Capa do livro 10 reportagens que abalaram a ditadura
Cultura Livros para jornalistas

Os ensinamentos das “10 reportagens que abalaram a ditadura”

Coletânea organizada por Fernando Molica reúne dez emblemáticos textos que ousaram desafiar o regime militar no Brasil 

Por Gabriel Gandolfi, Helena Barboza, Mariana Tomiato e Manuela França

Era uma vez um jornalismo brasileiro que lutou contra regimes autoritários e apresentou profissionais da imprensa que exerciam suas atividades com coragem em uma época marcada pela censura. Embora estivessem em período impróprio para o jornalismo, com os instrumentos que tinham à disposição, um bloco de anotações e um bom par de sapatos, eles foram às ruas para denunciar violações dos direitos humanos e mantiveram viva a esperança de um retorno à democracia e ao livre exercício da comunicação. 

No livro 10 Reportagens que Abalaram a Ditadura, Fernando Molica apresenta algumas das melhores reportagens feitas durante a ditadura militar no Brasil. Ainda que os meios de comunicação apoiaram inicialmente o regime ditatorial, muitos jornalistas se empenharam em denunciar abusos políticos e econômicos, crimes e problemas sociais.  

As reportagens

O livro contém os bastidores das investigações, os desafios enfrentados na produção de cada matéria e os relatos de todos os envolvidos na apuração, produção e edição dos conteúdos. Cada capítulo apresenta uma reportagem em específico. Em “A Morte de Vlado”, publicada na Ex-, em novembro de 1975, Mylton Severiano descreve os detalhes do falecimento de Vladimir Herzog, também jornalista que lutava contra a ditadura. Trechos inéditos de comunicados oficiais, comentários e entrevistas estão presentes na íntegra, bem como o relato de Clarice Herzog, esposa do jornalista. “Eu vi o corpo. Só o rosto, quando abriram o caixão para fazer aquelas cerimônias judaicas. Foi muito rápido, mas deu para ver que a fisionomia de Vlado estava tranquila, o que aumentou minha convicção. Ele não tinha se matado”, escreve Severiano. 

Outra reportagem impactante é “Eles estão com fome”, publicada na revista ​​Realidade, em agosto de 1968, por Eurico Andrade. O repórter denuncia a situação miserável da população da zona da mata em Pernambuco. “O mínimo que um homem precisa comer para trabalhar é 2.600 calorias. Pois bem: a nossa pesquisa constatou nesse grupo de cem trabalhadores de Ribeirão um consumo de 1.323 calorias. Metade do mínimo. Eles não podem trabalhar, vivem num estado de fome crônica dos mais graves do mundo”, revela Andrade, informação que os militares não gostariam que fosse trazida à tona. 

A importância para o jornalismo

Escrito de uma forma simples, 10 Reportagens que Abalaram a Ditadura tem uma leitura envolvente, objetiva e informativa. Ainda hoje, o livro é capaz intrigar o leitor em saber mais sobre as outras reportagens e sua produção. É, ainda, uma fonte de inspiração de jornalistas sobre os meios de comunicar e descobrir a informação, detalhar ambientes e situações e dar voz aos personagens envolvidos.  

Em suma, a obra 10 Reportagens que Abalaram a Ditadura é uma ode ao jornalismo investigativo, aquele que luta pela justiça e pelos direitos humanos. Reunidas nesse livro, elas oferecem uma perspectiva única sobre um período sombrio da história brasileira e é essencial para aqueles interessados em jornalismo, história contemporânea e direitos humanos.

10 Reportagens que Abalaram a Ditadura. Organizado por Fernando Molica. Record/Abraji, 2005, 322 págs., 53 reais