Aumento de preços no fast fashion afasta consumidores

Segundo o IPCA, houve aumento de preços em quase três vezes no mercado popular de moda, incluindo a fast fashion

Por Guilherme Centoamore, Guilherme Russo, Juliana Garcia, Marien Ramos e Miguel Pato

Foto: Guilherme Centoamore

Entre em qualquer loja de moda fast fashion e perceberá o aumento dos preços. Suéter custando mais de 200 reais? Calça jeans por 140 reais? Um moletom a 160 reais? O que o consumidor sente no bolso, o IBGE atesta nas pesquisas. De abril de 2021 a abril de 2022, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a inflação brasileira, aumentou quase três vezes no mercado popular da moda.

Era uma vez a fast fashion. A promessa de uma moda legal e acessível já ficou no passado. A lógica desse tipo de produção de roupas e acessórios se tornou o contrário do que foi proposto no seu começo. Entrar numa loja como Renner, C&A, Marisa e Riachuelo virou sinônimo de gastos elevados, bem diferente do que acontecia há não muito tempo.

Comercial antigo e novo do fast fashion

Em um comercial de 1989, a Riachuelo mostra modelos em uma passarela, com cores frias e desconforto ao usarem suas peças finas. Já quando vestem a anunciante, as cores ficam quentes, as pessoas felizes, confortáveis e descontraídas. Trata-se da rejeição da moda de alta costura, da imagem do luxo e, portanto, do caro. Avance o relógio e a mesma marca, em um comercial de 2019, mudou de posicionamento. Nele, as modelos desfilam pela praia, posam em posição de dominância, segurança, não há contraposto, é uma proposta que instiga desejo não só pela roupa mas pela emoção e pela reprodução da imagem veiculada. Para finalizar, a chamada “seja você, seja feliz”. A gigante do varejo não está mais buscando ser a alternativa para o luxuoso, mas sim ocupar este lugar. 

No passado, as empresas de moda carregavam seu marketing pelos pequenos preços, roupas básicas e confortáveis. Já hoje competem com marcas que propõem uma moda mais fina e que acompanha as tendências. Camila Ortega, professora de Moda e Marketing na Belas Artes, em entrevista para a Factual900, informa que as empresas estão se aproximando do modelo de negócios da Zara. Assim, deixam de serem básicas e apostam na constante mudança de gostos, coisa que acontece semanalmente.  

Além disso, a exigência por sustentabilidade dentro do fast fashion feita pelo público consumidor induz também a um aumento dos preços. A professora Camila analisa que o posicionamento e por consequência a melhora do produto custa caro, encarecendo as peças.

“Quiseram trazer coleções mais voltadas à sustentabilidade, também por uma necessidade do mercado que está exigindo. Em vez de usar um algodão comum, que usa agrotóxico, você usa um algodão orgânico, o preço fica maior e isso é repassado na peça”

Camila Ortega

Há um contraste entre o modelo de negócio que atraí o seu consumidor pelo preço e aquele que representa a moda do momento. Isso traz uma necessidade de alterar a apresentação da marca ao público. Portanto, o novo marketing aproxima o cliente da ideia de que adquirir uma peça mais cara também adquire uma experiência emotiva.

Dados sobre o aumento dos preços

Fonte: Ipeadata, design feito por Marien Ramos Ruiz

O relatório divulgado pela central de relação com investidor da C&A identifica políticas de crédito, circulação de consumidores próximos às lojas e exposição à cadeia nacional e internacional de compra dos produtos como fatores de risco. Isso, pois, são elementos que influenciam no preço de seus produtos.

Empresas listadas na Bolsa de Valores, tais como Riachuelo e C&A, são atingidas diretamente pelas crises tanto nacionais quanto internacionais. Guerra, pandemia, sanções econômicas e crises internas são vários dos motivos que levam a inflação no mundo de hoje e a indústria da moda não está fora desta cadeia.

O estudo “Empresas B na moda”, de Everton Mattos Meneghini, levantou dados sobre a inflação das roupas em relação aos outros produtos. De 1995 a 2014, o aumento de preços das roupas seguiu bem abaixo de todos os outros produtos em países como Brasil, China, Estados Unidos e Rússia, por exemplo. “Essa tendência geralmente demonstra ou excesso de estoque ou redução da demanda”, explicou Meneghini, indicando um tempo em que a fast fashion ainda podia ser considerada “barata”.

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