sido apropriada pelo atual Presidente da República, hoje representa muito mais que isso.  O Brasilcore ou Brazillian Aesthetic simboliza a cultura brasileira, a partir de uma estética composta por roupas e acessórios nas cores da bandeira nacional. 

O QUE É “CORE”?

O movimento conhecido como BrasilCore (ou Brazilian Aesthetic) sempre existiu, especialmente nas favelas brasileiras, porém se popularizou e ganhou maior destaque no mundo da moda este ano, por meio de trends do TikTok e da utilização dessa estética por influenciadores de todo mundo.

Dentre as várias tendências criadas, as que mais ganham destaque são o barbiecore, com looks monocromáticos rosa; o grandpacore, com os coletes de tricô, meias mais altas, calças de alfaiataria e suéteres vintage; o fairycore, inspirado em fadas, com rendas, vestidos, saias e cabelos com tranças; o pearlcore, com pérolas em todo o look; e por fim, um dos mais recentes, o brazilcore, composto por uma paleta verde e amarela e por peças que referenciam o país do futebol e a única seleção pentacampeã mundial. Nesse sentido, portanto, o termo “core” é utilizado como propulsor da essência cultural do Brasil e do futebol na moda.

O BRASILCORE NO EXTERIOR E NA POLÍTICA

Anitta nos bastidores do festival Coachella – Foto: @simplyyyg

O Brasilcore se popularizou nos últimos anos graças às campanhas eleitorais do então candidato à presidência, Jair Bolsonaro e desde então, passou a se manifestar como um símbolo do patriotismo e dos ideais políticos defendidos pela direita bolsonarista. Durante e após as eleições presidenciais de 2018, portanto, passou a existir um certo “receio” da comunidade brasileira em usar as cores da Bandeira nacional e acabar sendo confundida com o bolsonarismo e a visão de mundo defendida por seus apoiadores. Em 2022, no entanto, ano da vigésima segunda edição da Copa do Mundo, influenciadores, modelos e artistas nacionais e internacionais adotaram a estética verde e amarela e passaram a ressignificar o Brasilcore não como um instrumento político, mas como uma manifestação, de fato, da moda brasileira.

Anitta, cantora brasileira com a maior relevância internacional da atualidade, foi um dos símbolos nacionais responsáveis por disseminar a tendência, ao se apresentar no Coachella, festival de música norte-americano com um figurino baseado nas cores da bandeira. Além dela, modelos internacionais como Hailey Bieber e Alex Consani aderiram às cores da seleção e ajudaram a divulgar o movimento no exterior.

Hailey esteve no Brasil em setembro, acompanhando o seu marido, Justin Bieber, headliner do Rock in Rio e aproveitou para divulgar fotos utilizando a paleta brasileira. Com uma camiseta da seleção e um Nike Dunk Low “Brazil” nos pés, a modelo atingiu milhares de pessoas e comentários nas redes sociais. Alex, 18, modelo transsexual e representante da Geração Z nas passarelas também entrou na onda e divulgou vídeos e fotos estampando a brasilidade em seus looks.

Alex Consani modelo que viralizou ao usar looks com as cores da bandeira do Brasil – reprodução Instagram @alexconsani

A INFLUÊNCIA NO TERRITÓRIO NACIONAL

A cantora carioca, Ludmilla, por sua vez, se apresentou como headliner do palco Sunset do Rock in Rio no dia 11 de Setembro com uma camiseta da seleção e carregou consigo uma imagem de luta e representatividade da comunidade preta e periférica. 

Ludmilla e dançarinos com camisa da seleção em apresentação no Rock in Rio — Foto: Gabriel Nascimento/gshow

Outro exemplo notório do destaque dado à estética brasileira nos últimos tempos,  foi  a campanha da Nike “Veste a Garra”, que a partir de artistas periféricos como o rapper Djonga e o funkeiro MC Hariel, divulgou os uniformes da seleção para a Copa de 2022. ”Para a Nike, valorizar o futebol significa homenagear os atletas, a juventude e as comunidades que o definiram“, conta Aaron Barnett, Diretor de Produto Sênior da Nike Global para vestuário de futebol.

A PERIFERIA

Apesar de o Brasilcore ou Brazilian Aesthetic ter se tornado um movimento de resgate da cultura brasileira, a partir de chinelos, chapéus e principalmente camisetas com o brasão da seleção, o movimento vem sofrendo uma série de críticas. Em entrevista à FACTUAL900, a jornalista especializada em moda e com reportagens publicadas pela revista Vogue, Luanda Vieira, afirmou: “A tendência ressurgiu recentemente nas redes sociais, mas a verdade é que ela sempre foi usada por moradores de comunidades do Rio de Janeiro, que nunca deixaram de exaltar o orgulho de ser brasileiro, apesar de todas as problemáticas do Brasil”.

A periferia é pioneira em usar os códigos da brasilidade, mas ao mesmo tempo vítima de uma invisibilidade e marginalização dos seus costumes. Ainda para Luanda, “A maioria das tendências de moda surgem do gueto, mas não são valorizadas em corpos negros por conta do racismo estrutural”. Nesse sentido, a popularização do Brasilcore implica em uma discussão sociológica, em que determinadas peças só são valorizadas quando vestem corpos brancos, magros, gringos e pertencentes a uma fatia elitizada da população.

Além disso, a idealizadora do portal “Acervo” e formada em moda pela Faculdade Santa Marcelina, Mariana de Castro Cordeiro, acredita que como todas as tendências do mundo da moda, o Brasilcore tende a ser algo passageiro impulsionado pelo clima da Copa: “Gosto muito dessa explicação que é uma tendência que veio para questionar a camisa da seleção para além da política, mas acho que isso ainda é meio utópico, acho que não é uma realidade ainda. A periferia já faz uso dessa camisa há algum tempo e a gente sabe que ela não recebe visibilidade. É algo que vai muito além da moda, vai para uma questão muito mais sociológica, antropológica, filosófica”.

A questão da marginalização surge em função de um julgamento de caráter enraizado no olhar popular quanto à vestimenta periférica. Camisas de time e bermudas largas não são bem vistas em shoppings e por vezes são, inclusive, relacionadas à vadiagem e ao crime. Quando tocam corpos brancos e estrangeiros, no entanto, as mesmas peças atingem o mainstream e viralizam nas redes sociais. Ainda para Mariana, esse preconceito cessou por conta das europeias que aderiram ao Brasilcore, mas como toda tendência, ela vai diminuir e assim, os seus usuários voltarão a ser marginalizados.