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“A Mulher do Próximo” aborda sexo de forma corajosa e inédita 

Conheça a obra do jornalista Gay Talese que apavorou a sociedade conservadora nos Estados Unidos por abordar o tema sem papas na língua 

Por Bruno Acerbi, Danilo Garcia, Felipe Unti, João Alves e Rafael Grossi 

Durante as décadas de 1960 e 1970, o sexo era tratado com um tabu na sociedade norte-americana. Hoje pode ser considerado natural falar desse tema, mas houve uma época em que era visto como algo sujo e maléfico. A Mulher do Próximo revela a coragem e a sede de revolução por parte do autor Gay Talese. 

Nascido na década de 1930 nos Estados Unidos, o jornalista chegou a trabalhar no New York Times. E dentre idas e vindas, Talese escreveu algumas obras que fizeram muito sucesso, como Fama e Anonimato, O Reino e o Poder e O Voyeur. A Mulher do Próximo, seu maior livro-reportagem, é marcado por uma narrativa descritiva e intimista. O autor passou a ser celebrado como integrante do New Journalism, um movimento que incorpora a literatura na escrita. 

Talese traz uma crônica que aborda sobre a permissividade dos americanos e como ela estava se desenvolvendo numa época em que as relações sexuais eram consideradas pecado pela sociedade e, sobretudo, pela Igreja. A obra trilha dos primórdios da repressão social nos Estados Unidos, como o combate de Comstock, a história de Hugh Hefner – fundador da revista Playboy, até a transição da repressão para a “liberdade” nos tempos mais recentes. 

A Mulher do Próximo também conta com a presença de alguns personagens comuns da sociedade, como John Bullaro, John Williamson e Bárbara Williamson, que tiveram suas intimidades invadidas, com consentimento, para que Talese ouvisse sobre suas experiências de vida. Esses personagens representavam uma afronta para parte da sociedade. A partir de entrevistas e visitas, o autor descreveu toda a intimidade dos três, do melhor estilo de Gay Talese.  

O escritor não deixa de transparecer sua luta contra a obscenidade, na qual ele se aprofunda na vida de um advogado que jogava contra essa censura em todos os casos que era escalado. A revista Playboy e os outros inúmeros livros e pin-ups – ilustrações sensuais de mulheres – se tornaram uma febre da época e objeto de contenda na Justiça para os que queriam impedi-las de serem publicadas. 

Esse livro é um de seus maiores marcos e também de envolvimento. Talese trabalhou como secretário em casas de massagem e retiros nudistas, como o popular Sandstone, visitado pelo autor, cujos donos era o casal John e Barbara Williamson.  

Talese consegue cativar todos os leitores em A Mulher do Próximo por meio de uma narrativa concisa e detalhada. Vale destacar que a escrita do livro foi um ato de bravura, porque foi capaz de tratar sobre sexo em uma época que zoofilia recebia uma punição menor que o sexo oral. A obra é mais uma aula de reportagem jornalística.

A Mulher do Próximo. Companhia das Letras, 2018, 502 págs., 43,99 reais.