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“A sangue frio”: O polêmico gênero de romance não-ficcional

Como Truman Capote levanta detalhes sobre o assassinato da família Clutter e traz à tona debates sobre a ética jornalística

Por Eric Morales, Gabriel Alvarenga, Matheus Perez, Victor Espinola e Vinícius Salgado

A Sangue Frio, de Truman Capote, é um romance não-ficcional que conta a história do brutal assassinato de Herbert, Bonnie, Nancy e Kenyon, membros da família Clutter, em Holcomb no estado do Kansas. Publicada em 1965, a obra elevou Capote à nata dos mais renomados escritores norte-americanos. Tornou-se um best-seller e até hoje segue sendo reconhecido como essencial para a reflexão sobre a violência nos Estados Unidos.

A narrativa se inicia a partir da detalhada descrição da cidade e da família Clutter. Com a construção de um perfil aprofundado de cada uma das vítimas, o autor relata extensivamente a rotina e os últimos dias dos Clutter. “Normalmente, as manhãs do sr. Clutter começavam às seis e meia; era geralmente despertado pelo clangor dos baldes de leite e pela conversa sussurrada dos dois rapazes que costumavam trazê-los”, descreve o autor.

Capote também discorre sobre o trajeto dos assassinos Perry Smith e Richard ‘Dick’ Hickock até Holcomb, o palco da brutal chacina. “Contornaram a orla norte da cidade. Não havia ninguém nas ruas àquela hora, quase meia noite, e nada estava aberto além de uma fileira de postos de gasolina desoladoramente iluminados. Dick entrou em um deles – o Hurds Phillips 66”, relata o autor. Esse tipo de relato que intercala os últimos dias da família e o trajeto dos criminosos desperta no leitor a sensação de voltar à cena do crime.

Para a construção de A Sangue Frio, Truman Capote investiu em repetidas entrevistas com os personagens envolvidos no caso. Eles são a principal fonte do repórter investigativo. Apesar disso, o autor optou por não gravar as conversas. Ele acreditava que a presença de um gravador poderia intimidar o entrevistado. Optou por realizar conversas mais informais e diretas, para posteriormente juntar as informações obtidas.

O rico detalhamento dos personagens e das cenas, somado à falta de provas sobre a apuração do autor e à ausência de demais fontes, gera incertezas sobre a veracidade dos fatos narrados. A confiabilidade da obra acaba por ser intrinsecamente associada à confiança do leitor no escritor. Ao mesmo tempo, abre espaço para o surgimento de boatos de parcialidade do jornalista em relação ao caso.

Na narrativa, o perfil que Capote cria sobre os assassinos destaca características positivas deles. Mais que isso, gera empatia, de modo a entrar em contraste com a brutalidade do crime cometido. O autor chega a classificar um dos assassinos como uma boa pessoa: “Mas Perry, o velho e pequeno Perry de bom coração, sempre insistia com Dick para darem carona para pessoas mais desgraçadas e miseráveis”.

Sem a repercussão do livro, o caso teria permanecido esquecido em alguma gaveta da imprensa noticiosa. Por causa dessa obra-prima do jornalismo, pioneira no gênero do romance não-ficcional, a chacina ganhou notoriedade mundial e ficou eternizada na história. Com um trabalho de apuração de mais de 6 anos, A Sangue Frio é recomendável especialmente para pessoas que se interessem pela comunicação e pelo jornalismo investigativo.

A Sangue Frio. De Truman Capote. Companhia das Letras, 2013, 440 págs., 47 reais.