Imagem de um algoritmo estatístico
Assuntos Gerais Tecnologia

Como os algoritmos nos fazem reféns do mundo digital

Os códigos indecifráveis chamados de algoritmos acabam por afetar a todos que dependem de um sistema eletrônico

Por Alexandre Zerbinato, Eugenio Pedott, Gabriel Bertoli, Gabriella Andrade, Isabella Gouvea e Marcela Toniolo

A atuação dos algoritmos nas redes e na sociedade é um mistério para a maior parte da população. Todo mundo já ouviu falar, todo mundo acha que sabe do que se trata, mas a verdade é que poucos realmente compreendem como eles fazem parte da nossa vida. Os algoritmos são utilizados para classificar conteúdos em redes sociais, fazer buscas mais eficientes em lojas eletrônicas ou criar recomendações personalizadas aos usuários.

De acordo com Carlos Rafael Gimenes das Neves, professor de Sistemas de Informação da ESPM, um dos segredos dos algoritmos é que eles são construídos, por programação, para que sirvam a todos e não a uma pessoa específica. Mas o resultado deles é que parecem que foram criados justamente para cada um de nós. “O algoritmo monitora, por exemplo, ‘tags’, palavras-chaves de conteúdos que você gosta. E no caso de outras redes sociais, como o Tik Tok, os conteúdos que deixam muito tempo a tela parada, por mais que você não goste”, diz.

Com o acúmulo de um mesmo conteúdo para um único aparelho, foi percebida a retração da diversidade de informações fornecidas, restringindo o usuário em uma “bolha social”, como explicado pelo professor Carlos Rafael. “É um assunto bastante complexo. A pessoa vai ficar restrita numa bolha social, porque como o algoritmo vai marcando o que a pessoa gosta, depois de uma semana ou meses, a ‘timeline’ vai acabar ficando inundada de outros posts, imagens, vídeos com aquelas características. A chance da pessoa conseguir se desvincular disso facilmente, sem que a mesma ativamente vá procurar por outro conteúdo é baixa.”

Uma das principais funções do algoritmo das redes sociais é a personalização, que acaba por maximizar o engajamento do usuário e o tempo gasto nas plataformas. Isso facilita vida das empresas, que conseguem assim um sistema automatizado e lucrativo de venda de anúncios.  Mas esse processo de personalização desenvolvido pelos algoritmos pode alcançar níveis preocupantes. O usuário tende a ficar restrito a certos tipos de conteúdo que sejam de seu agrado ou interesse. Sem saber, esse “truque” tecnológico pode afetar sua socialização, formação de senso crítico e conhecimentos diversos.

E isso, como revés, abre espaço para questionamentos e inquietações. Não é raro que teorias da conspiração surjam na internet. Usuários temem que seus dados sejam vendidos e usados contra si. O professor da ESPM dá maiores detalhes sobre o assunto e faz o alerta: “100% de segurança, a gente nunca vai conseguir dar de nada”.

“Os algoritmos, que participam do grande compartilhamento, quando vão exibir um anúncio, falam assim: ‘Antes de eu exibir o anúncio, quem é o usuário? Ah é o usuário tal. Me fala mais ou menos os gostos dele’. E isso é de software para software. Então, não tem uma pessoa, um ser humano lá na loja do varejista perguntando quem é o ‘Rafael’, etc, não é assim que funciona. Na verdade, não é que todo mundo está te seguindo o tempo todo, é que você vai deixando rastros em redes sociais, em sites e toda a questão do anúncio é integrado”, explica Rafael.

O dilema das redes

O “mistério” dos algoritmos é um tema de frequente de discussão entre os usuários das redes e, para que todos tenham ciência do que acontece com os seus dados, diversas plataformas de streaming produziram conteúdos com tal abordagem, como por exemplo: alguns episódios da série “Black Mirror”, como ‘Hang the DJ’ e ‘Joan is awful’; “Privacidade Hackeada”; “Coded Bias”; e “O Dilema das Redes”, todos disponíveis na Netflix. 

Imagem promocional do documentário “O Dilema das Redes”(2020), na Netflix. – Divulgação

Com o fenômeno da globalização e o crescimento da importância das redes sociais no atual cotidiano, tornou-se comum a realização de tarefas remotamente, uma vez que antes eram feitas de forma presencial. Consequentemente, a padronização dos conteúdos apresentados para diversos usuários trouxe questionamentos sobre o funcionamento dos algoritmos e seus impactos na vida urbana.

O objetivo do algoritmo é melhorar a experiência do usuário, ao trabalhar na expansão dos conteúdos de interesse – atrativos para a permanência das pessoas na rede – e limitação de tópicos desinteressantes ao consumidor.

Por meio de regras pré-estabelecidas, as máquinas processam dados e encontram respostas para problemas. Do mesmo modo, o algoritmo utiliza as ferramentas de armazenamento de dados, como o Big Data, para obter insights e captar padrões dos usuários.

Produtores multimidiáticos

É certo que os algoritmos influenciam notoriamente na vida do consumidor de conteúdo online, mas como essa sequência de dados afeta também os produtores midiáticos? 

Para que um anúncio, uma imagem ou um vídeo chegue até um usuário, há uma seleção do algoritmo para que o público-alvo receba o conteúdo, sejam palavras-chave, quem está publicando e até o tema da publicação. Dessa forma, o criador, no momento de publicar, precisa agir de forma a se beneficiar com o algoritmo, muitas vezes tendo que se desviar de seu nicho de criação a fim de obter resultados positivos. 

Esse fato torna a rede social vista como um espaço grande para exploração, porém pequeno em questão de variedade, tendo em vista que os conteúdos mais visualizados são – quase sempre – de temática semelhante. Logo, muitas pessoas deixam de produzir conteúdo por prazer próprio e seguem fazendo-o apenas para seguir o que está em alta, aspirando a visualizações e curtidas.

 Isso, além de afetar o criador, retorna-se novamente à questão do consumidor, que tende a se sentir ansioso em uma busca cansativa por entretenimento midiático diferenciado ou que atenda ao seu gosto pessoal, mas o algoritmo continua recomendando os assuntos em tendência, prendendo-o em uma “bolha”, como explicado anteriormente.

Consequentemente, a necessidade do produtor de conteúdo de conseguir audiência em conjunto com a quantidade massiva de publicações semelhantes, formam um ciclo vicioso que afeta parte dos usuários, que tendem a passar cada vez mais tempo na frente das telas desejando lazer.

Com isso, o algoritmo priva, cada vez mais, os conteúdos publicados e o acesso a assuntos diversos, ditando o que será ou não visto pelo usuário e o que será produzido ou não pelo criador. Apesar da privação, essa sequência de dados é essencial para o funcionamento e o filtro de conteúdos ao consumidor nas redes sociais.