Capa do livro "A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista", de Joel Silveira.
Cultura Livros para jornalistas

“A Milésima Segunda Noite na Avenida Paulista” desmascara a elite 

Como nos anos 1940, Joel Silveira emprega de forma inovadora recursos da literatura para contar histórias jornalísticas 

Por Felipe Bezerra, Gabriel Avino e Thiago Henrique.

A obra A Milésima Segunda Noite na Avenida Paulista e Outras Reportagens, de Joel Silveira, é um manual de instruções de como se fazer ótimas reportagens e perfis, principalmente pela riqueza de detalhes que o autor coloca na sua escrita. Embora o jornalismo literário já existisse, foi ele o primeiro no Brasil a se valer desse tipo de narrativa, antecipando até mesmo o “New Journalism” (novo jornalismo), movimento nos Estados Unidos dos anos 1960 e 1970 que contou com nomes como Truman Capote, John Hersey e Gay Talese. 

A reportagem que abre essa coletânea foi escrita nos anos 1940, e nela já se antecipa a linguagem mais próxima da literária e a força que ela podia ter. O texto conta em detalhes como foi o casamento da filha do magnata Francisco Matarazzo Junior, o Conde Matarazzo. Ele descreve como foi a cerimônia, a festa, transportando o leitor para dentro da cerimônia, onde só a elite paulistana estava presente. Joel, inclusive, não foi convidado, mas conseguiu um informante na festa que passou todos os detalhes de como foram os três dias e três noites de casamento. A reportagem chocou os grão-finos de São Paulo e consagrou o repórter. 

Uma grande virada de chave em sua carreira, que Joel Silveira conta no livro A Milésima Segunda Noite na Avenida Paulista, foi quando entrevistou o escritor Monteiro Lobato. Na entrevista, Monteiro criticou arduamente o então presidente da época, Getúlio Vargas. Resultado: o veículo onde Joel trabalhava, a Diretrizes, foi caçada pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), órgão de censura no Estado Novo, durante a ditadura varguista. 

Joel foi, então, convidado pelo empresário Assis Chateaubriand, o Chatô, para participar do Diário dos Associados. Na mesma hora ganhou o apelido de “A Víbora”, devido a sua linguagem ácida, debochada e capaz de destruir qualquer personagem por sua escrita. Joel conta o que Chatô disse para ele: “Seu Silveira, o senhor é um dos homens mais perigosos deste país, tem que vir trabalhar conosco. Diga quanto é que o senhor quer ganhar e vá se entender com o doutor Lacerda lá embaixo, na Meridional”. 

Chatô convidou Joel Silveira, então com 26 anos, para cobrir a Segunda Guerra Mundial na Itália. Antes fez um pedido para ele: “O senhor vai para a guerra! E vou lhe pedir um favor: não me morra! Repórter não é para morrer, repórter é para mandar notícia!” Dessa cobertura, resultaram reportagens e, depois, o livro Inverno da Guerra

A Víbora ganhou o reconhecimento da categoria, incluindo os prêmios Jabuti, Líbero Badaró, Esso Especial, Golfinho de Ouro, e o mais importante da Academia Brasileira de Letras, o Machado de Assis no ano de 1998. 

A Milésima Segunda Noite na Avenida Paulista e Outras Reportagens. De Joel Silveira. Companhia das Letras, 2003, 216 págs., 25 reais.